Língua e Liberdade

Por Ana Helena Tavares Em estudo de línguas, não pode haver erro maior do que o de não admitir que não existem erros. Você pode estar errado dentro dos padrões da norma culta. E só. O resto são variações. No entanto, menosprezar a importância da gramática normativa, me parece um comportamento tão opressor quanto o tradicional. Se este último oprime por fazer o aluno acreditar que sua língua é difícil; o seu oposto oprime por não dar ao aluno a liberdade de escolha.

Por Ana Helena Tavares

Vou meter minha colher nessa súbita discussão que tomou as páginas da grande imprensa sobre o ensino do português. Como se eles não tivessem mais o que fazer se preocupando com o ensino de todas as disciplinas no Brasil, posam agora de paladinos das boas maneiras.

Não tive acesso às polêmicas páginas do malfadado livro “Por uma vida melhor”, mas até onde eu sei o alvoroço é por conta de um único capítulo que não pretende dizer que o método descritivista de ensino do português (termo técnico que define o método que busca descrever a “língua do povo”) é o único, mas tão somente que ele existe. Negar esta existência é negar a evolução da língua e, mais do que isso, é negar que ela não tem dono, querendo dela apropriar-se.

Desde os primórdios da civilização humana, a língua é instrumento de dominação. Para os poderosos, muitas vezes, só interessa que o povo saiba assinar o próprio nome, para que possa votar. Ou, quando muito, interessa que a população tenha um nível mínimo de leitura para que ninguém possa dizer que desconhece as leis. Aquelas que estão escritas em nossa Constituição, mas eles mesmos, lá em cima, não cumprem.

É por isso que o que me interessa aqui é tentar analisar a questão sem usar o tal livro de bode expiatório para destilar preconceitos. Receita fácil que nossa mídia, mais uma vez, requenta.

Quando fiz Letras na UFRJ, abandonei o curso no 5º período e um dos motivos foi justamente que eu não aguentava mais a priorização exacerbada do método normativista de ensino do português. Também conhecido como “Tia Norma”, é aquele método academicista, parnasiano, purista, em que as gramáticas sabem tudo e o povo, falante da língua, fica à margem do que é certo.

Em estudo de línguas, não pode haver erro maior do que o de não admitir que não existem erros. Você pode estar errado dentro dos padrões da norma culta. E só. O resto são variações.

A língua é de quem a fala e, nesse sentido, a nossa sofreu recentemente uma grande facada com as mudanças ortográficas impostas arbitrariamente por um “acordo” que nunca existiu. O povo foi consultado? Não! Nem a voz dos estudiosos foi ouvida. Querer unificar a língua que se fala no Brasil com a de Portugal, com a de Angola, e etc, foi uma atitude política tão ditatorial como se impusessem que vestíssemos os mesmos trajes. Língua é cultura. Cultura é mutável.

No que depender de mim, quebraram a cara. Porque da minha idéia ninguém tira o acento.

Mas voltando à polêmica da moda… Quando fiz Letras, li um livro chamado “Língua e Liberdade”, do respeitado gramático Celso Pedro Luft. É uma obra radical e não sou dada a radicalismos.

Fico observando esta polêmica toda, que tem o visível intuito de desgastar o ministro da educação, Fernando Haddad, e me pergunto: por que ninguém nunca cogitou censurar aquele livro? Li duas vezes e o que diz lá é nitroglicerina pura. O jovem que o termina de ler corre o seríssimo risco de jogar todas as suas gramáticas pela janela.

E é mesmo esse o objetivo do autor: chocar, em todos os sentidos da palavra.

Logo na capa, fica claro que Luft pretende colocar em choque duas visões muito distintas do ensino da língua: a normativista, representada pelo dedo em preto e branco que aponta para um “A” melimetricamente traçado numa tábua de desenho técnico; e a descritivista, representada por um “a” pintado a mão dentro de um balão de fala.  Neste confronto de visões, Luft defende claramente que a vencedora deveria ser a de que “toda a pessoa sabe a língua que fala”, pondo assim em cheque a idéia de que há gente que “maltrata” ou “assassina” sua própria língua. Não, não há este tipo de crime. E, para embasar seu posicionamento, Luft vai da genial crônica “O gigolô das palavras”, de Luís Fernando Veríssimo, às respeitabilíssimas teorias lingüísticas de Noam Chomsky.

Como Luft mesmo confessa, não é missão fácil abraçar tal bandeira. É pena ele não estar vivo (morreu em 1995), pois, certamente, haveria de ter algo interessante a dizer sobre essa polêmica depois de ter escrito um livro inteiro com concepções muito mais extremistas.

Como do livro “Por uma vida melhor” eu não posso falar muito, já que não o li, e não sou dada a falar sobre o que não sei, nem preciso fazer isso só para agradar patrão, analiso o caso pela ótica do livro do Luft. Ele, ao contrário do que dizem conter no livro polêmico, defende abertamente que se troque o normativismo pelo descritivismo (que também poderia ser chamado de relativismo).

Tenho que dizer que creio que não é esse o caminho. Menosprezar a importância da gramática normativa, me parece um comportamento tão opressor quanto o tradicional. Se este último oprime por fazer o aluno acreditar que sua língua é difícil, ficando, assim, desestimulado nas aulas; o seu oposto oprime por não dar ao aluno a liberdade de escolha.

Pedindo licença ao mestre Paulo Freire, arrisco-me a afirmar que a liberdade de escolha é a real libertação do oprimido. Você pode ser um anarquista e se recusar a obedecer a toda e qualquer norma. Sabendo que isso tem um preço caro. Mas até para infringir as regras é preciso conhecê-las.

Por tudo o que li e ouvi de fontes confiáveis a respeito do livro “Por uma vida melhor”, o capítulo “problemático” apenas apresenta algumas variações da linguagem coloquial. Se for assim, não há motivo para escândalo.

Ora, não sejamos tão drásticos e dramáticos: as duas concepções de ensino podem conviver em harmonia. É possível dar aulas dinâmicas e estimulantes, sem literal ou figuradamente, queimar gramáticas.

Repito: quem termina de ler o livro “Língua e Liberdade”, sai por aí com essa vontade e se fazendo a seguinte pergunta: “Afinal, se o Luft diz que eu sei português, para que vou me preocupar em aprendê-lo?”.

Vou mandar um exemplar pro Alexandre Garcia. Inquisição post-mortem na certa.

Sobre a diferença entre democracia e liberdade

Texto que escrevi como apresentação pro meu novo site: “Quem tem medo da democracia?” – clique aqui para acessar

Democracia é uma praça cheia de gente.

Pessoas de todos os sexos, etnias e credos, que, dentro dos limites de uma Constituição representativa, que cria parâmetros e norteia, não têm medo de expressar suas opiniões e, ainda assim, convivem em harmonia, tolerando pacificamente o contraditório.

Seja a Cinelândia, das passeatas com milhares, seja aquela pracinha de sua cidade interiorana. Lá na velha Athenas, foi assim que a palavra democracia foi criada: para ser abrigada num púlpito público, localizado no centro da pólis (denominação dada às antigas cidades gregas que deu origem ao nome política), cujo objetivo era dar voz a todos, sendo respeitada a vontade soberana da maioria. Vale o que mais de 50 por cento acham bom.

Esta vontade, muitas vezes, pode ir contra nossa vontade. Quem mora, por exemplo, num condomínio, sabe bem o que é não ser livre para alterar a fachada de sua varanda. Mas, ao coro dos insatisfeitos, resta contentar-se e conseguir convencer os outros de suas idéias. Dá trabalho, claro. Ser déspota é imensamente mais fácil, porque prosperar numa democracia requer gasto de saliva e talento para o diálogo – palavrinha mágica.

Quanto mais vemos os outros sofrerem, mais gostaríamos que o mundo fosse assim: pessoas dialogando em paz. É, por assim dizer, um ato solidário, conflitante com o ódio (de desapego a si e à sua vontade, quando esta perde). E disto só os tiranos opressores têm medo. E como o mundo está cheio deles! Há até aqueles que querem discursar nas praças de outros países…

Liberdade é uma estrada rumo ao infinito.

Quando este rumo é roubado, tudo parece cansaço. Mas a liberdade é um raio de sol, onde nos apegamos e nos refazemos. É um oásis alucinógeno que nos faz caminhar sedentamente até ele. Mas, se acaso lá chegássemos, e nos deparássemos com muitos lagos, viria de certo a forte dúvida: em qual beber?

Liberdade não tem norte e é conflitante com o amor.

Senão vejamos… Consta que John Lennon, autor da frase – “Amo a liberdade, por isso deixo tudo o que amo livre” – morria de ciúmes de Yoko Ono. E o que é o ciúmes senão o medo de perder o que se ama? E como amar sem ter ciúmes? E o que é o amor senão um “prender-se por vontade”? Seja a alguém, a algo ou a uma terra, quem ama cuida e quem cuida cria laços, elos de uma corrente imaginária mais forte do que as físicas.

Mas liberdade é também ter o direito de escolher a quem ou a que se prender. O problema nas ditaduras é que quem escolhe isso não é nem você nem a maioria – é a minoria “iluminada” e embebida de ódio. Tiranos têm raiva da própria incompetência e temem a democracia porque sabem que não conseguiriam se destacar não fosse pela força. Seu medo é gerado pelo ódio.

E o ódio nada mais é do que uma vontade de ter “licença para matar” ou destruir. O agente secreto da rainha inglesa tinha, mas seguia ordens.

Liberdade é um faroeste sem xerife.

É, no fundo, uma utopia. Não creio que tenha havido na história da humanidade alguém totalmente livre de amarras afetivas e sociais. Até os mais libertários revolucionários não estão a salvo de influências externas. Nesse sentido, a busca pela liberdade talvez se configure numa desesperada tentativa de fuga. Às vezes, uma fuga de si mesmo.

Como se pudéssemos enganar nossas dores, a liberdade é um querer intenso, que, quanto mais sofremos, mais queremos. É, por assim dizer, um desejo solitário (de desapego ao magnetismo do que está à sua volta), pois dá asas a todas as vontades individuais, sem observar as dos outros (tantas vezes conflitantes) arcando com o caos que isto pode gerar.

E, por mais saciado que este desejo nos pareça, sempre desejaremos mais liberdade. Este é o desejo de todos os desejos: desejar mais e mais. Porque, se não houver o que desejarmos, que graça tem o mundo? Apenas tédio e inércia.

Mas o problema é: o que desejar? Muitos não sabem nem querem saber. A prisão, não a física, mas a mental é cômoda. Libertar-se é perigosíssimo. E disto todo ser humano tem medo.

Eu tenho. É o novo ao seu alcance. É o mergulho no desconhecido. É a anarquia. “Graças a Deus”, diria Zélia Gatai, uma anarquista de carteirinha que passou a vida defendendo a democracia. E que lindo era o amor dela pelo nosso Amado.

Sim, é preciso amar para ser democrata, mas a liberdade plena, como utopia que é, conflita tanto com o amor como com o ódio.

Senão vejamos… O ódio, expresso em palavras ou atos, num regime (verdadeiramente) democrático, te levará à cadeia; num mundo livre (caso existisse) te levaria a ser morto. É a (falta de) lei da selva.

O amor num mundo livre? Só quando a humanidade for reinventada.

Sugestão? Ame numa democracia.
Ana Helena Tavares

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