No meio do caminho uma conversa

Foto: Ana Helena Tavares

Encontrei Drummond num banquinho à beira mar e…

– Dedico este “diálogo” ao meu amigo Luís Maurício, um belo presente que a vida me colocou no meio do caminho.

(Aspas nos trechos de Drummond)

“Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós”.

É sempre bom estar junto…
Mas tantas redomas não se quebram.
E o que é mesmo estar e ser hoje nesse mundo?
Por que mais mãos não se apertam?

“O presente é tão grande, não nos afastemos.
Vamos de mãos dadas.”

Tijolo por tijolo, cada qual desunido…
É assim que o futuro vai ser construído?

“Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.”

Felicidade, tá aí um sentimento indeciso…
Às vezes traz lágrima, às vezes sorriso…

“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Acho bonito demais o poder de comoção…
Pena que às vezes não traga efeito prático.
De que adianta ter a oportunidade na mão
E, de tão comovido, se manter estático?

“Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra.”

Sorte de quem encontra pedras na estrada
Pedras mesmo, grandes, duras
Aprendizado sem elas? Que nada…
A vida só é plena com aventuras

“Sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!”

Pano vermelho, fecha-se o tablado
Pertences em um punho, todos em retirada
Mas batem corações num palco iluminado.
E o ator reaparece – êta pessoa inconformada! –

“O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.”

Acho que o jornalista tem que ser um pouco ator
Não para fingir, mas para se inconformar com a dor

“A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.”

Será a História um relógio cíclico de ponteiros distraídos?
Será que a humanidade alterna períodos, de variadas durações,
Que de tempos em tempos se fazem parecidos?
Teríamos aí uma lei de ações e reações

“Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.”

– Prefiro negar-te a viver sem motivo!
Talvez quem se suicida diga isso à vida
Mas será que essa pessoa viveu num mundo incompreensivo
Ou será que foi ela que nunca deu a ele outra saída?

“Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?”

Se houver amor, te juro,
Há também o apesar de tudo.

Ana Helena Ribeiro Tavares
27/06/08

Minha cara família

Foto: Ana Helena Tavares

– Para minha avó Maria Helena (in memorian), que sempre colocou a família acima de tudo.

Minha cara família

Desculpe-me por gentileza

Se não mais podem me ver

Mas arrumei um mensageiro com presteza

Para que isto possam ler.

Aqui no céu o carteado continua

Mas ninguém uma aposta insinua

Todos os dias são ensolarados

Não sei mais o que são dias nublados

Mas o que preciso lhes contar…

É o que vejo aqui de cima

O clima aí anda meio estranho

Sei que vão andando

Por coragem e insistência

Mas não esqueçam de ir pensando

Por que também sem consciência

A confusão é sem tamanho.

Minha cara família

Eu não pretendo motivar

Nem aumentar recordações

Quero apenas poder esquentar

Um pouco os vossos corações

Aqui no céu a birita é proibida

Mas nem por isso uma revolta se incita

Adoramos passear nas nuvens

Não sabemos mais o que é ciúmes

Mas o que preciso lhes contar…

É o que vejo aí na Terra

A guerra parece ser em vão

Mas continuem guerreando

Pela paz e pela fé

E no amor acreditando

Porque também sem cafuné

É sem tamanho a confusão

Minha cara família

Eu até tentei telefonar

Mas o preço disso anda imenso

Vejo-me aflito pra poder lhes alertar

O quanto o mundo anda tenso

Aqui no céu, despreocupados pra valer

Nem sabemos mais o que é chover

Tudo o que queremos temos de graça

Não é preciso fazer uso de trapaça

Mas o que preciso lhes contar…

É o que minha visão alcança

Na Casa Branca só se pensa em canhão

O mundo tá de um jeito que sei não…

Mas façam sua parte

Porque também sem alguma arte

É sem tamanho a confusão

Minha cara família

Mandar carta eu preferia

Mas é rabugento o carteiro

Restou-me neste dia

Enviar um pombo mensageiro

Aqui no céu já não temos nenhum vício

Nada do que se vê em um comício

Temos política, mas não é o nosso forte

Desconfio que isso seja nossa sorte

Mas o que preciso lhes contar…

É das saudades que aqui vão

Muitos mandam beijos para os seus

Eu mando o meu amor

E para todos os meus queridos: adeus…

– Livremente inspirado na letra da música “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque e Francis Hime.

09 de abril de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

“Minha cara família” no blog do Patolino

Conheça a 2ª versão para este poema no blog República Vermelha

Para assistir a um raríssimo clipe com a música “Meu Caro Amigo”, interpretada por Chico Buarque (ainda novinho) com Francis Hime ao piano, clique aqui

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