Só vibra o pulso de quem sonha – ou o porquê de eu acreditar no Lula

Lulaaaa

Por Ana Helena Tavares

Cor, brilho, voz, vibração, palavra. Certa vez ouvi uma senhora de 92 anos, esbanjando vitalidade, dizer que a palavra sempre foi sua maior arma. Foi com ela que sempre lutou e – mesmo nas derrotas – venceu.

Contou que já é professora de português há 75 anos e que, depois de tanto tempo, já viu passar pelas mãos dela pessoas de todos os credos – de todas as cores. Rindo, disse que já havia sido alfabetizada quatro vezes por quatro reformas ortográficas. Pelo entusiasmo demonstrado, certamente ainda passaria por mais quatro.

Seu brilho arrebatador no olhar e seu pulso vibrante acusam: ela nunca deixou de sonhar. Sim, ela tem um sonho. Faço idéia do sorriso que Luther King abriria ao saber qual. Ela sonha com um mundo em que as pessoas não nasçam para viver – mas para conviver. Seus 92 anos lhe ensinaram que essa é a maior das artes.

Tomando por base esse sonho tão grande, que é meu, dela e de tantos, fiquei pensando o que, mesmo os críticos mais ferrenhos, teriam a dizer quanto à figura de Lula no que diz respeito à habilidade para essa arte chamada convivência. Olhos castanhos, azuis, verdes ou negros, para ele todos foram sempre dignos do mesmo respeito.

Não há adegas neste país com vinhos que possam dizer que nunca se misturaram a azeite. Mais: misturas fazem parte do jogo político e, se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. O grande segredo está em não permitir que este jogo político que, queiram os “puristas” ou não, precisa ser jogado, contamine a chama da defesa da justiça social, da luta pelas liberdades democráticas e dos Direitos Humanos, de modo a apagá-la.

Foi mantendo acesa essa chama que, depois de realizar tantos sonhos, muitas vezes, tidos como quase irrealizáveis, ele se fez respeitar. Foi assim que seu olhar de retirante chegou a 2009 vendo o olhar negro do chefe da Casa Branca apontar para ele e dizer: “Esse é o cara!”.

Não me digam que é por mero acaso que “o cara”, mesmo bombardeado por uma grande imprensa de interesses pequenos, desfila sua credibilidade, de cabeça erguida e pulso sempre vibrante, desde os mais nobres salões internacionais aos mais pobres grotões deste país.

Ana Helena Tavares

Obs: Neste texto, que está também no blog que ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, eu adapto e mesclo pedaços de dois artigos meus: “O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro” e “Sim, nós podemos!“, de modo a focar mais especificamente na figura política e humana de Lula.

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser

– Dedicado ao meu amigo Abílio Mendes, por ser um doido que acha que eu mereço fazer meus rascunhos “em bloquinhos à la Picasso”.

Acordo e abro os jornais ainda a meio olho. De repente, o céu se queda escuro sobre meu único olho aberto e me dá uma vontade incontrolável de voltar ao travesseiro em busca de uma época mais minha.

Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Ben Bradlee para proteger rascunhos num bloquinho e ajudar a derrubar o presidente que eu nunca quis ser. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma o microfone. Quero ser Fausto Wolff, Barbosa Lima, tanta gente, mas, antes, preciso me construir…

Abro o outro olho, pego novamente o jornal e, como que de longe, pareço ouvir citarem Millôr: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Adoram isso, como é cômodo… Logo depois cospem ao mundo previsões catastróficas achando que isso é oferecer algo de útil para a construção da sociedade. Por que não fazer antes uma oposição a si mesmo? Qual a bandeira de quem faz sempre oposição a tudo? Podem dizer: jornalista não tem que ter bandeira… É lindo isso, mas ele tem, ainda que não deva hasteá-la no terraço do seu prédio.

Com os olhos ainda relutantes, o que vejo? O cifrão é o guru que liberta. A expressão “atrás das grades” virou chacota. O prender e o soltar se tornam, de forma cada vez mais visível, lados do ioiô que serve ao sórdido jogo político.

Um jogo regado a muito champagne – fajuto – daqueles para fazer vista… E uma boa dose de microfones e bloquinhos comprados a 1,99 (porque senão quebra a empresa) e vendidos a preço de ouro.

O mesmo jogo para o qual não interessa um presidente como o nosso. Bem que muitos deles queriam ser ele – o admiram – mas, afinal, precisam garantir o sustento. Emprego fixo está difícil, ainda mais para jornalista.

Quem sabe na cobertura de guerra? Mas antes é preciso ver qual lado dá mais… Ou seria qual lado vai explodir primeiro? Que tipo de torcida midiática é essa que em busca de inflar os próprios egos não vê a hora de um verdadeiro apocalipse para dizer: “Nós avisamos!”?

É triste, mas a lei é da oferta e procura. Se o trágico é tão oferecido é porque vende. E muito. Em toda a história da humanidade uma casa em ruínas sempre parou mais olhares do que um campo de girassóis.

O problema todo está em como se oferece o trágico. Para uma cobertura jornalística bem-intencionada, pode ter havido, digamos, uma explosão no botijão de gás da casa e os proprietários, gente humilde, já estão se reestruturando na casa de parentes. Para outro jornalista, pode ter havido um curto circuito na rede elétrica e os proprietários, gente humilde, estão desabrigados sem a devida assistência do governo.

Não é difícil um suicídio se tornar assassinato nas mãos de um editor. Como é fácil jogar números soltos pelas colunas de economia e dizer que aquilo aponta o fim do mundo. Que fim? De que mundo?

São tantas as perguntas que me vêm à mente, mais do que perguntas, inquietações. Por que Ben Bradlee seria demitido da Folha? Podem-se imaginar várias razões, mas a maior delas seria, sem dúvida, a feia mania de seguir seus instintos… Para que jornalista vai ter vontades se o mercado já as tem?

E Robert Fisk, por que não conseguiria trabalhar para a Globo em coberturas de guerra? Talvez porque um belo dia ele fosse preferir não voltar para a redação…

E Hélio Fernandes, por que não seria preso caso escrevesse algum artigo subversivo? Ah, estamos num país democrático… Diz-se de tudo e ouve-se de tudo.

Só falta se lembrarem de fazer oposição a um velho ditado. Notícias também podem ser boas.

05 de Fevereiro de 2009,
Ana Helena Ribeiro Tavares

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P.S. Inquietação final: Por que este texto dificilmente seria publicado na grande imprensa? Porque, além de ser um tanto desconfortável, não dá lucro fazer oposição a si mesmo…

Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser no Observatório da Imprensa

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Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser no Recanto das Letras

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