O enigma do Jabuti gay

Por José Ribamar Bessa Freire (*)
A diversidade explodia em toda a natureza. Naquele dia, nem a meteorologia escapou: chovia, mas ao mesmo tempo fazia sol. Era o casamento da raposa. Todo mundo se preparava para a festança. O Salão de Beleza ‘Por Um Fio’, cujas paredes tinham as sete cores do arco-iris, estava bombando, cheio de bichos e bichas, cada um esperando a vez de ser atendido pelo Jabuti, o cabeleireiro, sob cuja carapaça salpicada de purpurina se escondia uma sensível alma de libélula.
O quelônio trabalhou como nunca. Fez escova progressiva na cauda peluda da raposa, alisando-lhe os cabelos. Pintou as unhas do Tamanduá com esmalte cremoso de duas cores da moda – o azul aviador e o verde militar. Tingiu com tintocil as sobrancelhas, os cílios, o bigode, a barba e os pêlos pubianos do Chipanzé, da espécie bonobo. Quando aplicava manteiga de karitê na plumagem do Cisne Negro, entrou no ar o Tele-Jornal da Floresta anunciando um fato que comocionou todo o Salão de Beleza.
Segundo a notícia, sete humanos ferozes deceparam a orelha direita de um trabalhador autônomo de 42 anos e agrediram um rapaz de 18 anos. Qual o crime cometido pelos dois?  Ambos estavam abraçados na Exposição Agropecuária de São João da Boa Vista (216 km de SP), trocando afetos. Os pitboys pensavam que se tratava de um casal gay. Mas eram apenas pai e filho. O pai, com a orelha decepada, contou: “Eles ficavam provocando, falavam pra gente se beijar na boca, achando que a gente era gay. E se  fôssemos gay? Qual o problema?”
O problema – segundo um dos pitboys, que se sentiu enganado porque queria dar porrada em bichas e não num pai de família  – é que o homossexualismo deve ser combatido porque é contra a natureza. A prova é que a relação sexual entre fêmea e fêmea ou entre macho e macho não gera descedentes, não perpetua a espécie. Homem com homem dá lobisomem. Mulher com mulher dá jacaré. O homossexualismo é um desvio moral, é algo errado, que deve ser corrigido com porrada, conforme os padrões educativos recebidos e transmitidos pelo deputado Bolsonaro.
O Burro e a Anta
Os bichos e, sobretudo as bichas, queriam saber se o homossexualismo era mesmo contra a natureza. – Claro que não – disse o Jabuti, dando uma reboladinha, revirando os olhos e ajustando ainda mais as alcinhas de sua blusinha apertada. Mas o Burro, fanático, discordou, jurando que bicha burra nascia morta. Por isso, o Jabuti, cuja inteligência era reconhecida em toda a floresta, propôs um enigma, uma adivinhação:
– O que é o que é: se alguém sai da toca, pra correr na floresta, quem se sente acuado, vira bicho encapetado, ruge que nem leão, pensa como burrinha, covarde que nem serpente, cisca como galinha. O que é? 
Para matar a charada, o Jabuti chamou um sábio: o Doutor Coruja, pesquisador sênior, dono de um quilométrico currículo Lattes. Encomendou dele uma pesquisa científica séria, objetiva e isenta, exigindo a publicação do resultado, doesse em quem doesse.
Dr. Corujão, o bofe dos bofes, conseguiu recursos da FAPEF – Fundo de Amparo à Pesquisa Elaborada na Floresta, e começou seu trabalho fichando o livro do biólogo Bruce Bagemihl, intitulado “Biological Exuberance: Animal homosexuality and Natural Diversity”, no qual se baseou para responder as inquietações do mundo animal. Depois, instigado pelas perguntas do Jabuti, observou o comportamento dos bichos que estavam no Salão de Beleza.
– Tem macaco boiola? – perguntou o quelônio. O Doutor Coruja analisou, então, o mundo dos chipanzés. Descobriu que as relações homossexuais eram freqüentes entre os primos do ser humano. Os bonobos, por exemplo, conhecidos como ‘macacos hippies’, transam adoidado, macho com macho, fêmea com fêmea.
A Anta, que era mais burra que o burro, não entendeu: – Se não podem procriar, então por que transam? Ela obtemperou – antas, apesar de antas, também obtemperam – que não fazia o menor sentido a existência de um casal que não pode ter filhos e que isso em nada contribuía para a evolução das espécies. Qual era a utilidade dos perobos e dos fiu-fius no mundo animal?
Com ajuda do power-point, o Dr. Coruja respondeu que os chipanzés transam com indivíduos do mesmo sexo para resolver conflitos, pedir desculpas, parabenizar o parceiro ou só pelo prazer, sem sentimento de culpa, porque nunca ouviram o discurso do papa. Esse fato torna os chipanzés menos agressivos e mais sociáveis.
O emérito pesquisador citou artigo de sua autoria “Trends in Ecology and Evolution”, no qual destaca a importância do homossexual para a evolução das espécies animais. Exemplificou com vários casos: a hiena com alto índice de lésbicas, a cacatua australiana com quase a metade dos casais formados por indivíduos do mesmo sexo e as fêmeas do Albatroz do Havaí, quase todas ‘sapatonas’, que se unem a outras fêmeas justamente para poderem criar seus filhotes, com muito mais sucesso do que as fêmeas que são mães solteiras. Concluiu que esse não é o único caso em que a homossexualidade ajudou a sobrevivência das espécies.
A raça humana
Empolgado com o avanço da pesquisa, o Jabuti perguntou se existia golfinho gay, já que o simpático Flipper, da série de televisão, levava o maior jeito de quem saiu do aquário e soltou a franga. Depois de profundas pesquisas, o Dr. Corujão revelou que o golfinho-nariz-de-garrafa é bissexual, mantendo o mesmo número de relações hétero e homossexuais. A relação homossexual e a troca de carícias permite alianças duradouras e fortalece a amizade entre o casal.
Finalmente o Jabuti revelou que seu grande sonho era ser um Cisne Negão, porque a-do-ra-va aquela plumagem acetinada. O Dr. Coruja informou que existe uma alta incidência de gays entre os cisnes negros, cerca de 25% deles escolhem outros machos para parceiros e com eles convivem a vida toda, pois são monogâmicos.
– E os filhos? Se não podem ter filhos, a espécie se extingue – insistiu a Anta-de-tênis.
O Dr. Coruja explicou, então, que para terem filhos, membros de casais de machos têm relações convencionais com fêmeas. Assim que elas põem os ovos, recebem um pontapé na bunda, os dois machos vão juntos cuidar dos ovos delas, até o nascimento do cisninho júnior. A hipótese do pesquisador é que quando os dois cisnes gays somam as suas forças conseguem defender melhor o seu território. “O resultado é que, em média, filhos de casais gays tem mais chances de sobreviver”.
A pesquisa do Dr. Coruja detectou cinco variedades de comportamento que se aproximam daquilo que os humanos chamam de homossexualidade. No reino animal, os indivíduos do mesmo sexo dão desmunhecadinhas jogando charme para conquistar parceiro, se exibem, fazem carinhos mútuos, se beijam, realizam casamentos duradouros e, em muitos casos, criam filhotes nem sempre com o envolvimento da dupla papai-mamãe, além, é claro, de furunfarem adoidado.
O Dr. Coruja comprovou ainda a existência de comportamentos homossexuais em mais de 500 espécies de animais e revelou que é indiscutível a existência de certos processos de atração entre indivíduos do mesmo sexo no mundo animal. Ele chamou a atenção para o fato de que os comportamentos variam muito de uma espécie a outra e que a homossexualidade dos outros animais não deve ser entendida como idêntica à humana. Concluiu, apenas, que a homossexualidade não pode ser considerada um crime, nem uma doença, mas algo tão natural quanto a heterossexualidade. O argumento de que a bichice é contra natura não tem, portanto, qualquer fundamento científico.
Antes de matar a charada, o Jabuti perguntou:
– O Cisne Negro é duplamente agredido, por ser cisne e por ser negro?
O Dr. Corujão disse que não, que não observara homofobia nem racismo entre os animais, nem incentivo ao ódio, à discriminação e à intolerância. Nenhum bicho homo faz proselitismo com os heteros, mas também nenhum hetero quer impor seu modelo através da violência. Foi aí que o Jabuti decifrou o enigma:
– Ah, então, os animais são muito mais civilizados que os seres humanos, porque só matam por necessidade. Os selvagens são esses pityboys covardes e burros que decepam orelhas de um indivíduo da mesma espécie, atacam gays na Avenida Paulista, esfolam e matam como fizeram com o cabeleireiro Donizete, em Barretos (SP) e não sabem conviver com a diferença e a diversidade – essa sim a matriz da sobrevivência das espécies.
*José Ribamar Bessa Freire é antropólogo e colabora com o “Quem tem medo da democracia?”, onde tem a coluna “Taqui Pra Ti“.

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