Morre Mello Bastos, piloto que salvou Jango

Por Ana Helena Tavares, jornalista

Faleceu na última quinta-feira, 30 de maio, aos 101 anos, Paulo de Mello Bastos, conhecido como comandante Mello Bastos. Sindicalista destacado nas décadas de 1950 e 60, piloto habilidoso e militar legalista, estão, entre seus principais livros, “A caixa preta do golpe de 64” (Ed. Família Bastos) e “Salvo conduto – Um voo na história” (Ed. Garamond).

Mello Bastos será cremado no Memorial do Carmo. Era viúvo de Edelena Bastos. Deixa as filhas Tânia Bastos, advogada, e Solange Bastos, jornalista. Já havia falecido, em 2018, o seu filho Pablo Bastos, conhecido como João Nery, ativista dos direitos LGBT.

Símbolo da legalidade, herói em um país que não cultua a memória, Paulo Mello Bastos esteve com Getúlio Vargas, batendo um papo, na intimidade de sua fazenda em São Borja. Foi lá, com uma comitiva, para convencer Getúlio a se candidatar em 1950 e sugerir a ele que fundasse a Petrobras. Sugestão que viria a ser aceita.

Mais tarde, em 1961, já como tenente-coronel-aviador reformado e piloto da então glamourosa Varig, foi Mello Bastos quem conseguiu fazer com que, após a renúncia de Jânio Quadros, o então vice-presidente João Goulart (que voltava da China) pousasse em segurança em Porto Alegre para assumir a presidência. O avião estava ameaçado de ser abatido por caças militares que queriam dar o golpe já naquele ano – era a “Operação Mosquito”. Como Mello Bastos se livrou disso e salvou Jango? 

“Eu era comandante de avião a jato. Então, fiz um plano. Em vez de vir a 40 mil pés, 13 mil metros, eu vim a 300 pés, infringindo. Porque, como o avião de caça ataca, com metralhadora, de baixo para cima, eu vindo baixinho ele não tem espaço para me atacar, senão ele bate”. 

“Voeei baixinho”, contou Mello Bastos. Foto: Ana Helena Tavares

Além de piloto genial, Mello Bastos foi também um líder sindical respeitado, tendo estado à frente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). No ano em que foi demitido da Varig, em 1963, rodoviários, aeronautas e navios petroleiros, deflagraram, em solidariedade, uma das maiores greves dos transportes que esse país já viu. Batizada de greve Mello Bastos. 

Inquéritos que Mello Bastos sofreu mostram que ele era acusado de “comunista” simplesmente por fazer greve.

Em 1964, era uma das lideranças mais visadas pelos golpistas. Preso, foi obrigado a se exilar.

Mello Bastos partindo para o exílio. Debaixo do braço, o livro “O crime do século”.

Estava longe de ser comunista. Na entrevista ao meu primeiro livro (“O problema é ter medo do medo – O que o medo da ditadura tem a dizer à democracia”), brincou,. “Na Varig, cheguei a ganhar mais de 10 mil dólares por mês, você acha que eu lutava pra diminuir meu salário?” 

Com sua esposa, Edelena, em frente à sede da Varig nos anos 90.

O tenente-coronel Mello Bastos nunca compactuou com a ditadura implantada por 21 anos por alguns de seus colegas de farda. Ditadura que exilou mentes brilhantes, como ele, destruiu sonhos, censurou, torturou e desapareceu com corpos. Por ter a farda limpa, não se pode, ainda mais no Brasil de hoje, esperar que tenha honras militares sobre seu caixão. Mas ele está bem acompanhado, pois o Marechal Henrique Teixeira Lott também não as teve.

Voe em paz, Comandante!

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