Estrada sem destino

– Para o meu amigo Eduardo Sander (o Patolino*), que não se cansa de lutar para encontrar os bons destinos dessa estrada.

Imprensa obstruída é como uma estrada que não dá a lugar nenhum – perde a razão de ser. Há diversas formas de se obstruir o trabalho jornalístico, desde agressões físicas, intimidações e todo tipo de chantagem ao silêncio bem pago e o barulho sob medida.

Várias são as formas de se pagar um silêncio e triste de quem as aceita. Incontáveis são os interesses que podem produzir e dar medida milimétrica a um barulho, digamos, cuidadosamente solicitado – e corromper também é obstruir.

Quando um veículo de comunicação omite informações provavelmente há por trás alguma história de obstrução do trabalho da imprensa. Talvez um jornalista que queria divulgar o assunto e foi impedido com a velha chantagem no maior estilo “ou se cala ou tá na rua”. Provavelmente a própria empresa que calada obteria grandes vantagens, renegando o papel primordial da mídia, que, dizem os manuais, deveria ser informar. Mas onde será mesmo que ficam os manuais naquele momento em que vale a pena ganhar de novo?

E não é só o silêncio que revela obstrução. Tumultos minuciosamente plantados de modo a distorcer a verdade dos fatos também entravam a atividade jornalística, visto que quem os “pede” contribui para o aumento da corrupção entre os profissionais de imprensa e tira espaço de temas realmente merecedores de destaque.

Vejamos um exemplo bem recente, dentre tantos que poderiam ser dados. A troco de que um jornal como “O Globo” publicaria na capa – edição de sexta-feira, 29/08/08 – que “a agenda do celular do ministro Nelson Jobim registra encontro secreto com José Dirceu”? E sob o sugestivo título “Ministro José Dirceu?” o jornal faz questão de frisar que na tal agenda do celular de Jobim, Dirceu ainda é chamado de ministro. Ora, a chamada de capa pra esse assunto de “interesse nacional” levantado pelo jornal carioca traz foto e tudo do tal celular do ministro Nelson Jobim. Como eu ia dizendo, a troco de que mesmo isso? Bem, troco talvez seja bondade minha…

Sim, está aí mais um exemplo pra vasta coleção do “jornalismo comprado”. E se quem “compra” corrompe está conseqüentemente controlando e toda forma de controle provoca também obstrução. Alguém já viu liberdade controlada? Paradoxo puro, só pode ser um eufemismo pra prisão. Perguntem aos passarinhos de viveiro…

Como falar em liberdade de imprensa quando jovens jornalistas idealistas, aqueles que saem dos bancos universitários como pássaros cheios de vida, chegam ao mercado de trabalho e logo de cara têm suas asas cortadas, se vendo dentro de verdadeiros viveiros? Obstrução de sonhos, eis a pior de todas. Raiz de todas as outras.

A humanidade sem sonhos não teria saído da idade da pedra e certamente não existiria imprensa. Por que grande parte da imprensa parou de sonhar? Obstruindo a si mesma torna cada vez mais limitado o leque de possibilidades de uma sociedade que gostaria, sim, de contar com informações relevantes, confiáveis e de qualidade.

Obstrução vai contra liberdade. Sonhar liberta.

Ana Helena Ribeiro Tavares,
29 de agosto de 2008

*Estrada sem destino no blog do Patolino

TV – As duas faces dessa moeda

O processo de vulgarização da TV em contraste com sua contribuição ao progresso da humanidade

A luta por altos níveis de IBOPE tem levado muitos canais de TV a conseguir níveis estratosféricos de vulgaridade e sensacionalismo. Gastam-se horas e horas com uma programação apoiada na máxima de que o povo adora uma boa baixaria e muitos programas, inclusive na área jornalística, parecem apostar insistentemente na violência como sinônimo de audiência.

Os poderosos da televisão não podem, porém, se esquecer de que o povo, principalmente o brasileiro, é extremamente inconstante e boa parte dele parece já estar se cansando de tanta apelação.

Não fosse o forte poder persuasivo que a mídia televisiva ainda exerce sobre as mais diversas camadas sociais, os legítimos representantes do que se pode chamar de “cultura da apelação sexual” dificilmente teriam grande ascensão, tão meteórica quanto infundada. Para comprovar o quanto a falta de talento e originalidade cansa, basta observar o que costuma acontecer a homens e mulheres que têm sua fama sustentada apenas por seus corpos “sarados” ou seu rebolado sensual: já surgem condenados ao esquecimento sem sequer terem chegado a sentir o real sabor do sucesso.

Ganhar fama é uma das coisas mais fáceis da vida, ter sucesso é conseguir mantê-la.

No entanto, para além de servir a essa eterna busca pela fama, o sensacionalismo pode também ser cruel… No que diz respeito a programas jornalísticos, não há momento em que fique mais evidente a perversidade sensacionalística do que na cobertura de crimes hediondos. A pobreza criativa e o desrespeito às vidas envolvidas no caso geralmente são de tal ordem que cabe perguntar para que se gasta tanto papel e tinta com manuais de ética. Até porque se na emissora líder há muitos anos eles já viraram peça de museu fica difícil convencer as outras de que ética e audiência podem caminhar juntas.

Mas, se a ética estiver junto a ilustres companheiros, como a criatividade e o talento, ela pode sim atrair o gosto popular. Quem diz que para agradar ao povo só basta mesmo uma boa baixaria nada mais faz do que se esconder atrás da falta de habilidade para produzir coisas melhores. Pois é, comodismo também produz sensacionalismo.

Por outro lado, analisemos a face positiva dessa moeda.

Aquela que já recebeu apelidos como “babá eletrônica” e “janela para o mundo” é, antes de tudo, um poderoso veículo de comunicação, que há muito tempo faz parte de nossa vida e não se pode negar que seja de alguma forma benéfica ao povo. Contribui para o progresso humano a partir do momento em que inúmeras pessoas que não têm acesso a outros meios de comunicação (e mesmo as que têm), são beneficiadas pelas informações e pelos bons programas que ainda conseguem sobreviver. Pena que, apesar e por causa de conhecerem todo esse poder que têm em mãos, as atenções da maioria dos profissionais da área parecem estar voltadas para incentivar ainda mais o consumismo…

Contudo, como todo bom brasileiro, não desisto nunca de ter esperança e insisto em acreditar que um dia toda essa vasta gama de informação e cultura que a TV tem o potencial de levar ao povo, ao invés de nos fazer perder valores, poderá servir para nos tornar um pouco mais cultos e informados. Talvez assim compreendamos que muitos dos problemas de que nos queixamos não são nada se comparados a tantas mazelas espalhadas pelo mundo e aí, quem sabe, possamos também dar o devido valor ao nosso país.

Mas isso, amigos, é apenas um sonho de uma jovem idealista… E tenho minhas dúvidas se sonhos dão IBOPE…

18 de abril de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

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