Coisas impossíveis

– Para o meu amigo Marcelo Nogueira, que se já não bastasse ser ele próprio um verdadeiro carnaval fora de época ainda insiste em dizer que já viu alguém dançando freneticamente o fado… : )

Tocar saxofone em Marte
O mundo sem arte

Bandeiras paradas na ventania
Morcego morder de dia

Uma cobra andar de lado
Dançar freneticamente o fado

Correr numa bicicleta a 300 por hora
Chupar cana comendo amora

Passear livre e solto pela parede
Ficar dois dias sem água e sem ter sede

Construir um país em dois meses
A humanidade sem interesses

O bem trapaceando o mal
Pepinos formando um grupo social

Líder sem seguidor
Sacrifício indolor

Lágrima que brota colorida
Uma guerra mundial ser vencida

Paz com muro
O sol raiar escuro

Uma vida assim, assim
Banqueiro sem din-din

Venda sem produto
Palmeira dar fruto

Saci sem cachimbo
Fim-de-semana sem domingo

Beta sem alfa antes
Quixote sem Cervantes

Julieta sem Romeu
Um padre ateu

O céu virar chão
Homem sem coração

Sangue azul
Estar no norte e no sul

Jornal sem notícia
Verdade fictícia

Bebê que fale ao nascer
Sem versos um poeta viver

A Terra sem o mar
A poesia acabar…
Ana Helena Ribeiro Tavares,

14/07/08

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Minha cara família

Foto: Ana Helena Tavares

– Para minha avó Maria Helena (in memorian), que sempre colocou a família acima de tudo.

Minha cara família

Desculpe-me por gentileza

Se não mais podem me ver

Mas arrumei um mensageiro com presteza

Para que isto possam ler.

Aqui no céu o carteado continua

Mas ninguém uma aposta insinua

Todos os dias são ensolarados

Não sei mais o que são dias nublados

Mas o que preciso lhes contar…

É o que vejo aqui de cima

O clima aí anda meio estranho

Sei que vão andando

Por coragem e insistência

Mas não esqueçam de ir pensando

Por que também sem consciência

A confusão é sem tamanho.

Minha cara família

Eu não pretendo motivar

Nem aumentar recordações

Quero apenas poder esquentar

Um pouco os vossos corações

Aqui no céu a birita é proibida

Mas nem por isso uma revolta se incita

Adoramos passear nas nuvens

Não sabemos mais o que é ciúmes

Mas o que preciso lhes contar…

É o que vejo aí na Terra

A guerra parece ser em vão

Mas continuem guerreando

Pela paz e pela fé

E no amor acreditando

Porque também sem cafuné

É sem tamanho a confusão

Minha cara família

Eu até tentei telefonar

Mas o preço disso anda imenso

Vejo-me aflito pra poder lhes alertar

O quanto o mundo anda tenso

Aqui no céu, despreocupados pra valer

Nem sabemos mais o que é chover

Tudo o que queremos temos de graça

Não é preciso fazer uso de trapaça

Mas o que preciso lhes contar…

É o que minha visão alcança

Na Casa Branca só se pensa em canhão

O mundo tá de um jeito que sei não…

Mas façam sua parte

Porque também sem alguma arte

É sem tamanho a confusão

Minha cara família

Mandar carta eu preferia

Mas é rabugento o carteiro

Restou-me neste dia

Enviar um pombo mensageiro

Aqui no céu já não temos nenhum vício

Nada do que se vê em um comício

Temos política, mas não é o nosso forte

Desconfio que isso seja nossa sorte

Mas o que preciso lhes contar…

É das saudades que aqui vão

Muitos mandam beijos para os seus

Eu mando o meu amor

E para todos os meus queridos: adeus…

– Livremente inspirado na letra da música “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque e Francis Hime.

09 de abril de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

“Minha cara família” no blog do Patolino

Conheça a 2ª versão para este poema no blog República Vermelha

Para assistir a um raríssimo clipe com a música “Meu Caro Amigo”, interpretada por Chico Buarque (ainda novinho) com Francis Hime ao piano, clique aqui

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