Contando estórias

Uma estória portuguesa com certeza!

– Para o meu primo Quim, bem mais que um primo um amigo! Homem que quase morreu na guerra de Angola e um dia, do alto de sua enorme sensibilidade, observando as estrelas junto a mim em Portugal, ousou querer me dar a mais brilhante.

Certa altura, numa pequena vila do interior de Portugal, chega uma alfacinha, que foi visitar seus parentes.
– Olá, Carlos! Tudo bem? – perguntou a rapariga para seu primo, que estava à sua espera na paragem.
– Estou um pouco empalamado, mas não é nada de grave, só uma constipação – respondeu Carlos – e tu, Maria do Céu, como estás?
– Só estou um pouco cansada da viagem.
– Pois, já se sabe que é uma viagem cansativa, mas cá estamos.
– E como está o nosso avô?
– Há de ver como ele está fino. Ora bem, a carrinha está à nossa espera. Anda cá, vamos para casa.
– Vamos, então.
Ao chegarem no apartado de Carlos, o telemóvel dele tocou, era sua filha, Fernanda, que estava a trabalhar.
– Está lá?
– Estou.
– A Maria do Céu já chegou? – perguntou Fernanda.
– Já. O autocarro não atrasou. – respondeu Carlos.
– Atrasou? E chega a que horas?
– Ela já chegou. Eu disse que o autocarro não atrasou. Estás a ficar mouca ou quê?
– Pronto, está bem, não vamos ficar ao barulho por causa disso. Não estava a perceber o que havias dito. Diga a ela que devo tardar um pouco, pois o travão do meu carro avariou e terei de pegar um autocarro ou um comboio.
– Ai, como um caraças! Pena que eu não conduzo se não iria te buscar, mas vou dizer para o teu homem ir. – disse o pai preocupado.
– Até que faria jeito, mas é escusado.
– Está bem, então adeus.
– Adeus.
Carlos desligou o telemóvel e continuou a conversar com a prima que havia chegado. Ele disse que tinha ficado todo prosa ao saber que ela havia vencido o concurso de música portuguesa. Ela comentou que os tripeiros tinham ficado mordidos, pois há muito eles não perdiam esse concurso. Os dois ficaram até as tantas a rir e a contar anedotas.
No dia seguinte, quando ela acordou, o pequeno-almoço já estava na mesa:
– Já pusestes a mesa!? Tu não tens mesmo parança, escusava de se incomodar. – disse Maria do Céu admirada, pois ainda era muito cedo.
– Incômodo nenhum – respondeu Carlos. – faço isso com muito gosto e, como sabes, estou acostumado a acordar cedo. Olha, fiz este galão para si. Tu gostas?
– Gosto.
– Então vou botar na sua chávena-almoçadeira com um pouco de açúcar pilê, pois só tem um chisquito do outro. Tem aí um malga com manteiga. O cacete estorricou um pouco, mas é só dar uma raspadela.
– Para mim está ótimo.
Sentaram-se os dois a mesa.
– O galão está muito quente. – disse Maria do Céu.
– Pois… foi feito ao lume. – brincou Carlos.
– Tu és mesmo um patusqueiro.
– Espere um pouco que ele esfria. Enquanto isso prova esse melão que está bem sumarento.
Ela provou um pouco.
– Está a saber bem? – perguntou Carlos.
– É, sabe muito bem. – respondeu ela, satisfeita.
Eles terminaram o pequeno-almoço e Maria do Céu disse que mais tarde iria passear pela vila.
– Podes ir. Eu não vou consigo, pois vou ao banco pegar o dinheiro da reforma. Vou empatar muito tempo naquela bicha medonha. – disse Carlos, aferroado por ter de enfrentar a bicha.
– A bicha está sempre grande? – perguntou Maria do Céu.
– Ui! Teje calada!
– Não tem mal. Eu vou sozinha.
– Ora bem, já vou. – disse Carlos, abrindo a porta. – Ao sair, cuidado para não tropeçar no capacho.
– Está bem. Então adeus.
– Adeus.
Mais tarde, a rapariga foi passear. Estava a caminhar pelo passeio quando encontrou uma malta com muitos conhecidos.
– Estou a pensar em fazer umas compras. O que achas Antônio? – perguntou Maria do Céu, dirigindo-se a um deles.
– Está um estorreiro do caraças, mas vamos aproveitar que está tudo em saldos. – disse Antônio para a rapariga.
E foram os dois fazer compras.
– Penso em oferecer uma prenda ao meu pai, mas não sei o que hei de comprar. – disse a rapariga para Antônio.
– Podias comprar um fato. Eu conheço uma loja de pronto-a-vestir que vende uns fatos bem jeitosos, o que me dizes?
– Seria giro. Essa loja fica em que sítio?
– Fica um pouquito distante. É melhor irmos na minha lambreta.
– Está bem.
Pegaram, então, a lambreta e toca a andar. Chegando à loja procuraram alguém que os pudesse atender.
– Bom dia! Nós queríamos comprar um fato. – disse Antônio para a vendedora.
– O que acham deste? – perguntou a vendedora.
– Parece jeitoso, mas a gola está muito arrebitada e tem que ser um número mais pequeno. – disse Maria do Céu.
– E este outro?
– Este está bom – respondeu Maria do Céu, tirando o dinheiro da algibeira. – Obrigadinho.
– Obrigadinho.
Os dois saíram da loja e resolveram ir almoçar num restaurante e churrasqueira, que havia ali perto.
– Eu vou querer um prego, mas só se vier bem passado. – disse a rapariga para o garçom.
– De certo que sim. E o senhor o que deseja? – perguntou o garçom para Antônio.
– Eu quero um bacalhau a Zé do pipo. – respondeu o gajo.
Eles acabaram de almoçar e foram ao café tomar gelado. Na esplanada do café dois rapazes estavam ao barulho. Quando Antônio viu que quem estava na bulha eram Joaquim e Manuel, dois amigos seus, resolveu intervir.
– Que disparate é esse? Parem com isso! Um dia tão airoso e vocês ao barulho?! – disse ele enfezado.
– É esse estupor que fica a dizer asneiras! – disse Joaquim, referindo-se a Manuel.
– Eu, a dizer asneiras? Eu me fiei em você e me decepcionei. Eu já devia saber que havia muita imposturice no mundo. Tu és muito sostro. – retrucou Manuel.
– Mas tu és mesmo telhudo, ó pá! Tens uma balda, ou quê?
– Parem já com isso! – gritou novamente Antônio. – Estou para a minha vida! Vocês sempre foram amigos.
– Tens razão. – disse Joaquim.
– Pois então. Eu estava a pensar em levar a Maria do Céu para conhecer a minha quinta, o que acham de ir conosco? – convidou Antônio. – É da maneira que nós espairecemos um pouco.
Eles concordaram e lá se foram os quatro. O trânsito estava lento, por causa de dois pesados que estavam batidos na estrada. Tinham alguns sinistrados, mas nada de grave, só ferimentos ligeiros. Eles chegaram na quinta à tardinha. Estavam lá os filhos do Antônio. Ele ralhou com eles porque não haviam avisado que para onde iriam.
– Não ralhe com eles. – disse Maria do Céu.
– Eu me vejo tramado com eles – disse Antônio. – São muito marotos, deveriam estar em casa.
– Deixa os miúdos ficarem aqui. – disse Maria do Céu.
– Está bem. – concordou Antônio.
– O que achas de nós comermos logo o farnel que eu trouxe? – perguntou Joaquim para Antônio. – Tem sandes e sumo.
– Boa idéia. Então fazemos todos uma súcia. – disse Antônio.
E passaram lá horas consoladas. Foi uma borga!

Ana Helena Ribeiro Tavares
31/07/03

Categorias:Contando estórias, Contos

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