Gênios nem sempre são tudo isso

Dedicatória: Em um de seus poemas mais auto-biográficos, Drummond declara que, quando nasceu, um anjo torto lhe disse:

“Vai, Carlos, ser gauche na vida”.

Este texto é uma homenagem a todos os verdadeiros mestres e, por ser livremente inspirado num conjunto de aulas de sociologia, é totalmente dedicado ao maestro que as conduziu: Gilson Caroni Filho, que, quando nasceu, ouviu daquele mesmo anjo:

“Vai, Gilson, ser mestre na vida”.

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Onde está a genialidade de um mestre? Títulos acadêmicos? Não! “Sou doutor, PhD, Honoris Causa”, falou o professor na primeira aula. “O que disse mesmo o professor?”, perguntam-se os alunos ao final do curso.

Mestres não precisam de apresentações. Se é que possuem títulos, ótimo, mas que os deixem nas molduras de suas paredes. O maior cartão de visita de um professor é sua aula e é ela que o tornará ou não mestre para seus alunos. Só ela: a aula. Sabe para que servem os certificados nessa hora? Soam como um recado para os alunos: “Atenção, eu sou o professor e sou maior que vocês”. Tudo bem que há uma inegável hierarquia, mas o “sou maior que vocês” não faz parte dela e não combina com mestres. Uma coisa é admirar um trabalho que se acompanha de perto e outra, bem diferente, é ser coagido a reverenciar certificados. Ah, sim, e para se acompanhar algo de perto, para que o aprendizado seja realmente de trocas, para que a relação de professor/aluno passe a ser mestre/discípulo, há que se haver a quebra de barreiras, há que se evitar com todas as forças os estrelismos. Não dá pra imaginar Sócrates dizendo pra seus discípulos “Sou doutor em ciências humanas, PhD em conhecimento do mundo e Honoris Causa em filosofia”. Meu Deus, ora vejamos, Sócrates era aquele que “só sabia que nada sabia” e, tantos anos depois, sua linha de pensamento ainda desfila pelo mundo, sendo a filosofia separada em antes e depois dele. Conclui-se que a genialidade não precisa ser alardeada. E mestres não precisam ser gênios.

Ah, a humildade… Só ela é capaz de fazer qualquer relação verdadeira. E ela também cabe aos alunos. Imaginem Aristóteles dizendo pra Platão: “Já sei tudo, não preciso mais de seus ensinamentos”. Imaginaram? Acho bom que não. Consta que Aristóteles bateu muito de frente com seu mestre, muito mesmo, fundando novas teorias, mas não tendo nunca renegado a importância de quem o precedeu. Até que ponto Platão foi legal com seus discípulos? Até o ponto em que lhes deu liberdade. Um ponto infinito. E por que foi tão legal isso? Porque lhes deu liberdade sem os perder de vista. E mestres são legais.

Sejamos sinceros… Quando a frase começa assim é bom sinal. É sinal de uma cumplicidade sem a qual não deveria se sustentar nenhuma sala de aula – ou pátio de aula, rua de aula, trem de aula (aula que é aula, convenhamos, pode ocorrer em qualquer lugar). Por esse raciocínio, fica até engraçado pensar nas provas tradicionais e suas notas burocráticas. Está lá o professor com seu grupo de alunos andando pela rua, ouvindo o cantar dos pássaros, cada um com uma prancheta na mão escrevendo sua análise sobre aqueles cânticos. Daqui a pouco vai o professor: fulano tirou 8,0 porque ignorou os bem-te-vis e sicrano tirou 9,9 porque não se lembrou dos rouxinóis. A primeira coisa que averiguamos é que essa situação é quase impossível. Ainda bem. A segunda coisa que se percebe é que esse professor devia ter uma clara preferência pelos bem-te-vis… Uma pequena metáfora para exemplificar o tendencionismo que, de certa forma, no âmbito do discurso é inevitável até para os verdadeiros mestres, mas que, em muitos casos, se faz cruelmente visível na aplicação de provas e distribuição de notas. Por isso mestres não precisam delas.

O que os mestres precisam ter é um bom papo… Isso mesmo, um bom papo. A coisa mais maravilhosa é quando a aula se torna um bate-papo. Você entra em sala com vontade de ouvir seu professor, de conversar com ele? Ainda que naquele dia só ele tenha falado, você sai de sala com a sensação de que aquele papo te abriu a mente? Sim? Então seu professor é um mestre. E, nesse contexto, pra que o academicismo de se adotar um livro base pro curso? Pra que quadros brancos, negros ou esverdeados? O mestre é a aula.

E quando esse mestre consegue fazer rir ensinando? Aí a maestria é completa. Periga os nomes na pauta serem trocados por apelidos. A chamada se faz desnecessária. Seja a aula de manhã, de tarde ou à noite, difícil não ter disposição pra uma aula em ritmo de mestre, em que se ri e se aprende. E não se vai lá pra dizer “presente!”. A aula é o presente.

Um presente que vem provar aos alunos que no outono há sempre uma primavera escondida. Isso porque a convivência com um verdadeiro mestre, essa troca de experiências, é um aprendizado de tal maneira proveitoso que abre um leque de possibilidades na mente daquele que se torna discípulo – aquele aluno que não necessariamente seguirá o mestre em sua área de atuação, mas valoriza-o profundamente. Um leque formado pelas possibilidades que já existiam dentro de cada discípulo e que o mestre só fez trazer à tona, mostrando a eles as primaveras que existem por trás do outono que, muitas vezes, eles próprios pintam em suas vidas. Mestres fazem isso.

Mestres são isso. Gênios nem sempre são tudo isso.

11 de Outubro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Gênios nem sempre são tudo isso no Recanto das Letras

Gênios nem sempre são tudo isso no blog do Patolino

Gênios nem sempre são tudo isso no blog do radialista mineiro Carlos Ferreira

Recado de primavera

Publico hoje aqui um texto em formato de carta. Um texto ingênuo e profundamente despretensioso, afinal vai fazer 10 anos e foi escrito quando eu tinha apenas 13 anos. No entanto,  foi com este texto que ganhei meu primeiro concurso literário (ainda nos bancos escolares do meu querido CPII) e pode-se dizer que esta foi minha primeira crônica, tendo sido assim o marco inicial de toda uma história… E só por isso já deveria ter merecido espaço aqui há mais tempo… Trata-se de uma paródia a um texto homônimo de Zuenir Ventura (que naquela época ainda escrevia pro Jornal do Brasil). Algum tempo depois de escrevê-lo, cheguei a entrar de fato em contato com Zuenir, que respondeu parabenizando-me e terminou dizendo: “Espero que você continue fazendo seus exercícios de estilo”. Um dia ainda terei oportunidade de dizer pessoalmente a ele que, não só continuei, como é àquelas palavras que se deve o nome deste blog. Segue então o texto…

Vou continuar vigiando as ruas, os pássaros e os rapazes em flor

Meu caro Zuenir Ventura,

Escrevo-lhe aqui do Andaraí para lhe dar uma notícia grave: a primavera chegou. Ao ler “Recado de primavera”, que você escreveu ao cronista Rubem Braga, resolvi mandar-lhe uma carta parecida.

Sempre que posso leio suas crônicas no Jornal do Brasil, pois as acho muito criativas. Infelizmente, ainda não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas espero que isso brevemente aconteça.

Pouca coisa mudou, cronista, nesses dois anos. As “violências primaveris” de que Rubem Braga falava na carta a Vinícius de Moraes, continuam sendo “violências mesmo”, só que, às vezes, são até piores.

Esse ano a primavera está um tanto estranha. Para se ter uma idéia, ao invés de tempo quente e estável, ultimamente tem estado frio e ocorrido muitas chuvas inesperadas. Dizem que é culpa de um tal fenômeno chamado “La Niña”.

O tempo vai passando, cronista. Chega a primavera nesse Rio de Janeiro, que apesar de tudo, continua a “Cidade Maravilhosa”, narrada em prosa e verso por tantos poetas, músicos e escritores como você.

Eu ainda vou ficando por aqui a vigiar, em nome de todos aqueles que já se foram, as ruas, os pássaros e os rapazes em flor. E estudando, como todo jovem, para um dia ser alguém. Até breve!

Ana Helena Ribeiro Tavares
Setembro de 1998.

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