Negócios negócios, paz à parte

Para minha amiga Bete Trotte, que “se mudou para Gaza”.

Faz-se noite por onde passaram os filisteus
Faz-se noite sobre a sombra do belicismo
daqueles pra quem a paz não interessa
Faz-se noite e a manhã não começa
Escureceram o sol, já não ouvem Deus
aprisionaram sua voz num abismo

Faz-se noite sobre um mundo de sofás atentos
Assisti-se ao sangue derramado pelo vil metal
Negócios negócios, paz à parte
Em que parte? Pra que olhos? Não é um filme?
Mas os olhos das mães de Gaza choram
Lágrimas lágrimas, ficção à parte

Não sei como os generais do Estado sorriem
depois de tantos cogumelos nocivos à humanidade
cravando de mortes a terra onde Cristo escolheu viver
impedindo o broto de chegar à mocidade
fazendo vidas valerem menos que poder
e tapando o sol com balas de canhão

Contam com a inércia de um mundo doente
Ouvi dizer por esse meu Brasil:
“Não sou judeu nem mulçumano. Pra que me preocupar?”
Faz-se noite nessa mente senil
que só com a morte frente à frente
verá que na palestina todos vão parar

Ana Helena Tavares
15/01/09

Cochicho e cochilo

– Para o “assaltante de mão trêmula”.

No vagão mais sossegado do trem, senta-se alguém insuspeito ao lado do menino franzino. As poucas pessoas ao redor parecem perceber algo diferente naquele banco ao fundo, mas estão por demais ocupadas por suas próprias preocupações e temem que suas suspeitas se confirmem. O maquinista segue indiferente a tudo.

“Poderia ser comigo, é melhor fingir que não vi, vai que ele está armado?”, pensam alguns. Sim, ele estava armado, mas o menino franzino saiu de lá com a impressão de que a arma tinha mais coragem que o dono.

“Minha mãe morreu ontem”, dizia o assaltante de mão trêmula. “Que maneira de chorar as mágoas”, pensava o menino, enquanto se via obrigado a entregar bens materiais (que, para o menino, guardavam mesmo eram sentimentos). Dinheiro? Curioso… O que o menino tinha o assaltante achou pouco e não quis. Será que, depois da morte da mãe, (se é que um dia ele teve uma) aquele insuspeito assaltante não precisava comprar pão?

Não, ele não parecia ter fome de pão. Na verdade, ele não sabia de que tinha fome. Estava de tal maneira atordoado que, ao que tudo indicava, seu alimento era outro. Bem mais caro que qualquer pãozinho e com propriedades bem mais alucinógenas que qualquer produto de padaria. Caro pelo preço e exageradamente caro porque não o alimentava: o fornecia apenas uma ilusão momentânea e o matava aos poucos. Mas ele era dele dependente.

Chegou naquele assalto mais morto do que sua mãe – onde quer que ela esteja – e, ainda que levasse uma arma consigo, não parecia querer ferir ninguém, o que parecia mesmo era querer conseguir um pouco mais do vil metal pra sair dali e continuar se matando.

Ao mesmo tempo em que o mundo não fazia mais sentido pra ele, ele também havia se tornado quase invisível aos olhos da sociedade.

Antes de deixar a “companhia” do menino franzino (que se manteve sentado paralisado por uma espécie de “estado de choque”) o assaltante ainda se deu ao luxo de arrancar um aparelho eletrônico da mão de outro passageiro, que inesperadamente começou a chorar. Cochicho – e cochilo – geral no vagão. Inércia.

Próxima estação, o maquinista abre as portas. Sob olhares atentos, lá se vai um homem em desespero procurar o lugar mais próximo para se matar com conta-gotas.

Ana Helena Ribeiro Tavares,
03 de Outubro de 2008

Cochicho e cochilo no Recanto das Letras

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