Na Palestina todos vamos parar

Em que parte? Pra que olhos? Não é um filme?

Por Ana Helena Tavares*

Sob a sombra do belicismo daqueles a quem a paz não interessa, é noite por onde passaram os filisteus. E a manhã não começa. Desde o início, optaram por escurecer o sol, não ouvir Deus, aprisionando sua voz em um muro.

Com uma cobertura rala, a imprensa brinca com os fatos a seu bel prazer e um mundo de sofás atentos acomoda-se em assistir ao sangue derramado pelo vil metal.

Negócios negócios, paz à parte. Mas em que parte? Pra que olhos? Não é um filme? Não, não é. Hollywood experimenta a omissão dos cúmplices. Mas uma cineasta brasileira, tripulante da embarcação que, em missão de paz, foi alvejada – sem mais – filmou a realidade. Lembrando que, enquanto os olhos das mães de Gaza choram, lágrimas lágrimas, ficção à parte.

Enquanto isso, os donos da velha ordem mundial jogam promessas ao vento à espera que o vento esteja sempre a favor. E, numa ONU impotente, reticente, e tantas vezes conivente, o que se vê é uma diplomacia de fachada que discursa para o nada.

E a paz?

“Sei lá. O melhor é não procurar muito. Tragam pacotinhos vazios. A paz deve estar lá dentro.” Carlos Drummond de Andrade talvez respondesse isso. Talvez para nos lembrar que as mudanças da vida sempre seguem seu rumo e, às vezes, a paz é algo que chega quando a gente menos espera.

Mas, para que ela chegue, é preciso que seja plantada. Só plantando paz é possível colhê-la. É humanizar e ser livre, ou autodestruir-se.

Com o sorriso de seus generais sionistas, que, se achando os escolhidos, não se cansam de lançar à humanidade, um punhado de cogumelos nocivos, Israel se autodestrói a cada dia. Cravando de mortes a terra onde Cristo escolheu viver, impedindo o broto de chegar à mocidade, fazendo vidas valerem menos que poder e calando o diálogo com balas de canhão.

Contam com a inércia de um mundo doente. Diz-se por aí: “Não sou judeu nem mulçumano. Pra que me preocupar?” São mentes senis que só com a morte frente à frente verão que na Palestina todos vamos parar.

02 de Junho de 2010,
*Ana Helena Tavares, jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.

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Sobre constrangimentos e ousadias

Foto: AFP

Hoje o mundo nos ouve

Chegar à Alemanha “dando a honra de sua visita”, como saiu na imprensa alemã, e depois fazer declarações que vão contra os interesses imperialistas dos EUA seria “causar constrangimento” ou incomodar? Incomodar aos acomodados é, sem dúvida, uma das maiores ousadias do ser humano.

Por Ana Helena Tavares (publicado também no Observatório da Imprensa e na minha coluna na Revista Médio Paraíba)

Um líder mundial foi recebido esta semana na Alemanha como superstar. Não foram os “sins” que o levaram a tal nível – foram os “nãos”. Os nãos que deu à vida, quando esta tantas vezes parecia querer fadar-lhe ao fracasso. Os nãos que tem dado aos outros, quando estes tentam ganhar no grito. Os nãos que nunca imaginou que precisaria impor a si mesmo, provando que a política é a arte da flexibilidade – e apanhando por isso. Para quem não se deixa constranger pela vida, ousadia é o caminho natural.

Esse líder não é um negro com duas faculdades. Nem tampouco é branco. Tem a cor – e a dor – da miscigenação de seu país.

Luís Inácio Lula da Silva é o nome do cara. O mesmo que avisou que no Congresso há “300 picaretas com anel de doutor” é o mesmo que hoje diz que “imagens não falam por si”. “Uma mudança inaceitável”, alegam muitos. Só que dizer que “imagens não falam por si” não significa defender ninguém. Será que é possível governar considerando-os todos “picaretas” sem lhes conceder o benefício da dúvida? Não seria este benefício parte da democracia? Será que é possível governar sem o apoio de pelo menos uma parcela deles? Talvez tenha sido isso que Lula quis dizer quando afirmou que “Jesus teria que fazer aliança com Judas para governar este país”. A diferença é que Jesus sabia quem era seu Judas e nenhum de nós tem como prever com precisão quem serão os nossos.

A mudança é a lei da vida. “Eu mudo para continuar o mesmo”, dizia Sartre. Se hoje “a estrela vermelha na lapela está menor”, como afirma a matéria alemã “Lula superstar”, não quer dizer que – naquele que, um dia, inflamou multidões de metalúrgicos – os ideais progressistas tenham morrido (e a matéria deixa isso claro). Às vezes penso que, quem o via naquela época, imaginava que, quando eleito presidente, Lula transformaria Brasília em Sierra Maestra. Duvido que algum dia tenha tido este objetivo e, nem que tivesse, num contexto social como o nosso, jamais conseguiria governar sem o mercado internacional. O que não significa governar para o mercado, menos ainda por ele. Visitando-se alguns dos grotões mais pobres deste país é fácil se constatar para e por quem Lula governa.

Nas últimas décadas do século XX, o Brasil acostumou-se a governos totalmente submissos não só aos interesses do mercado como aos interesses das grandes potências. Durante anos, os “vira-latas”, de que falava o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, não passaram de gatinhos assustados aceitando migalhas de Washington. Assim nos via a Alemanha, assim nos via o resto do mundo. Curiosamente, para a grande imprensa brasileira foram anos de festa. Freud há de explicar o amor pela submissão.

Dias Gomes, outro saudoso dramaturgo brasileiro que de vira-lata nada tinha, dizia: “Quem não nasceu para incomodar não merecia ter nascido”. Chegar à Alemanha “dando a honra de sua visita”, como saiu na imprensa alemã na matéria citada, e depois fazer declarações que vão contra os interesses imperialistas dos EUA seria “causar constrangimento” ou incomodar? Incomodar aos acomodados é, sem dúvida, uma das maiores ousadias do ser humano.

Que moral têm aqueles que recriminam Lula por ele manter relações diplomáticas com Ahmadinejad, que nega o Holocausto e precisa sim ser repudiado por isso, mas não o recriminam por manter relações semelhantes com o Estado de Israel, que há vários anos promove uma limpeza étnica entre os Palestinos? Não trata-se de uma pergunta anti-semita, mas sim anti-sionista, em repúdio àquela parcela de Israel que parece também ter se esquecido do Holocausto, utilizando as mesmas práticas que quase dizimaram seu povo.

O fato é: um país que se quer em destaque na cena mundial precisa e deve dialogar com todos. Dialogar é uma coisa, concordar é outra bem diferente. Submeter-se é outra mais diferente ainda. Lula é pessoa que não vive sem o diálogo. Foi o diálogo – sem submissão – o que fez dele um líder admirado por Bush, Clinton, Obama e All Gore; por Shimon Peres e Mahmoud Abbas; pelo banqueiro do ar condicionado e pelo trabalhador de sol e suor. Foi a arte do diálogo que fez com que hoje o Brasil seja ouvido pelo mundo.

Por que será que, como mostram os 80% de aprovação popular, grande parte dos trabalhadores deste país continua admirando tanto Lula? Porque é possível fazer política internacional sem se esquecer da interna.

É tênue a linha entre constrangimento e ousadia. Ousar é correr o risco de constranger a quem quer tudo como sempre esteve. Mas, por mais que parte da mídia nativa continue querendo impor rótulos ao presidente Lula, como aquele que “nos constrange frente ao mundo”, a arrebatadora aprovação interna e externa teima em querer provar que para quem ousa nessa vida, o sucesso é o caminho natural.

04 de Dezembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Confira abaixo outros locais onde você também pode encontrar este texto:

No Portal Luís Nassif

No Recanto das Letras

No blog “Quem tem medo do Lula?”

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