Dialogando com a água

1) Um pouco de história… – A evolução do potencial hídrico no mundo e o desenvolvimento dos muitos mitos que envolvem a água

“A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.” (Art. 2º da “Declaração dos Direitos da Água”, homologada pela ONU, em Paris, em 1992).

Nosso planeta bem poderia se chamar planeta Água, afinal, mais da metade dele (2/3) é coberto pelo precioso líquido. No entanto, ao contrário do que se pensa é muito reduzida a porção utilizável pelo homem.

Nesse contexto, nunca é demais lembrar que nos últimos anos a evolução do consumo de água tem levado muitos reservatórios ao limite de sua capacidade. Considerando-se que, historicamente, a disponibilidade de água sempre exerceu grande influência sobre a evolução de um país e de seu povo, a situação mostra-se, então, alarmante.

Há de se considerar que, ao redor do globo, a água doce superficial é distribuída de forma desigual. Enquanto ela é abundante em algumas regiões, como no sul e no norte do Brasil, onde durante todo o ano as bacias dos rios Amazonas e Paraná proporcionam energia, alimento e vida, em outras, sua ausência é sinônimo de pobreza e morte. Afinal, variando-se a quantidade de água de um lugar para outro, variam também, em especial, as características da agricultura e da pecuária, variando, enfim, as possibilidades de desenvolvimento humano. Em lugares onde o clima é predominantemente árido e o abastecimento de água depende de rios e de raras estações de chuva, isso é ainda mais visível, tornando a luta pelo acesso à água e, portanto, à vida, um problema cada vez mais crônico.

Vejam o paradoxo… A água teve papel primordial na origem da vida, sem ela não haveria sequer seres vivos quanto mais seres humanos, e essa mesma humanidade que ela inventou é agora a responsável por sua agonia e pode ser, no futuro, o motivo de seu fim. Não cuidar da água é uma atitude de autodestruição, é fechar os olhos para nós mesmos e para nossa história, é esquecer o cerne da vida e ofuscar o seu encanto.

De elemento purificador em muitas religiões a comprovado potencial terapêutico, a água sempre exerceu grande influência no ser humano. Desde os tempos mais remotos, a imponência da água e seus muitos segredos sempre aguçaram a imaginação dos povos. Na tentativa de explicar o que se mostrava inexplicável e maravilhados com sua magia, os antigos endeusaram a água e cercaram-lhe de mitos que sobrevivem até hoje, dando um toque todo especial à relação do homem com a natureza.

2) Fonte de vida – A água e a origem do mundo

“Conseguir alimento não deve ter sido problema para os primeiros seres vivos, pois a água do mar os envolvia.” (Fernando Gewandsznajder – biólogo – em seu livro “Biologia”)

Segundo estudos científicos, a origem da água na Terra se deu em duas fases distintas: 1) pela ocorrência de vapor de água na atmosfera primitiva que se dispersou num primeiro momento por causa da elevada temperatura existente, provocando uma notável diminuição da temperatura ambiente; 2) pela representativa chegada de quantidade vinda do interior do planeta, ocupando os vales da crosta, numa profundidade média de 3 a 4 quilômetros. Esse volume de água não foi disperso para o espaço sideral em forma de vapor, como foi o caso da maioria dos planetas, que eram extremamente quentes, em virtude de a água ter se deparado com uma crosta terrestre menos aquecida. Aliás, a Terra é o único planeta que tem água em estado líquido.

No início, a água era pobre em minerais. Entretanto, seu enriquecimento – especialmente em sais – foi gradual, tendo sido feito através de sua movimentação sobre os leitos dos oceanos, em movimentos sísmicos, a altos graus de temperatura e através de uma contínua acumulação proveniente dos continentes e com eventuais precipitações pluviais.

Essa gênese hídrica foi o berço da vida. Sabe-se que proteínas aquecidas e misturadas à água fria podem agrupar-se formando pequenas gotas chamadas microsferas. Outro tipo de aglomerado de moléculas orgânicas pode ser também obtido, misturando-se ácido a uma solução de proteínas em água: as proteínas se aproximam e formam aglomerados visíveis ao microscópio óptico: são os coacervados. O coacervado ou a microsfera, presente nos mares primitivos, que tivesse aprisionado em seu interior proteínas enzimáticas e uma molécula de ácido nucléico (originada das sínteses de moléculas orgânicas da atmosfera primitiva), seria considerado o primeiro ser vivo. Isso porque ele teria a capacidade de realizar metabolismo, de reproduzir-se, de apresentar hereditariedade e de evoluir.

Desde o surgimento dos primitivos seres vivos, todas as formas de vida têm uma necessidade imperativa de água – e esta provém dos oceanos, até mesmo aquela que é utilizada na terra pelas plantas e animais. Vida alguma poderia existir, porém, por um momento sequer sobre a Terra, se a água não tivesse a capacidade de dissolver mais substâncias do que qualquer outro líquido conhecido, o que, por exemplo, possibilitou ao primeiro ser vivo nutrir-se simplesmente absorvendo e utilizando as inúmeras moléculas orgânicas simples presentes na água. Por vários motivos, essa e muitas outras propriedades da água – no estado líquido –, como a sua extraordinária capacidade de armazenar calor, parecem quase ter sido inventadas para tornar o mundo hospitaleiro à vida. Na verdade, em última análise, nós mesmos, os seres humanos, tivemos origem na água.

3) A água na mitologia

“Grande parte dos mitos origina-se do desejo do homem de explicar fenômenos naturais como a água” (Tancredo Pinto, professor de mitologia)

Quando se trata de mitologia, há uma pergunta que não quer calar: afinal, o que significa o termo mito?!

Pode-se dizer que, no nosso contexto, mito quer dizer história ou conjunto de histórias que fazem parte da cultura de um povo e tentam explicar fenômenos incompreendidos.

Mitologia greco-romana

A água é um elemento de fundamental importância na cosmogonia, a origem do mundo para a mitologia grega. A água, Hidros, aparece para salvar a Terra, Gaia, que
estava sendo queimada por Piros, o fogo.

Essa entidade Hidros/água, passa a fazer parte do mundo olímpico de Zeus e dos deuses do Olimpo. O deus Poseidon, Netuno para os romanos, era o senhor das águas, o deus dos mares e também dos rios. Seu palácio era no fundo do mar Egeu e sua arma era o tridente, com que provocava maremotos, tremores de terra e fazia brotar água do solo.

Entretanto, Poseidon, mesmo sendo o senhor das águas, não exerce sobre ela um poder absoluto, pois a água é um elemento primordial, que surgiu ainda antes de haver o deus.

A água se faz sempre muito presente, sendo símbolo de continuidade, fertilidade e proteção materna.

Ela sempre é habitada ou transformada. O rio Serifo, por exemplo, personaliza-se: ele toma forma de homem e deita-se com as ninfas. Mito muito semelhante à lenda do boto cor-de-rosa na mitologia amazônica, em que o peixe de um rio vira homem e deita-se com as mulheres à noite.

Mitologicamente, os rios são seres masculinos e cada rio é um homem.

Ao tomar banho de rio, as entidades femininas como as ninfas, podiam engravidar e ter muitos filhos. São inúmeros os filhos da água na mitologia, são cinqüenta, cem filhos num mesmo parto! Esse extremo exagero é justamente para fazer ver a fertilidade da água e sua grande importância na antigüidade.

A deusa do amor da mitologia, Afrodite (Vênus), não teria nascido do ventre de nenhuma mulher, deusa ou mortal, ela teria surgido da água do mar.

O mar era muito importante e vários personagens povoavam-no. Além de Poseidon (Netuno), sua esposa Anfitrite, seu filho Tritão (que era responsável pelo movimento das marés), e o velho do mar, Nereu, com suas 50 filhas, são outras divindades marítimas. Dentre as divindades aquáticas estão também os deuses rios, ninfas aquáticas e o deus Glauco, que supõe-se ter sido um pescador que, enlouquecido por uma erva mágica, atirou-se no mar e se tornou o profeta das águas. Havia ainda a deusa Tétis, as sereias, as pléiades, que eram filhas de Poseidon (Netuno), e as nereides, que são outras divindades aquáticas, no caso, todas mulheres.

Depois de guerras, lutas e mortes injustas, a água servia para a purificação. Como forma de se purificar de algum ato vil que cometessem, os gregos se banhavam num rio. Eles desenhavam o mar em formato de serpente que, muitas vezes, representa a mutação das águas. Para a cultura do mundo antigo, a água sempre foi de vital importância, um elemento extraordinariamente forte, sempre venerado e respeitado.

Mitologia asteca

Para os astecas, Tlaloc é o ser que se ocupa da tutela da água, é o Deus que pode fazer com que a vida possa continuar eternamente. Considerado também o Deus da chuva e da tempestade, era um dos deuses mais cultuados no antigo México.

Lendas africanas

Afrodite (Vênus), das lendas greco-romanas, é a mesma Iemanjá (sereia) dos cultos afros. Julga-se ser uma só sob nomes diferentes.

Na mitologia afro, Iemanjá é a divindade das águas verdes e salgadas. Ela leva um leque e bracelete de metal prateado e dança interpretando o movimento das águas agitadas. No Brasil, é considerada pelos umbandistas a rainha do mar e protetora da família, cultuada aos sábados e fins de ano nas praias.

No entanto, dentro do sincretismo católico-umbandista, ela é Nossa Senhora da Glória, festejada a 15 de Agosto no Rio de Janeiro e a 2 de Fevereiro na Bahia, como Nossa Senhora das Candeias, ou dos Navegantes.

Mitologia fenícia

O estado de umidade dependia do Deus Aleyin e, por isso, ele era considerado o espírito das fontes, mananciais, arroios e rios.

Mitologia indígena brasileira

Tamandaré, o correspondente indígena do Noé bíblico, salvou sua civilização, livrando-a da tempestade que alagou o local em que vivia. A mitificação da água, elemento recorrente na mitologia indígena, recorre justamente da suma importância que essa substância pura tem para as tribos do Brasil. Quando, há quase quinhentos anos, os lusitanos aportaram em terra de Pindorama, como os índios a chamavam, um dos aspectos que mais os impressionaram foi a limpeza característica de todos os índios: homens e mulheres tão limpos que não se intimidavam em mostrar suas “vergonhas”. Provavelmente, essa cena remeteu-lhes à própria realidade dos europeus, em que banhos diários eram simplesmente inimagináveis.

Mitologia celta

Entre os celtas Boann era a deusa da água e da fertilidade. Os heróis celtas, muito freqüentemente, consideram-se filhos do Rio Reno.

Mitologia egípcia

No panteão de deuses egípcios, havia três divindades relacionadas com a água: Sobeque e os irmãos Osíris e Seth. Sobeque, também conhecido como Deus-crocodilo, era considerado o senhor do universo e venerado em cidades que dependiam da água. Já Osíris era o Deus da vegetação, a personificação da fecundidade e a fonte total e criadora das águas. Simbolizava na sua morte a estiagem anual e no seu renascimento, a cheia periódica do rio Nilo e o desabrochar do trigo. Ensinava os seus súditos a cultivar a terra e aproveitar da melhor maneira os seus frutos, procurando orientá-los em tudo que precisassem. Seth, por sua vez, era o Deus do Alto Egito e estava associado às tempestades. Conta a lenda, que depois que matou seu irmão Osíris, passou a ser conhecido não só como o Deus das tempestades, mas também como o Deus da destruição e da guerra.

No Egito, para garantir a existência e continuidade da vida, a mesa de pedra talhada ou a mesa de libação era posicionada nas margens dos rios e sobre ela derramava-se vinho que – ao escorrer pelos sulcos sinuosos da terra – representava os meandros desses rios.

Certa vez, um grego, ao conhecer o Egito, deu ao país o título de O Dom do Nilo, em virtude de o Rio Nilo proporcionar a maior parte da riqueza do Egito.

Toda essa exposição da mitificação da água nas antigas civilizações citadas só vem mostrar o quanto esses povos sabem – ou, infelizmente, sabiam: o incalculável valor da água. E faz-nos pensar em quão maravilhoso seria se a nossa civilização dita moderna, se inspirasse nessas civilizações consideradas tão atrasadas e desse a merecida atenção a esse bem natural, tratando-o como parceiro para o desenvolvimento.

4) A água como purificação do corpo e do espírito
“Eu voz batizo com água, para o arrependimento”. (Mateus 3:11)

A palavra batismo vem do grego, “baptizein”, que quer dizer mergulho ou imersão na água.

Nas religiões cristãs em geral, o batismo é o rito escolhido por Deus, simbolizando o início da vida espiritual do indivíduo. O batismo nas águas ministrado por João Batista, no Rio Jordão, por exemplo, era um banho profundamente sagrado.

Para os seguidores da linhagem Luterana, representa a admissão solene da iniciação religiosa, através do ritual da ablução, ou seja, banho de todo o corpo, ou parte dele, com esponja embebida em água ou toalha molhada, ou seja, é essencialmente um ritual de purificação por meio da água.

Na Igreja Católica Romana, o batismo também é de fundamental importância, simbolizando o renascimento espiritual. Assim como nas demais religiões, a água é um elemento indispensável do ritual católico do batismo e quem recebe o sacramento pode simplesmente ter a testa molhada ou a cabeça respingada com água, representando a purificação de todas as culpas e pecados.

Fazendo um breve paralelo com o fato de o batismo em água ser em algumas religiões considerado a purificação dos pecados, lembro aqui de uma curiosidade sobre a simbologia da água. Dante Alighiere, em sua Divina Comédia, sugere a água como símbolo de purgação, quando em uma das passagens do texto diz que o ser do purgatório poderia ver a água, mas não poderia bebê-la, o que lhe seria uma forma de castigo. Visão semelhante ao mito grego de Sísifo.

Voltando à presença da água no ritual de batismo das diversas religiões, no caso dos judeus dos tempos apostólicos, ser “batizado” sugeria “batismo de prosélito”, ou seja, ato praticado quando um pagão se voltava contra o judaísmo. Este, ficava em pé com a água até o pescoço enquanto era lida a lei, depois submergia das águas, como sinal de que abandonara as práticas do paganismo para então prosseguir nos preceitos judaicos.

Há em toda época antiga, rios sagrados, no qual os povos banhavam-se para purificar-se física ou mentalmente, hajam vistos os povos da Índia milenar serem levados a banhar-se nas águas do rio sagrado, o Ganges, cumprindo assim parte de um ritual que, para eles, é indispensável e sagrado. Além disso, nos rituais da Umbanda os banhos também se fazem muito presentes. Desde os tempos mais remotos, eles sempre foram um potente integrante do sentimento religioso.

5) A influência da água como quarto elemento da natureza

“Energia concentrada, lenta e grande talento para estabelecer conexões.” (astrologia)

A água se adapta à forma que a abriga, seja um copo, um vaso ou um pedaço de terra, por exemplo. O elemento água é receptivo e moldável, assim como nossos sonhos, nossas fantasias, nossos desejos e nossas emoções.

Na astrologia, o elemento pode ser simbolizado pela alma ou pela emoção.
Os signos de água – Câncer, Escorpião e Peixes – vivem em seus sentimentos, é o estado emocional que determina seu comportamento. Os aspectos negativos são: temores irracionais, instabilidade, descontrole emocional e magoar-se com facilidade, o que deve ser contornado por meio da firmeza. As pessoas de água devem ser firmes consigo mesmas, não se deixando levar pelas emoções e sentimentos descontrolados.

Há, claro, muitos aspectos positivos trazidos pelas vibrações do elemento água. As pessoas dos signos de água, são extremamente intuitivas e tendem a descobrir a vida com mais sensibilidade do que racionalismo. Sempre em sintonia com as emoções, muitas vezes vêem nelas sutilezas que outras pessoas sequer percebem. A energia do elemento as leva sempre a procurar agir com o coração. Esta sensibilidade tem uma força incrível, quando canalizada para atividades ou situações que exijam o uso das emoções.

6) O potencial terapêutico da água – Como ela se faz presente na vida do ser humano

“Uma lágrima, uma gota de água: a sutil explosão corporal dos sentimentos” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos séculos que a água vem sendo usada para terapias – romanos, chineses, japoneses, egípcios e hebreus já acreditavam no seu poder terapêutico e energético. Nos dias de hoje, está cada vez mais comprovada a sua eficácia no auxílio à cura de diversos males.

A água de fato pode ser uma grande aliada para terapias mentais e corporais. Com a hidroterapia, a pessoa pode executar movimentos que, muitas vezes, julgava-se incapaz. Esse tipo de tratamento permite resultados mais rápidos e eficazes, pois fora d’água as dores tendem a ser mais agudas. Além disso, em terra o corpo tem que lutar contra a gravidade, já o ambiente aquático neutraliza esse fator. Em vista disso, em muitos casos, os astronautas, são treinados na água.

Essencialmente, a terapia aquática é eficaz por conseguir aliar o bem-estar físico e mental. As aplicações hidroterápicas podem ser na forma de fricções, banhos, compressas, duchas, enfaixamentos e saunas. Dentro d’água, um paciente ferido pode, por exemplo, exercitar um músculo danificado expondo-se menos à dor e ao estresse.

Além de auxiliar em terapias, a água é também considerada a melhor bebida. Revigorante e desintoxicante, beber água com freqüência é de extrema importância para o bom funcionamento do corpo humano, o qual é 70% água.

Ainda dentro do contexto da influência que a água exerce sobre o ser humano, ela é muito vista também como sinônimo de lazer e esporte. Para quem procura diversão, por exemplo, parques aquáticos e aquários artificiais fazem grande sucesso.

No que diz respeito aos esportes aquáticos, inúmeras são as opções. Pólo aquático, hidroginástica, saltos ornamentais, mergulho, natação, canoagem, iatismo, pesca submarina, remo, vela, surfe… E poderia citar muitos outros, mas dentre esses vale ressaltar que a natação é considerada o esporte mais completo, por trabalhar magistralmente a maior parte dos músculos do corpo, aliando a isso a contribuição para uma melhor respiração e o estímulo à circulação sangüínea.

Como se pode ver, estando ou não doente, seja em terapias ou em atividades esportivas, qualquer pessoa pode e deve lançar mão dos benefícios da água para aliviar a musculatura, relaxar a mente e gozar a vida.

7) A água vista como símbolo de prosperidade, fartura e fertilidade

“Essa terra é de tal maneira graciosa que, querendo aproveitá-la, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem” (Pero Vaz de Caminha na “Carta do Descobrimento do Brasil” )

Feliz da terra que tem água! Águas que embelezam, transportam, alimentam, fertilizam…

Grande magia há numa paisagem rodeada de água. Sentar-se a observar o correr de um rio ou o bater das ondas do mar é um colírio para os olhos, um elixir para a mente.

Lugares com grande ocorrência de rios e mares são abençoados não só porque o transporte aquático constitui-se em importante estratégia comercial, mas também pela grande beleza que há em se ver atravessando um lago, um rio, um mar… Poder “andar” por sobre as águas
seja num luxuoso navio ou num simples barco, sempre foi algo que encantou o ser humano.

Sabe-se que as hidrelétricas são grandes aliadas para o abastecimento de eletricidade. No entanto, a água, muito antes de ser fornecedora de energia, é essencial geradora de alimentos. Desde os tempos mais remotos até os nossos dias, a pesca sempre foi uma das mais importantes atividades humanas. Com peixes e frutos do mar pode-se alimentar toda uma comunidade.

A água, porém, não só gera alimentos, como também possibilita a sua produção em terra. Sem água o solo por si só não daria conta e plantações não sobreviveriam. Terra com água é terra fértil e produtiva.

8 ) Conclusão e considerações finais – A prioridade de se olhar a questão com maior compromisso para que, preservando-se a água, seja preservada também a beleza de seus mitos

“Para algo ser um mito não é preciso que de fato exista, mas sem água nem vida existe… Num mundo desértico, quem sobraria para manter esse mito??” (Ana Helena no poema “A água é dona da água?”)

Há muitos anos que o descaso de grande parte da humanidade com a natureza e, em particular, com a preservação da água, vem fazendo com que se tornem cada vez mais escassas as fontes de água utilizável pelo ser humano.

Nosso planeta recebeu o privilégio de ser o único a ter água em estado líquido, possibilitando que nele surgisse a vida e, conseqüentemente, a humanidade. Resta a nós preservar essa dádiva que nos foi dada para que ainda possa haver muitas e muitas gerações sobre a Terra. Sendo conservada, assim, a vida e sua qualidade, e fazendo com que essas futuras gerações possam conhecer o fascínio da água e continuar a cercá-la de mitos.

Cuidar da água é manter viva a Terra. O início da vida dependeu da água e dela também depende o seu futuro.

Ana Helena Tavares

O aflorar do ser – um ensaio para teatro

Livremente inspirado no texto “Apelo aos homens”, de Charles Chaplin.

ROTEIRO: Ana Helena Tavares e Maria Cecília Sousa.

A cena inicia-se com a personagem Carlitos entrando e sentando-se no banco de praça. Sua expressão é triste, pois ele demonstra estar completamente desgostoso da vida. Nitidamente, percebe-se em seu rosto um profundo descontentamento. (Seu pensamento então, é transmitido para o público em off)

Voz em off: – Não entendo. Não consigo e acho que nunca irei compreender o que se passa na cabeça da humanidade. Tenho pena, é verdade. Tenho muita pena do rumo que estamos tomando e me preocupo se haverá tempo para mudá-lo. Sabe, não nasci para governar nem dirigir nada! Este nunca foi um dos meus pedidos. Mas também não nasci para ser adestrado ou domesticado por ninguém. E talvez seja esse o meu grande erro… Ficar sempre com meias palavras, não querer prejudicar ninguém. Ganhei fama! Mas para quê? Não me respeitam como sou e, aliás, nem a si próprios respeitam. Se fosse só comigo… Ah! Não seria o grande problema, essa vida até já me foi generosa. O que me decepciona é ver os homens calarem-se diante de tanta incompreensão! E olha que nem estamos na época do cinema mudo! Se bem que naquela época ainda havia mais expressão. Esses olhos que outrora sonhavam sorrindo, hoje choram diante da triste realidade do mundo.

(CARLITOS PRESENCIA CENAS DE VIOLÊNCIA E DESCASO, QUE OCORREM NA PRAÇA NO MOMENTO EM QUE ELE ESTÁ SENTADO NO BANCO: UM ÔNIBUS QUE NÃO PÁRA AO VER UMA VELHINHA FAZER SINAL; UM ASSALTO; E UMA MENINA QUE VEM LHE PEDIR ESMOLA)

Voz em off (CARLITOS LEVANTA-SE E DIRIGE-SE AO PÚBLICO):
– Chega! Não suporto tamanha dor!
(EM SEGUIDA, DESABA ESMORECIDO SOBRE O BANCO. ENTÃO, SUBITAMENTE A SUA ALMA SE MATERIALIZA EM DUAS PERSONAGENS, QUE EMERGEM POR DETRÁS DO BANCO)

1ª voz: – Veja só, sua malvadeza, o que fez com este homem! Quase o levou ao desvario! Não fosse eu a conduzi-lo pelo caminho certo e você, com certeza, já o teria consumido.

2ª voz: – Não. Não mesmo! Para falar a verdade, boa samaritana, não tenho pressa em dominá-lo. Aliás, qual o prazer que teria uma criança em brincar com todos os brinquedos tão rapidamente? Antes o seu prazer está em desfrutar e se deliciar com a verdadeira alegria que cada brinquedo lhe proporciona. Assim sou eu! Divirto-me muito mais aos pouquinhos, deliciando-me com o efeito de meu veneno. Recebo o meu galardão quando vejo aflorar no pensamento das pessoas a ira e o descaso. Por que esta cara? Não sou tão má assim… Já me cansei dessa vida, agora sou apenas negligente!

1ª voz: – Sinto-me perdida ao dividir o mesmo corpo com você. Mais ainda, em ser a sua outra face. Mas não vou desistir! Aquele que pega no arado e olha para trás, retrocede para a perdição. Não a desprezo, nem a odeio. Todos temos o desejo de nos ajudarmos uns aos outros. E eu quero ajudá-la a livrar-se de tanto ressentimento.

2ª voz: – Pensa que sou maluca? Que estou deitada diante de algum analista?!! Não preciso da sua compreensão. Rejeito seu sentimento de pena! Este mundo não é digno de misericórdia. Pelo contrário, nunca houve melhor momento para as minhas bem-aventuranças. Nunca encontrei em coração humano tamanha liberdade para me expandir como agora. Basta apenas um pequeno descuido seu e então, a vingança, a desconfiança, os maus olhos surgem nas mentes humanas.

1ª voz: – Agora entendo o porquê de tanta violência nesse mundo, o porquê de tanta corrupção e imoralidade. Você governa a mente dessas autoridades que se deixaram corromper pela sua amargura. Não sou como você, que invade a vida dessas pessoas, entrando sem ser convidada. Eu bato à porta e se houver espaço, entro e faço morada proveitosa.

2ª voz (BATENDO PALMAS DE FORMA IRÔNICA): – Vejo que é bem dotada de inteligência! Mas não soube louvar-me como mereço! Não apenas sondo o pensamento dos poderosos, como também a mente de seus dependentes, fazendo com que se voltem uns contra os outros. Ou então, que aceitem passivamente suas imposições, como verdadeiras marionetes!

1ª voz: – Não. Isto nunca! Jamais serei passiva diante de suas atrocidades. (DIRIGE-SE AO PÚBLICO) “Soldados, não vos entregueis a esses brutos… Homens que vos desprezam e vos tratam como escravos, arregimentam as vossas vidas, impondo-vos atos, sentimentos e pensamentos; são eles que vos adestram, obrigam-vos a jejuar, tratam-vos como gado e servem-se de vós como de carne para canhão! Vós não sois carne! Sois homens com alma e matéria.”

2ª voz: – Vão apelo. Tarde demais. Se pelo menos tivesse ensaiado esse textinho na época da bomba atômica, talvez houvesse maior repercussão. Despertar agora com o mundo assolado pelo neoliberalismo, já não tem mais graça. Até a essência da maldade eles conseguiram desmoralizar. Já falei qual é a boa… Não é lucro pra mim criar uma nova bomba como as de Hiroshima e Nagasaki. Essas grandes coisas levam o povo a refletir. Minha glória se desencadeia nas pequenas raposinhas, como por exemplo, nos generosos desfalques cometidos pelas autoridades, nas guerras em alguns países, na fome e deixa-me ver… Ah! A nova diversão agora são os chamados “homens-bomba” ou, melhor, “guerreiros suicidas”! Explodir pizzarias, tacar avião em prédio e ver a coisa pegar fogo… Humm… Isso sim é divertido!!

1ª voz: – Diverte-me, sabia? Nunca me tirará do sério. Chateei-me apenas quando falamos sobre os homens, pois sei que não são de má índole e que são influenciados por você. Mas alegro-me quando vejo que este homem luta contra o seu próprio ego. (REFERINDO-SE AO CARLITOS) Porque se minha causa estivesse perdida, ele não teria chegado ao ponto de nos pôr para fora. E ainda que você tente corromper sua natureza física, estarei a cada dia renovando o seu interior.

2ª voz: – Doce ingenuidade! Vejo que sua vida acadêmica não anda nada bem. Eu falei: decoreba não é mesmo o caminho! Tudo muito bem ensaiadinho, comovente mesmo… (PEGA O JORNAL QUE ESTÁ EM CIMA DO BANCO E ABRE, MOSTRANDO AO PÚBLICO) Extra! Extra! O mundo já não se comove mais como antigamente! (ATIRA O JORNAL PARA TRÁS) Vejo que seus contatos andam mesmo dormindo no ponto… (ENCOSTA-SE NO PONTO DE ÔNIBUS E, IRONICAMENTE, FINGE DORMIR)

1ª voz: – Sua ironia chega a me dar voltas no estômago. Tenho pena de você, muita pena. Mas não posso ajudar quem não quer ser ajudado…

2ª voz: – Fique sabendo que estou muito bem assim! Já disse que se tem algo que não preciso é de sua compaixão. Não me venha novamente com essa!

1ª voz: – O que lamento é esse ódio que a consome. Tire isso de você! Você tem raiva, e somente os que não são amados cultivam esse sentimento. Sim, os que não são amados e os infelizes.

2ª voz: – Acredita que no mundo há mesmo lugar para todos? Eu faço de tudo para que o homem se deleite dos prazeres da vida e o que recebo em troca? A ingratidão humana!!! Desista de querer conscientizar os outros! Só o que se recebe é um pé nas costas…

1ª voz: – Você não sabe o que diz. Se insisto é porque tenho esperança! E não penso em perdê-la! Faço meus os ideais de Policarpo Quaresma: “Luto e até morro pela causa, mas jamais viverei sem razão!” E minhas únicas armas (COMEÇA A RODAR EM VOLTA DA 2ª VOZ) são o amor, a fraternidade, a compreensão, a igualdade, a amizade, o respeito e a paz.

2ª voz: (ENQUANTO A 1ª VOZ RODA EM TORNO DELA, ESTA VAI ENTRANDO EM DESESPERO E, GRADATIVAMENTE, VAI CAINDO AO CHÃO) Não! Não! Nãooooooo!!!!!!!!

(A PERSONAGEM CARLITOS LEVANTA-SE, DIRIGINDO-SE À FRENTE DO PALCO, FORMANDO UMA RODA COM AS DUAS VOZES. INICIA-SE, ENTÃO, A COREOGRAFIA)

Para não dizer que não falei das flores
(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora,
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer

Pelos campos, a fome, em grandes plantações
Pelas ruas, marchando, indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora,…

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis, leis ensinam antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora,…

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Somos todos iguais, braços dados ou não

Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Aprendendo e ensinando uma nova lição

(FORMA-SE NOVAMENTE UMA RODA, DE FORMA QUE A 3ª VOZ, QUE ATÉ ESSE MOMENTO ESTAVA ESCONDIDA ATRÁS DO BANCO, ESTEJA EM SEU INTERIOR E SURJA DE DENTRO DELA)

3ª voz: – “Aos que podem compreender-me, direi: Não desespereis. A infelicidade que caiu sobre nós não é mais do que o resultado de um apetite feroz, o azedume de homens que temem a via do progresso humano. O ódio dos homens passará e os ditadores morrerão; o poder que usurparam ao povo, voltará ao povo. E quanto mais os homens souberem morrer, souberem ser humildes, menos a liberdade desaparecerá! Trazeis o amor e a humanidade em vossos corações!” Paz no mundo!!!

(DECLAMAÇÃO EM DIFERENTES LÍNGUAS DA SEGUINTE FRASE: “PAZ NO MUNDO!”)

Somos todos iguais nesta noite
(Ivan Lins)

Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores?

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos dançar mais uma vez

Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeira
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos entrar mais uma vez

Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores

Roteiro escrito em 2001.

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