Sonhos não terminam de manhã! (ou Minas ainda há! 1ª e 2ª partes*)

Foto: Ana Helena Tavares

Uma rede, um pedaço de Minas...
Uma rede, um pedaço de Minas...

– Para o meu amigo Gilson Caroni Filho, capixaba com alma mineira, alma de menino… Um menino incansável na luta por justiça, que tanto sonhou construir mudanças no mundo que hoje muda o mundo construindo sonhos.

Vou para Minas, mas cadê Minas?
Disseram que se desfez, disseram que agora é mar.
Mas, ué, lá não tem praia, lá tem boi, lá tem vaca, lá tem o verde que dá café.
Posso sentir o cheiro. E sentir é saber.
Que algo existe, sim, existe! Sinto e…
por isso, ainda há!

De onde vem o leite que tomo de manhã?
Não me enganem!
“Ah, foi feito em laboratório…” Nada disso!
E aquela vaquinha branca que vi sestrosa pelo mato?
Minhas retinas não me iludem e se for ilusão, que mal há?
Tenho certeza, Minas ainda há!

De onde vem aquele pozinho pretinho com um cheiro irrepetível?
“Shiii, hoje em dia isso se fabrica, moça!”
Pela janela do carro observo, de um lado e de outro, cafezais em flor,
lá no meio deles, do coração de uma casinha simples pareço ouvir:
“Cheirinho de café quente, já colheu o resto?” Por lá não passou Mr. Ford,
por lá Minas ainda há.

Vou para Minas, sei que ela está lá! Sei porque sinto.
Ando nas ruas de minha querida metrópole, olho para uma rosa, sinto seu aroma e sei. Tiro o calçado na minha varanda, piso numa nesga de terra e sei.
Até ao acariciar meus cachorros olho profundamente seus olhares indecifráveis
e entendo que Minas sempre haverá.
Basta se querer que ela exista.

Queijo com goiabada,
cheiro de terra molhada,
palmas na calçada: “Ô, de casa!”
Cheguei em Minas. Uma rede, um quintal: “Ah, que bela amendoeira!”
Será dali que saem aquelas amêndoas parrudas de Natal?
Sabia que Minas ainda havia.

Como passar um Natal sem Minas?
Um Natal sem o interior,
qualquer interior.
Noel vem de uma cidade sonho?
Vem da minha Minas.
Todo real foi sonho antes.

Carrinho de rolimã desce,
sobe ladeira.
Era o brinquedo preferido do menino magrinho, irmão de mais dezesseis,
na sua longínqua Minas.
Hoje, bem-sucedido empresário, no Rio de Janeiro que adotou, ele garante:
“Minas não sai de lá.”

É por isso que eu vou para lá.
Na minha viagem, talvez não ouça nenhum “uai”.
Quem sabe não encontro algum capixaba, ou paulista talvez…
Que interior rico tem São Paulo, que interior rico tem o Brasil.
E pelo mundo afora já imaginaram quantos recantos não são, por assim dizer, mineiros? “Para que pressa, meu senhor, a gente já chega, é logo ali…”

E o senhorzinho, então,
vai indo,
vai indo,
até que avista Minas.
Ela estava
dentro dele.

Porque dentro dele
canta um galo.
Acordou junto
à primeira fornada.
Um pão quentinho
e Minas cabia naquele cantinho.

Lá fora, as folhas choram
o orvalho da noite que ninou as ladeiras.
Telhas com lodo acusam:
por ali passou água,
por ali passou vida;
Minas passou por ali.

E para onde foi Minas?
Terá ido para o bater de asas do beija-flor
ou para o deslizar da gaivota?
Não importa. Minas paira.
É o que os galos anunciam
todas as manhãs.

Você não os ouve de seu arranha-céu?
Experimente passar um dia arranhando
a terra…
Fazendo desenhos nela, casinhas de barro…
Ah! Como fiz casinhas de barro!
Sim, Minas mora nelas.

E pode morar também na sua,
basta ouvir o cantar do galo.
De repente, no ouvido um estalo.
É estalinho, é São João.
A brasa da fogueira escreve no vento:
“É Minas! É trem ‘bão’!”

Olha o trem…
ziguezagueando as montanhas,
parece brincar
com os cafezais.
Café com galo cantando?
É gosto de quero mais.

“Toma os trocados
pro seu doce,
vai lá na barraca,
meu filho,
deixa eu fazer o bolo de milho.”
Ah! Quero mais…

Minas deixa esse gosto nos lábios dos que já a beijaram.
E sinto… E há.
Como quando um domingo à tarde me faz sentir passar a banda…
Ela não passou? Mas senti.
Como quando um pingo de arte me faz sentir rodar em ciranda…
Não rodei? Mas senti.

Minas é sensação.
Como amar sem sentir?
E que gosto tem o real
sem o amor
que se confunde
com aquele chamego de interior?

Que gosto tem a fruta comida do pé?
Tem gosto de Minas!
Para que lavá-la e tirar seu pólen?
Minas é aquela pétala que compõe a flor,
porque secá-la é lhe negar sabor.
Sim, mangas têm pólen, margaridas têm sabor.

Como um grão de areia
que na nossa mão é maior que o mar,
Minas transforma,
se transforma,
nos transforma.
Por isso vive.

Vive na folha que cai da árvore
e voa que voa.
Sabe-se lá onde vai parar.
Vive na formiguinha que sobe a parede
à toa, à toa…
Que nada, está a trabalhar.

Está presente nas abelhas que dão mel
e nas ovelhas que dão lã.
De onde vem isso tudo, meu Deus?!
Para compor uma mesa de ceia, risadas harmônicas
e tortas rodeadas de saladas de frutas.
Quantas Minas, quanto campo, quantas lutas!

A pedra que dava ouro hoje dá louro
a quem nela crê.
Em Minas, tem dessas pedras que rolam na grama,
se sujam de lama,
sem se importar com quem vê.
Nem com quem ouve…

Mas o galo quer platéia… E a platéia precisa dele.
Ouça você com mais cuidado.
Sim, ele canta em sua metrópole.
Até na Avenida Central ele canta.
Verdadeiro mestre em disfarces,
sabe de inglês a javanês.

“Um dia traduzi num exame escrito:
‘Liberta que serás também’.
E repito”
Foi assim que Vinícius de Moraes confessou ter um dia
errado a tradução do lema da bandeira mineira.
Repito com ele!

Como saber se Minas há
se você nunca buscar libertar-se para que ela liberte-o?
Não tem tempo?
Ah, foi bom lembrar…
Cocoricó!!!!!
Para ser livre, Minas gosta de libertar os relógios.

E o que Minas
mais gosta mesmo
é de ser Minas.
Uma autenticidade
que nunca ninguém
vai lhe tirar.

Seja você
mineiro ou capixaba,
brasileiro ou estrangeiro,
é fácil entender.
Minas é sinônimo
de sonhar.

Já foi num campinho daqueles de várzea
e observou alguns pés descalços
atrás de um sonho?
Já interpretou o rosto de quem ganhou sua primeira pipa
e foi pro alto de uma ladeira para soltá-la
sonhando alcançar as nuvens?

A Minas
de que falo
é tudo isso.
Todos os sonhos
que enquanto houver
o pulsar de corações
não morrerão.

Ela está nos hábitos mais gostosos
que a humanidade já produziu.
Desde o sonho
de abraçar o mundo
ao desejo
de abraçar e beijar aquele menino/menina com quem tanto se sonha.

Sim, Minas está também nos namoros
e nos choros
que eles produzem…
Já se banhou num lago em dia de chuva fina e chorou de amor na cabeceira de um rio? Ou quem sabe… Já correu no temporal e chorou de amor à beira mar?
Suas lágrimas foram para Minas.

Chove e, em cada gota,
Minas é mais Minas.
Da janela se vê folhas escorrerem sua alegria.
Oh! Que lindo girassol no florista
de minha metrópole ensolarada…
Foi regado com amor.

Minas está no sol e na chuva, no sol e na lua –
está no encontro dos dois.
Está em tudo que é vida e vida
– para quem a vive intensamente –
cheira a sonho, como o pão de queijo quentinho da vovó,
como almofadas macias que embalam meu sono.

Sonhei que uma borboleta piscava para mim de noite.
Estou certa de ter visto uma beliscar os primeiros raios de sol.
Borboleta, borboleta… Borboleta que vai e volta…
Será a mesma? Eu sabia!
Minas está nela
e sonhos não terminam de manhã.

Dezembro de 2008

(escrito à mão, entre os dias 08 e 15, num lugar cheirando a Minas)
Ana Helena Ribeiro Tavares

*Um texto que nasceu por partes…

Minas ainda há 1ª parte no Recanto das Letras

Minas ainda há 2ª parte (ou As manhãs são dos galos e das borboletas) no Recanto das Letras

Minas ainda há 1ª parte no blog do radialista mineiro Carlos Ferreira

Minas ainda há 1ª parte no blog do Patolino

E as partes se juntaram…

Sonhos não terminam de manhã no Portal Literal

Sonhos não terminam de manhã no Guia de Concursos Literários

Sonhos não terminam de manhã no blog É-poésis

Obs: Claro está que este texto é minha singela homenagem ao maravilhoso estado de Minas Gerais e é importante ainda frisar que o título original de “Minas ainda há” trata-se de uma homenagem a Drummond, nosso magistral poeta mineiro, que dizia que “Minas já não há…”

Lisboa – o Porto de Ulisses

Foto: Ana Helena Tavares
Lisboa - Monumento aos Descobrimentos
Lisboa - Monumento aos Descobrimentos

– Para meu amigo Antônio Baptista, lisboeta duro na queda.

Um pequeno roteiro para se aproveitar a capital portuguesa

Diz a lenda popular e romântica que Lisboa foi fundada pelo herói grego Ulisses e que, tal como Roma, o seu povoado original era rodeado por sete colinas. O nome da cidade deriva de “Olissipo”, termo que tem origem nas palavras fenícias “Allis Ubbo’, que significam “porto encantador”.

Lisboa é uma capital histórica com um caráter e um encanto fora do comum, onde 800 anos de influências culturais diversificadas se misturam com as mais modernas tendências e estilos de vida, criando contrastes verdadeiramente espetaculares.

Situados na sua maioria no centro, os bairros históricos são destino imprescindível para quem se desloque à capital portuguesa. Pela cultura, pela história, pelas pessoas ou simplesmente para passear descontraidamente, é imperativo descobri-los. Fazendo parte estrutural da identidade lisboeta, estes bairros proporcionam traçar um verdadeiro mapa pessoal da cidade. As possibilidades são imensas.

O Bairro Alto é um dos mais emblemáticos e atraentes para viver a cidade. Bons restaurantes lado a lado com livrarias intimistas, que sempre guardam boas surpresas, convivem com casas de chá acopladas a lojas de roupas desenhadas por alguns dos mais conceituados artistas portugueses. É um bairro apaixonante, cheio de atrações, combinando ousadia e sofisticação com tradição e antiguidade. Passear no Bairro Alto é um ato irrepetível em qualquer outro ponto da cidade.

A zona do Carmo tem alguns pontos históricos fascinantes, como o Convento e a Igreja do Carmo, que mantém elegância e imponência. Aí poderá visitar as ruínas, mas também o Museu Arqueológico do Carmo, que inclui um numeroso legado de peças pré-históricas, romanas, medievais, manuelinas, renascentistas e barrocas. O Largo do Carmo é também um local emblemático da história nacional recente, tendo sido palco privilegiado da Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. A ligação entre o Carmo e a Baixa é feita através de outro monumento fundamental da cidade, o irresistível Elevador de Santa Justa.

No topo deparamo-nos com uma belíssima vista sobre a Baixa Pombalina. Não perca a oportunidade de utilizar este elevador vertical centenário, único deste tipo no mundo a prestar um serviço público e que, tendo sido concebido por um discípulo de Gustave Eiffel, mantém um estilo bem peculiar.

Vale visitar ainda a Sé de Lisboa, datada de 1150 e mandada construir por D. Afonso Henriques. Próximo à Sé, a subida para o encantador Castelo de São Jorge proporciona aos visitantes uma bela vista da cidade. A colina onde se localiza o Castelo é uma das que envolve o tradicionalíssimo bairro de Alfama que, com seus mundialmente conhecidos bares e restaurantes onde se toca o mais puro fado, é parada obrigatória para quem queira respirar por alguns momentos a alma portuguesa.

Já na zona de Belém não se pode deixar de conhecer o lindíssimo Mosteiro dos Jerônimos, onde se acredita que foram sepultados Vasco da Gama e Luís de Camões. É também nessa zona da cidade que se encontra o Padrão dos Descobrimentos. O monumento, de 1960, celebra o quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, homenageando este impulsionador dos Descobrimentos, mas também os principais desbravadores portugueses.

De lá os navegadores partiram para descobrir o mundo. Lisboa hoje convida o mundo a descobri-la.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de setembro/2008 do jornal “Correio Carioca”.

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