Jornalista é contador de Histórias!

Minha 1ª reportagem – O charme dos carros antigos

– Para o meu avô Antônio Ribeiro, in memorian. Se vivo fosse quando este texto saiu, tenho certeza que esgotaria o jornal em todos os pontos de distribuição que encontrasse pela frente e sairia pelas casas portuguesas e luso-brasileiras gritando: “É da minha neta!”

Um hobby, um esporte, uma paixão e até mesmo uma lição de história. Colecionar automóveis pode ser fascinante.

Recordar um tempo que traz boas lembranças sempre nos traz à mente imagens daquela época. É muitas vezes assim que começa o interesse das pessoas por colecionar e se dedicar a peças antigas, afinal muitas coleções nascem da vontade que se tem de poder guardar consigo partes de uma época, pedaços de uma história – com os carros não é diferente. E quais os critérios que um colecionador usa para definir se um determinado carro é ou não importante para sua coleção? Todos são unânimes em dizer que o principal é a raridade. Mas o que define a raridade de um carro? Provavelmente uma junção de fatores. Seriam eles: a antigüidade; a originalidade (se existem ou não outros iguais); o nome da empresa que desenvolveu sua mecânica ou da pessoa responsável pelo seu designer; país de origem; ou até alguém famoso a quem tenha pertencido o carro. E aonde esses colecionadores descobrem esses carros? Há quem garanta que se a pessoa olhar com cuidado um grande achado pode ser feito no ferro-velho perto de casa… Mas quem gosta e tem condições viaja o mundo à procura daquele carro que lhe chame atenção, que lhe encha os olhos, pode ser em pequenas feiras, mega-exposições, ou, quem sabe, fazendas escondidas. Para quem entende de carros e valoriza raridades, só para citar um exemplo, imaginem o fascínio que é ter em mãos um automóvel de carroceria assinada por Malzoni e mecânica Alfa Romeo de modelo único no mundo. Agora imaginem um ambiente onde se reúnam várias raridades semelhantes a essa, um momento de encontro e confraternização para seus respectivos donos conversarem à vontade sobre esse hobby em comum a todos, trocando experiências e debatendo sobre tudo que possa ter relação com sua paixão. Esses são os clubes de colecionadores de carros antigos. Quem faz parte deles com dedicação separa boa parte de seu orçamento e tempo para essa atividade. Há quem diga que é um hobby, há quem chame de esporte e há muitos que afirmam que a história desses carros se confunde com a de sua própria vida, mas o fato é que seja qual for a maneira como for entendida essa é uma atividade das mais caras. É claro que é preciso dispor de muito capital para investir na compra dos carros e mais ainda para providenciar local adequado para tê-los guardados, mas o que encarece mesmo é a soma incalculável necessária para manter em bom estado mecânicas e carrocerias cujas peças em muitos casos precisam ser importadas ou até feitas sob encomenda. Para se ter uma idéia da dificuldade, um detalhe interessante é que as peças feitas sob encomenda são às vezes feitas à mão pela inexistência de máquinas adequadas. Há ainda outro problema que é a falta de mão-de-obra especializada. “É um trabalho caro e demorado numa área que na cidade do Rio falta gente qualificada. Em São Paulo e no Sul do país, por exemplo, as pessoas parecem se interessar mais por automóveis.” É o que afirma um dos donos de uma oficina mecânica na grande Tijuca, que na juventude queria ser médico e hoje trata seus carros com todo o cuidado e carinho que trataria os pacientes. Ele disse acreditar que se aprende muito lidando com carros antigos e automóveis de uma forma geral: “A indústria no Brasil se desenvolveu a partir da vinda do automóvel para cá. É de certa maneira uma lição de história da industrialização brasileira.” Além disso, ele faz questão de defender o produto nacional: “Dizem por aí que o que é feito aqui é uma porcaria… Não! Nosso produto é muito bom, nosso material é muito bom!” Ele aconselha ainda a quem pretenda entrar para esse seleto grupo dos colecionadores de automóveis a só entrar se tiver de fato certeza que é isso que quer e gosta, caso contrário é melhor nem dar o primeiro passo. Diz ainda que se a pessoa entrar com a esperança de ter lucro nessa atividade também vai se decepcionar logo no início. Segundo esse apaixonado por carros antigos, “uma das coisas que essa atividade pode te dar é a satisfação de ter um carro antigo e passear com ele. É muito mais fácil você ser admirado se chegar num lugar com um carro 1950 em perfeito estado do que com um carro 2008. O 2008 todo mundo está acostumado a ver, o 1950 não.” Ou seja, uma pessoa pode passear pela cidade com seu importado novinho praticamente sem despertar curiosidade, mas se estiver dirigindo uma raridade certamente atrairá olhares de admiração. Pelo que parece há setores em que ser moderno está longe de trazer status.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de abril/08 do jornal de bairro “Correio Carioca”, onde fiz estágio.

Para ver a edição completa do jornal, clique aqui

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