“Caminhamos para um colapso e o grande responsável é o presidente”, diz ex-ministro da Saúde

O médico sanitarista José Gomes Temporão na época em que era ministro da Saúde. Foto: EBC

Por Ana Helena Tavares, jornalista

“Nós poderíamos estar conversando lado a lado, aqueles beijinhos iniciais, um abraço, um cumprimento, mas estamos aqui (cada um em sua casa numa conversa por vídeo). Claro que isso mexe com todos nós, uma situação nova. Experimentam-se, ao mesmo tempo, evidências políticas, científicas, de saúde pública, antropológicas, sociológicas e culturais. Mas espero que a gente saia dessa situação também com o olhar diferente para algumas dimensões”.

Com essas palavras, o médico sanitarista e ex-ministro José Gomes Temporão, que comandou a pasta da Saúde durante todo o segundo mandato de Lula e enfrentou a epidemia de H1N1, concluiu nossa conversa que durou cerca de meia hora, cuja gravação está disponível na íntegra ao final deste texto.

As dimensões a que ele se refere são basicamente três: a importância do Estado, o respeito à ciência e o fortalecimento do SUS. Ao longo da entrevista, ele comentou cada uma delas. Falou também sobre como a atual crise política brasileira prejudica no combate à pandemia de Covid-19.

Temos o pior dos cenários: crise econômica, crise política e crise sanitária. As condições políticas que o Brasil vive estão comprometendo drasticamente a capacidade de o país responder com qualidade a esse desafio de saúde pública. Caminhamos para um colapso da saúde pública e o grande responsável por essa questão, em última análise, é o presidente da República, que vem se portando de maneira irresponsável, colocando em risco a saúde da população brasileira.

Eu diria que o que vamos assistir nas próximas semanas serão milhares de brasileiros morrendo por conta da irresponsabilidade de nossos governantes. Porque o que está levando grande parte das pessoas a romperem com o isolamento social é a impossibilidade de sobreviverem em casa. 40 milhões de trabalhadores que trabalham por conta própria. 11 milhões de desempregados. E as medidas econômicas que o governo anunciou até agora são risíveis. Os 600 reais que não estão nem chegando às pessoas adequadamente.

Quando nós precisaríamos nesse momento de uma política anticíclica, totalmente heterodoxa, com uma renda universal, com investimentos maciços na área de saúde, com uma reconversão da nossa indústria para a produção de equipamentos e insumos para o SUS. Nada disso você vê o governo discutir. Então, é pouco sério nesse momento defender retorno ou flexibilização do isolamento social. O fluxo de veículos nas cidades aumentou, as pessoas estão saindo de casa, e isso aponta para um cenário muito dramático nas próximas semanas.”, avalia.

Sobre o papel do Estado, Temporão acredita que tudo o que estamos vivendo serve para desnudar “a falácia de que o mercado tudo resolve e que o Estado é a grande causa de todos os problemas do Brasil”. Ele acredita que “a situação econômica vai ficar no chão e sem o Estado forte que lidere o processo de reerguimento da economia nós não vamos avançar”. Sobre a questão da ciência, o sanitarista considera “inadmissível que a gente consiga viver num país como o Brasil com um governo que nega e despreza a ciência, e ainda ataca os cientistas”. Já sobre o SUS, o ex-ministro aponta a necessidade de se repensá-lo e fortalecê-lo, garantindo sua sustentabilidade econômica.

“Existem muitos Brasis e muitos SUS”

As diferenças regionais brasileiras se refletem em diferenças na qualidade de atendimento e na oferta de leitos do SUS em cada região, analisa Temporão, o que se agrava pela desigualdade social do país e pelo pouco investimento público:

“Hoje, não temos uma estrutura de financiamento que dê sustentabilidade ao SUS. E temos que lembrar que no governo Temer, em 2016, foi aprovada a famigerada emenda constitucional 95 que congelou os gastos em políticas sociais por 20 anos. Isso significa que, de 2016 para cá, o orçamento do Ministério da Saúde, perdeu, pelo menos, 20 bilhões de reais. Isso foi um crime contra a saúde pública e contra as políticas sociais. E o Congresso Nacional aprovou, sob o aplauso de grande parte da sociedade brasileira.

Então, nesse momento em que as pessoas precisam tanto do SUS, perguntam: ‘bom, onde é que nós erramos? Por que não temos leitos? Por que não temos respiradores? Profissionais? Por que os profissionais não são bem remunerados? O que está acontecendo? Por que nós não produzimos aqui? Dependemos de tudo ser produzido e importado de fora?’ Ora, é um conjunto de fatores, é um somatório, de fragilização econômica, financeira, tecnológica.

Existem muitos Brasis e muitos SUS. Uma coisa é o SUS da região amazônica. Outra coisa é o SUS do Sul e Sudeste. Outra é o SUS do Nordeste. E isso agravado pela brutal desigualdade socioeconômica, que é uma singularidade brasileira e um agravante do quadro que está se desenhando aqui. Então, eu afirmaria o seguinte: sim, o SUS vai salvar muitas vidas. O SUS vai ser absolutamente imprescindível e espero que a sociedade brasileira aprenda com isso e reflita sobre a importância de termos um sistema universal que seja sustentado politicamente por todos os brasileiros. Para nós e para as próximas gerações. Mas, ao mesmo tempo, nós vamos ver o SUS mostrar fragilidades, as quais são estruturais, não apenas conjunturais, e precisamos refletir sobre isso”, alerta o médico.

As características específicas da Covid-19 já levaram ao colapso de sistemas de saúde em vários países.

“É importante dizer que nenhum sistema de saúde do mundo está preparado para enfrentar uma situação como essa. Qual é a questão central, para as pessoas entenderem? Nós estamos falando de uma doença que cerca de 80% das pessoas que entrarem em contato com o vírus não vão sequer apresentar sintomas ou vão apresentar sintomas muito leves. 15% vão apresentar sintomas que eventualmente necessitarão de algum tipo de assistência.5% vão desenvolver casos mais graves.

O problema é que esses 5% vão necessitar de atenção muito especializada em hospitais, usando medicação, fazendo diálise, porque existe uma falência renal em muitos pacientes, necessidade de ventilação, cuidados intensivos. Isso sobrecarrega o sistema de saúde de qualquer país, basta ver o que aconteceu na Itália, na Espanha, e está acontecendo nos EUA. A rigor, nenhum país está totalmente preparado.

Dizendo isso, temos que pensar que SUS nós temos. Um SUS que nas últimas 3 décadas foi atacado pela sociedade, pela grande mídia, e deixado ao relento pelos governantes de vários matizes políticos e ideológicos”, dispara o ex-ministro.

Influência da crise política no enfrentamento à pandemia

No momento em que se dá a pandemia do novo coronavírus, o Brasil é governado pela extrema-direita e, além da crise sanitária, o país convive com uma crise política. Como um problema influencia o outro?

“Influencia muito. De modo muito negativo. Por quê? Trata-se de uma doença nova. Podemos dizer que estamos vivendo um experimento singular na história da humanidade. Um dos princípios para se enfrentar uma situação desconhecida, em qualquer país ou governo, deve ser o respeito à ciência. E olhar o que está acontecendo nos outros lugares do mundo. Nos falta exatamente isso. Essa coerência, essa coesão.

Nesse momento, a liderança máxima de um país tem o papel intransferível de passar para a sociedade tranquilidade, firmeza e transparência. Liderar o processo de enfrentamento à pandemia. E o que nós estamos vendo desde o início é a negação de todos esses princípios. O presidente, claramente, nega a ciência. Virou garoto-propaganda de um medicamento, quando, na verdade, acabou de sair um artigo publicado* mostrando que há evidência de que a hidroxicloroquina faz mais mal do que bem.

Brigou o tempo todo com o seu ministro e o demitiu. Nomeou um novo ministro que ainda não disse a que veio. Insiste na dicotomia entre economia e saúde, que é uma falsa questão. Na verdade, nesse momento, a economia tem que estar a serviço da saúde”.

Um general no Ministério da Saúde

O atual ministro da saúde Nelson Teich nomeou o general Eduardo Panzuello para a secretaria executiva, com a tarefa de agilizar as medidas em relação a insumos, remédios e equipamentos. Temporão vê com extrema preocupação a nomeação de militares para funções estratégicas no combate à pandemia.

“Se alguém escolhesse um sanitarista para ser o segundo homem do ministério da Defesa, soaria exótico. Então, acho que essa nomeação é descabida. Não faltam técnicos de qualidade e competentes para assumir esse cargo. Não sei até que ponto isso foi imposto para o novo ministro, a quem eu não conheço. Mas pode ter certeza de que é uma pessoa que não conhece nada de saúde. Pode conhecer muito de logística, mas pelo fato de não conhecer do setor de saúde, num momento de pandemia, acho uma medida altamente questionável”.

H1N1 X COVID-19

Em 2009, o mundo enfrentou outra crise sanitária com o vírus H1N1, que começou no México e teve a capacidade de passar de suínos para humanos. Não era um coronavírus, mas sim da família influenza. Temporão, que era ministro da Saúde, comenta as semelhanças e, principalmente, as diferenças, e explica por que, naquela época, não houve necessidade de isolamento social global como vemos hoje:

“Eu estava outro dia revendo notícias de abril e maio de 2009 e a sensação de impotência, de medo, de insegurança, era tudo muito parecido com o que se viu no Brasil dois meses atrás. Mas as diferenças são muito expressivas. Primeiro, naquela época nós tínhamos medicamento. No caso do coronavírus, não temos.

Segundo, tivemos condições de num tempo muito curto haver vacina. Isso porque o vírus H1N1 é da família influenza, para a qual já havia vacina. Essa que se toma regularmente. E o Instituto Butantã, em São Paulo, é dos maiores produtores de vacinas no mundo. Então, em janeiro de 2010, o Brasil já teve condições de vacinar 100 milhões de pessoas. Metade da população. Foi o país que mais vacinou no mundo.

E terceiro, percebeu-se rapidamente que a letalidade do H1N1 era muito semelhante à letalidade dos outros vírus influenza. Vários estudos já apontam que a letalidade do coronavírus é muito maior. E as pessoas com coronavírus (em estado grave) necessitam ficar internadas por mais de 15 dias. São diferenças muito importantes que levaram a que naquele momento não fosse necessário uma estratégia de contenção, de isolamento, como hoje. Ou seja, este vírus é muito mais agressivo, é muito mais grave, tem uma capacidade de disseminação muito grande. Infelizmente, nós ainda não temos ciência para ter uma medicação e a vacina ainda está distante”.

“Fiquem em casa”

O ex-ministro alerta que “a única resposta que a ciência pode nos dar nesse momento é: fiquem em casa”.

“Isso pode parecer dramático, mas é a verdade. Nós não temos até o momento nenhum medicamento que atue diretamente sobre o vírus, que pudesse ser usado no início dos primeiros sintomas, reduzindo o grau de gravidade. É o que gostaríamos de ter: uma droga que aos primeiros sintomas a pessoa pudesse tomar e impedisse a evolução para casos mais graves. Infelizmente, não temos. A primeira vacina começa a ser testada agora na Alemanha. Teremos os primeiros resultados preliminares em junho ou julho. Se funcionar, é possível que no primeiro semestre do ano que vem tenhamos uma vacina. Aí o cenário muda. Tendo essa vacina, poderemos utilizá-la e proteger as pessoas”.

“Informação com transparência é tão importante quanto ter leitos”

Onze anos atrás, época do H1N1, o whatsapp estava sendo criado e as redes sociais ainda estavam engatinhando. Não se via todo mundo com celular como hoje. Essa explosão tecnológica também exerce influência positiva e negativa sobre o combate à pandemia, como explana Temporão:

“Por um lado, isso é bom porque você tem uma possibilidade muito grande de disseminar informação de qualidade. Por outro lado, você tem uma fábrica incrível de notícias falsas. Inclusive, já existe uma discussão na sociedade brasileira quanto à punição para quem produz e dissemina as chamadas fake news. Porque (no caso da pandemia) é um crime contra a saúde pública.

Por outro lado, há uma possibilidade maior de redes de colaboração de pesquisadores, discutindo, apresentando evidências, avançando em termos de conhecimento. Eu diria que a informação com transparência numa situação como essa é tão importante quanto ter leitos, respiradores, médicos e enfermeiros.

E o Brasil está mostrando isso: como o ruído na comunicação, como a falta de transparência, como a irresponsabilidade de governantes, a falta de coesão e de uma condução homogênea e harmônica do enfrentamento dessa situação, pode causar problemas. Então, quanto mais clara, transparente e objetiva a comunicação, orientando a população, transmitindo segurança, mas mostrando a realidade, tem um valor inestimável para resultados positivos”.

O exemplo português

Portugal tem sido um dos países mais elogiados quanto à eficiência no combate à pandemia. Para Temporão, que é português de nascimento, vários fatores explicam esse sucesso, mas o primeiro deles foi a adesão da sociedade portuguesa ao isolamento e o outro a seriedade dos governantes:

“Deu certo, primeiro, porque a sociedade portuguesa aderiu massivamente ao isolamento social. Aliás, a sociedade fez isso antes do governo. O governo correu atrás da sociedade. Segundo, o sistema de saúde português é como o nosso SUS. Eles têm um sistema universal também. E, claro, é um país com 10 milhões de habitantes em uma situação de um sistema muito mais sólido, de muito mais qualidade que o nosso, com muito mais recursos. Quando você olha para a Europa como um todo, Portugal não é um país rico, mas, comparado com a situação brasileira, é muito mais homogêneo.

E, o mais importante, lá nós não temos um primeiro ministro que vai para a televisão, com frequência, falar sandices. Ou criar inquietação na sociedade ou dizer que as pessoas têm que sair de casa para trabalhar. Ou que não escute o que o ministro da saúde está dizendo. Isso lá não acontece. Tudo isso explica: coesão, liderança, qualidade do sistema de saúde, menor desigualdade social e um primeiro-ministro sério que preza a ciência e defende a vida dos seus concidadãos acima de qualquer coisa.”

“Como será o amanhã?”

Um samba enredo de 1978, da União da Ilha, composto por João Sérgio, perguntava “como será o amanhã?” E completava: “Responda quem puder”. Segundo Temporão, nesse momento ninguém pode.

“O grau de incerteza é enorme. O novo ministro (Nelson Teich) fala em testar mais para ter mais conhecimento da realidade e a partir daí iniciar um processo de flexibilização do isolamento social. Ora, primeiro, não se sabe até que ponto esses testes rápidos, que usam uma gota de sangue para fazer o diagnóstico, são eficazes, qual a qualidade deles.

Segundo, não existe pesquisas ainda que assegurem se o grau de imunidade das pessoas que entraram em contato com o vírus é permanente ou não. Terceiro, não se sabe se esse grau de imunidade é alto ou baixo. Ou seja, sabe-se muito pouco. Qualquer afirmação nesse sentido é chute, na verdade. Qualquer epidemiologista, ou pesquisador, sério teria nesse momento sérias precauções de defender qualquer tipo de flexibilização do isolamento social“.

“Nova normalidade”

“Não há nenhuma previsão” de volta à chamada “normalidade” e possivelmente teremos que nos adaptar a uma “nova normalidade”. É o diagnóstico do médico sanitarista:

“Eu diria que grandes eventos com multidões aglomeradas, esqueça. Probabilidade de daqui a alguns meses, eu não saberia dizer quantos, talvez dois ou três, você iniciar um processo de volta a essa nova normalidade, que não será uma normalidade normal, será uma normalidade nova que a gente não sabe ainda qual é, por etapas, por setores, é o mais provável. Aliás, isso começa a acontecer agora na Alemanha. Também na França. Eles estão alguns meses na nossa frente e vamos poder aprender com eles.

Então, nós temos que aguardar ainda um pouco mais. A ciência mundial está fazendo um gigantesco esforço. É impressionante como nós avançamos de 2009 para cá, pensando na minha época de H1N1, em termos de redes de pesquisadores, recursos para pesquisas, novas investigações… Nós vamos ver muitas coisas interessantes e novas nas próximas semanas, nos próximos meses, mas nesse momento em que conversamos o grau de incerteza é muito grande”.

O medo maior é pela situação do Brasil

É natural que situações de incerteza gerem medo. Temporão diz que gostaria de dar “uma contribuição maior” nesse momento e assegura que não teme tanto por si, mas muito mais pelo país:

“Tenho 68 anos, vivo com minha mulher que tem quase 65 anos, com minha sogra que tem quase 90, e com um filho. Evidente que todos nós ficamos preocupados. No meu caso, como sou médico e estou acompanhando de perto toda a situação, sei de muitas informações e claro que tenho preocupação. Mas minha grande angústia nesse momento é estar observando sem poder dar uma contribuição maior.

Tenho trabalhado muito, tenho dado dezenas de entrevistas, tenho escrito artigos, tenho feito o que eu posso. Participo de muitas redes, muitos grupos que trocam informações, que conversam, que mobilizam pessoas, acho que isso é fundamental. Mas hoje eu te diria que estou mais angustiado pelo que vai acontecer com o nosso país, pelas dificuldades que vamos atravessar nos próximos meses, do que pela minha situação individual”.

*Para ler (em inglês) o artigo citado sobre a hidroxocloroquina, acesse os links:

https://drive.google.com/file/d/1wHB5IQcuPH8MsN0Qa2kZTQIvySYEKTGm/view?usp=sharing

https://drive.google.com/file/d/1CDUftrxEiYHzhFT5f8odYHgU7xD7KebJ/view?usp=sharing

Para médico sanitarista, Mandetta fez o certo ao alertar sobre colapso do SUS

No último dia 20 de março, o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que já tem o seu lugar reservado nos livros de história simplesmente por ser o ministro da Saúde no Brasil durante a pandemia de coronavírus, declarou que, se nada for feito, o SUS entrará em colapso em abril, quando se prevê o pico da doença no país. Embora Mandetta tenha mudado de discurso depois, a sua previsão, que num primeiro momento poderia soar apocalíptica, tem base na realidade, segundo o experiente médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa.

O ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Foto: Isaac Nóbrega/PR

Por Ana Helena Tavares, jornalista

No último dia 20 de março, o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que já tem o seu lugar reservado nos livros de história simplesmente por ser o ministro da Saúde no Brasil durante a pandemia de coronavírus, declarou que, se nada for feito, o SUS entrará em colapso em abril, quando se prevê o pico da doença no país. Embora Mandetta tenha mudado de discurso depois, a sua previsão, que num primeiro momento poderia soar apocalíptica, tem base na realidade, segundo o experiente médico sanitarista e epidemiologista Eduardo Azeredo Costa.

“Acho correto que o Mandetta tenha alertado a população sobre as consequências assistenciais de uma epidemia como a do coronavirus, por seu caráter explosivo dada sua alta infectividade. É uma realidade. Não mentiu nisso. Ele mostrou que tem senso de responsabilidade. Em primeiro lugar, o Ministro tem que mostrar porque se não o fizer não consegue aportar recursos desse governo para o SUS.

Em segundo lugar, porque a situação prevista com as experiências já vividas por China, Itália, Espanha e outros países mostram que é necessário mobilizar a população para que a curva epidêmica se alongue, dando oportunidade para o desenvolvimento e aquisição de testes diagnósticos e outros insumos estratégicos, além de não sobrecarregar hospitais.

Mas a voz dele é insuficiente no inacreditável quadro brasileiro. Nesse sentido, ele precisa que a população o acompanhe para ter alguma influência dentro do governo, para não ficar isolado. E essa não foi ação de caráter político menor, não é uma ameaça. A verdade, como ela é, ajuda até para traçar estratégias corretas.”, analisa.

O epidemiologista torce para que a evolução da pandemia no Brasil não seja tão crítica como nos países europeus, levando em conta que lá o problema começou em clima frio, o que favorece a sobrevivência do vírus por mais tempo no ambiente, e aqui é o contrário. Apesar dessa esperança baseada num dado ambiental, ele não descarta o agravamento da crise e consequente colapso do sistema de saúde por razões sociais e econômicas.num dado ambiental, ele não descarta o agravamento da crise e consequente colapso do sistema de saúde por razões sociais e econômicas.

“Eu não acredito nessas frases que dizem: ‘Graças a Deus que nós temos o SUS’. São frases soltas que não significam nada. Nós temos qualidades na nossa saúde do país, que são antigas, e de boa tradição. Algumas continuam bem, e outras não. Mas temos muitos problemas com assistência médica, onde há uma disputa do setor privado que planeja com base em premissas de mercado. E a saúde precisa ser pensada em termos de necessidades.

Achei interessante uma declaração do Presidente Macron da França dizendo que certos setores como a saúde não devem seguir as regras de Mercado. É uma coisa óbvia na Europa, onde os serviços de saúde são públicos, mas os Estados Unidos e seus seguidores mais próximos não querem aceitar.

Nós temos um modelo, digamos, dual, com atenção  privada e pública, cujo comando precisa ser unitário, em especial em situações de crise.

Para quem pensa que tudo vai bem com o SUS, diria que temos menos leitos per capita hoje do que na época de Getúlio Vargas, segundo levantamento feito em 1941 (2,75 leitos por mil habitantes) desprezados os hospitais de menos de 25 leitos (ver tabela *1). Em 2014, sem excluir os com menos de 25 leitos (e há muitos, especialmente municipais), temos 2,19 por mil! E desses, 1,56 por mil atendem ao SUS e 0,63 por mil atendem apenas pacientes privados. Se excluirmos os que têm menos de 20 leitos em 2014, para tornar mais comparável com os dados de 1941, a taxa total cai para 2,04 por 1000 habitantes, sendo 1,45 para hospitais de financiamento pelo SUS e 2,51 de financiamento privado. Só para registro, dos leitos que atendem ao SUS 50,6% são públicos e 49,4,5% são privados lucrativos ou não (filantrópicos) (ver quadro *2).

O mesmo estudo que usa dados de 2014, cujo autor é Armando De Negri (tese de doutorado da USP de 2016) mostra a precariedade de distribuição de leitos no Brasil, com concentração de leitos em grandes cidades e escassez no interior, onde faltam principalmente leitos tecnológicos, aqueles que têm respirador e outros equipamentos que fazem parte de uma UTI (unidade de tratamento intensivo) necessária no caso das complicações respiratórias do coronavirus. O SUS, apesar de sua proposta, manteve  a desigualdade social no acesso a serviços de maior custo.”

O estudo recente citado por Azeredo Costa com dados de 2014 aponta a disponibilidade em todo território nacional de 12.860 leitos SUS de UTI para adultos, o que equivale a cerca de  0,063 para mil habitantes ou 6,3 para 100 mil habitantes. 46,5% estão em hospitais públicos. 53,5% em hospitais privados conveniados ou contratados. De outro lado, o mesmo número aproximado de leitos de UTI de adultos está em leitos hospitalares exclusivamente privados.

“Mesmo países desenvolvidos com excelentes serviços de saúde essencialmente públicos (podemos citar Itália e Espanha) não estão dando conta dessa situação epidêmica. Que dirá  aqui com as deficiências já apontadas. Nossa maior riqueza, no entanto, é o pessoal da saúde que no espirito de seu compromisso ético-profissional está todo dedicado a se preparar para o que pode vir.”

Azeredo Costa acredita que o gabinete de enfrentamento da epidemia do Ministério da Saúde tenha condições de acionar os instrumentos necessários agora, mas seria importante deixar um legado para os tempos que logo virão.

“Precisamos de um bom planejamento. Mas tem um grande problema: o SUS não tem planejamento voltado para equidade, para a adequada distribuição dos recursos. Tem um planejamento orçamentário, apenas, com muita interferência política indesejável em relação a contratos na sua execução. Não foi instituído um planejamento de saúde adequado no Brasil. E essa questão é central agora para essa emergência ser melhor atendida. Como é que nós vamos pensar, em cima do mapa, onde estão os leitos, onde está a população, onde é preciso requisitar leitos ou desapropriar temporariamente imóveis para montar hospitais?”

Alguns estádios de futebol, como o Pacaembu e o Mané Garrincha, e até um campo localizado dentro da Fiocruz, já estão se transformando em hospitais de campanha. Isso, porém, não é suficiente de acordo com a avaliação do médico sanitarista.

“O problema dos estádios é que ficam nos grandes centros. Todo mundo que adoecer vai ser trazido pros grandes centros? Não. Tem que ter estrutura acompanhando a distribuição da população. Como falta planejamento, o que vão fazer? Reforçar tudo o que já existe? Aí é uma política contraproducente destinada a fracassar.”, opina.

Uma das principais preocupações do especialista é a chegada da pandemia nas favelas brasileiras.

“À medida que (a pandemia) chega nas classes populares, a transmissão será mais explosiva, porque ali é todo mundo muito aglomerado, junto. Isso é o que mais tememos. Nossa concentração de riqueza é escandalosa. Então, nós vamos ter incapacidade de atender adequadamente a todos os que precisarem usar o SUS medico-assistencial. Incapacidade esta que já acontece hoje.”, pontua Costa.

Ele comenta que as pessoas das classes médias preferem resolver seu problemas com plano de saúde privado, mas usufruem das vacinas do SUS, por exemplo.

“Um trabalho que no Brasil sempre foi bom. É uma tradição que vem de longe, com Oswaldo Cruz, na época do controle da febre amarela, da peste, da varíola, no começo do século passado.

Temos uma história rica no desenvolvimento da saúde pública no Brasil, que não parou em nenhum tipo de governo. É verdade que na ditadura militar houve a desenfreada privatização da assistência médica da previdência social, um péssimo legado, mas a área de saúde pública mesmo com recursos limitados avançou. Ela tomou suas características, em cada momento, mas sempre foi para frente, tendo tido grande impulso na época do governo Vargas.

As pessoas não olham muito para trás, mas foi fantástico o desenvolvimento da saúde publica no Brasil. Mas precisamos avançar muito ainda na estrutura organizacional do SUS”, conclui.

*1 Censo Hospitalar do Brasil de 1941-42**.

Tipo de HospitalNo. de EntidadesNo. de LeitosLeitos /1000 hab.
Especializados (1)18348.2281,16
Gerais (2)105168.4411,59
Total (3)1234116.6692,75

 ** – Fonte: De Negri (2016).

(1) – Doenças Mentais, Tuberculose e Lepra (internações de longa duração).

(2)  – Não estão incluídos clínicas e enfermarias isoladas com menos de 25 leitos.

(3) – A quase totalidade dos hospitais era público ou sem finalidade lucrativa.

*2  Leitos Hospitalares no Brasil, por tipo de entidade, 2014.**

Tipo de Hospital   Financiam   No. de Leitos (%)  Taxa Geral (1)  Taxa de Acesso (2)

A – Público              SUS             149.403 (35,9)      0,734                1,45 (A+B)

B – Priv. Conv.       SUS              145.775 (35,1)      0,716

C – Privado             Privado       120.455 (29,0)        2,510                 3,96 (C)

      Total Geral       SUS+Priv     415.633 (100,)       2,042***          2,105****

* Elaborada pelo autor com dados do trabalho de De Negri (2016)

** Não inclui dados de hospitais com menos de 20 leitos.

*** Taxa bruta.

**** Taxa ponderada.

(1) Taxas de leitos por 1000 hab. considerando a população total em dezembro de 2014.

(2) Taxas considerando a população que tem direito a acesso. No caso do C – Privado quase 100% são planos de saúde que financiam e a população que tem acesso (que era pois a cerca de 24% da população em 2014). No entanto, especialmente nos leitos de alta tecnologia os usuários de planos de saúde também usam o SUS. A taxa para esse grupo poderia ser acrescentada por mais 1,45 por mil, chegando a 3,96 por mil pessoas.

ESTA MATÉRIA É UM TRECHO DE UMA LONGA ENTREVISTA FEITA PELA JORNALISTA ANA HELENA TAVARES COM O SANITARISTA EDUARDO AZEREDO COSTA E PARTE DE UMA SÉRIE DE MATÉRIAS QUE ESTÃO SENDO PUBLICADAS AQUI NO QTMD? SOBRE A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS. 

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