Negócios negócios, paz à parte

Para minha amiga Bete Trotte, que “se mudou para Gaza”.

Faz-se noite por onde passaram os filisteus
Faz-se noite sobre a sombra do belicismo
daqueles pra quem a paz não interessa
Faz-se noite e a manhã não começa
Escureceram o sol, já não ouvem Deus
aprisionaram sua voz num abismo

Faz-se noite sobre um mundo de sofás atentos
Assisti-se ao sangue derramado pelo vil metal
Negócios negócios, paz à parte
Em que parte? Pra que olhos? Não é um filme?
Mas os olhos das mães de Gaza choram
Lágrimas lágrimas, ficção à parte

Não sei como os generais do Estado sorriem
depois de tantos cogumelos nocivos à humanidade
cravando de mortes a terra onde Cristo escolheu viver
impedindo o broto de chegar à mocidade
fazendo vidas valerem menos que poder
e tapando o sol com balas de canhão

Contam com a inércia de um mundo doente
Ouvi dizer por esse meu Brasil:
“Não sou judeu nem mulçumano. Pra que me preocupar?”
Faz-se noite nessa mente senil
que só com a morte frente à frente
verá que na palestina todos vão parar

Ana Helena Tavares
15/01/09

O panfleteiro e os esclarecidos

– “Um minuto pro Senhor Jesus!”

– “Pra quem? Olha, se for negócio de religião nem adianta”, dizem os senhores apressados.

– “Só quero lhe entregar esse papel. Fala de Jesus.”

– “Ora, faça-me o favor! Acha que vamos cair nessa?! Somos esclarecidos!”, dizem e lá se vão soltando fogo por todos os poros.

– “A paz de Jesus, senhores”.

O diálogo é verdadeiro e o presenciei recentemente ao passar tarde da noite pela porta de uma igreja evangélica.

Ainda que eu acredite muito em Deus, nunca me envolvi com religião nenhuma, mas ao me deparar com a cena não pude deixar de refletir sobre o que mesmo aqueles dois senhores acham que é ser esclarecido.

Intolerância é esclarecimento? Medo de contestar as próprias certezas é esclarecimento? Quem está de fato seguro no que pensa, no que crê, precisa tratar mal o diferente?

Não, de esclarecidos não tinham nada.

15 de Novembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

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