Diálogos poéticos

Vida

-“Diálogo” com Fernando Pessoa – 1ª parte

Vida. O soar de um coração
Doce magia e também sofrimento
A verdade feita de ilusão
Numa alegria banhada a lamento

“Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso nada é inteiro.”

Tal como o acordar de um vulcão
Ou a forte rajada do vento
As voltas da vida, meu irmão
Vêm à sorte, não dizem momento

“Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim
De pensada, mal vivida…
Triste de quem é assim!”

“Quem eu pudera ter sido
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido
Se ao menos chovesse menos!”

Mas todo o sempre haverá de ser
Grande exemplo de jornada
Aquele que lutando morrer
Sem deixar vazia a estrada

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.”

E nessa vida, sem ter um segundo,
Vagamos à procura de um prumo
Envolto no mistério profundo
Daquilo que só tem um resumo:
Nós somos feito um nada no mundo
Pobre barco sem leme e sem rumo!

“E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada”

“Qual porém é a verdadeira?
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar”

Pois a arte de saber viver
Que nos leva a ser feliz
É viver para o saber
Como eterno aprendiz!

“Mas triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.”

“Eras sobre eras se somem
No tempo que em era vem.
Ser descontente é ser homem.”

Se para uns a luta é prazer
Em nossa vida tão desejada
Quem só deseja mesmo viver
Ganha forças surgidas do nada

Categorias:Diálogos poéticos

Tagged as: ,

3 replies »

  1. É incrível como as palavras do Pessoa dizem, exatamente, tudo que sentimos mas nunca soubemos verbalizar. O texto segue e, na leitura, encontra-se a pura expressão daquilo que sempre tivemos certeza de que queríamos dizer. E o discurso se confunde: não se sabe mais o que ele disse que nos coube e o que nós dissemos depois de tê-lo descoberto.

    Excelente poema, lindo diálogo.

    Obrigada pela dedicatória, cada vez mais crio coragem para me afundar voluntariamente nesse mar até perder o fôlego.

    Curtir

  2. Realmente “vivemos sem o saber como um eterno aprendiz” e nesse viver aprendendo “somos feito um nada no mundo. Pobre barco sem leme e sem rumo”.
    é muito bom saber que existem jovens que ainda sabem levar seus barcos com rumo, segurando firme seus lemes e aprendendo todo dia com mais sofreguidão a essência do fazer e do viver!

    Curtir

  3. Minha querida, o que dizer desses ” diálogos”? Algo como sensacional seria vago demais, impreciso. É lindo ver que as várias Anas não se furtam ao enlaçe com a poesia. Navegue sem medo no Mar Português. É revolto, mas dele vem a vida.

    Curtir

Comente sem medo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s