O pastor e a “gostosona”

Por Laerte Braga(*)

O pastor Joe Nelms foi abençoar os corredores de uma prova da categoria Nascar, nos EUA, estado do Tennesse e lá pelas tantas, invocando bênçãos, proteção, agradeceu a oportunidade de estar ali, de viver na América e de ter uma esposa “gostosona”.

Constrangimento geral, pilotos rindo, mecânicos estupefatos, outros sem ter idéia de onde enfiar a mão e Nelms terminou sua oração para alivio dos que estavam presentes.

A empresa que fabrica o sabonete PROTEX está levando ao ar nas principais emissoras de tevê do País, satélite principalmente, ou cabo, um comercial em que a aluna de uma escola é vítima de buyling por parte de seus companheiros por ter uma espinha. Mostra o professor escrevendo a palavra espinha no quadro que era negro e virou verde, o caderno da moça com a palavra em letras garrafais e corta para dizer que PROTEX acaba com espinhas, germes e bactérias, pelo menos 90%, “palavra de dermatologista”.

O pastor falar a besteira que falou, usar o termo “gostosona”, podia ter manifestado seu amor de outra forma, é natural. Pastores, com raras exceções são produto do nada que constroem verdadeiros castelos sobre a fé de incautos e nos EUA são indispensáveis desde Billy Graham para manter a farsa da democracia cristão e ocidental.

Billy Graham chegou a ser apelidado de Billy Grana tamanha a avidez com que se lançava sobre o dízimo e sobre as verbas do governo Reagan, do qual era mentor.

O sabonete é propaganda típica dessa onda de “especialistas” que povoa as telas de tevê branqueando dentes, curando todos os males possíveis e adere, como nesse caso, ao politicamente incorreto, na prática, a odienta perseguição sobre quem não se enquadra dentro do modelo de beleza traçado pelos senhores do mundo.

Tem espinha? Não chega nunca a Harvard, deve ser o raciocínio dessa gente.

Ser politicamente correto costuma significar hipocrisia. Usar o verbo judiar pode custar a acusação de anti semita, mesmo que judeus/sionistas sejam genocidas, terroristas, ocupem terras palestinas, saqueiem, matem, torturem, pratiquem, enfim, toda a sorte de barbáries possíveis contra palestinos. Na verdade o verbo judiar surgiu exatamente dessa característica de judeus/sionistas.

São perversos.

Vender um creme dental com um dentista ao lado mostrando os benefícios do dito cujo virou moda. É uma profusão de profissionais vendendo os mais diversos cremes dentais existentes no mercado, com destaque para a agressiva campanha da COLGATE, que invade inclusive lugares íntimos, como no caso da moça que está experimentando roupas no vestiário de uma loja.

A maioria dos norte-americanos, perto de um quarto da população, está desempregada, vive em condições precárias em trailers, tendas, carros, etc, por conta do milagre que o presidente do Banco Central gerou – “capitalizem suas casas”. Um monte ficou sem casa e sem emprego. O plano de saúde de Barack Obama não saiu do papel, os republicanos não deixaram.

Na França, uma das colônias norte-americanas na Europa Ocidental, trabalhadores de uma fábrica de fraldas, a ONTEX, enviaram 187 fraldas à mulher do presidente Nicolás Sarkozy, grávida. Pedem à moça que interceda por eles já que os donos querem fechar a fábrica em setembro e todos perderão os empregos. O número de fraldas corresponde ao número de trabalhadores na ONTEX.

Um apelo foi feito na tevê por um delegado sindical.

No twitter, que substitui outros canais para expor publicamente a vida íntima de cada um, a cantora Sandy bateu recordes esses dias por conta de uma entrevista dada à revista PLAYBOY, que “é possível ter prazer anal”.

É ali que William Bonner posta uma de suas fotos dormindo durante as férias.

A mediocridade é um negócio fantástico, a sociedade do espetáculo neste momento pegou um diretor de filmes “B”.

Segundo Sandy ela não disse o que disse, mas “está valendo a brincadeira”.

Perto de tudo isso a fala do pastor é uma ingênua manifestação de vaidade de um idiota montado no ouro à custa de otários e que fez questão de proclamar que sua mulher é “gostosona”. Deve ser ela, naturalmente, quem passa a cesta recolhendo os donativos.

É possível até que com roupas coladas ao corpo para ressaltar as partes desejáveis, digamos assim, embevecendo celestialmente os fiéis.

E ainda destacou que tem dois filhos, ou seja, mostrou sua virilidade, deve ter posto água na boca de alguns dos presentes.

Aí, um deputado italiano, na Itália lógico, diz que o norueguês que matou quase uma centena de pessoas e deixou uma carta criticando muçulmanos, o multiculturalismo, a miscegenação racial, tem “algumas idéias boas e outras ótimas”.

Fica difícil explicar o cara que pega uma daquelas baitas metralhadoras que você compra numa loja nos EUA e sai praticando tiro ao alvo porque a professora não lhe deu a nota merecida.

O norueguês já declarou que fez o que fez para “salvar a Noruega”.

“A história está à beira da explosão e escapam todos os caminhos que permitem ao homem exercer sua liberdade. Um único projeto parece possível: cada um por si. Mas qual o papel do homem frente às incongruências , injustiças e preconceitos do mundo? Pode ele simplesmente se furtar a tudo? Como pode reagir um prisioneiro que aguarda seu fuzilamento?”

Ou uma injeção letal? Ou esteja no campo de concentração de Guantánamo? Ou separado pelo muro na Palestina, ou no México?

Num sei, use COLGATE, tome banho com PROTEX e se entupa de transgênicos com agrotóxicos que “é possível ter prazer anal” (o problema não é pensar isso, o problema é expor publicamente) e lave o banheiro com HARPIC.

O parágrafo entre aspas é de Jean Paul Sartre.

E óbvio, o pastor não falou, mas pensou, “ninguém tasca eu vi primeiro”. Falo da “gostosona”.

*Laerte Braga é jornalista e colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde tem a coluna “Empodera Povo

2 respostas »

  1. Prezado Laerte,

    Como sempre genial em seus artigos.
    Tenho uma tese, que indica, que tudo isso que você descreve em seu artigo, decorre, da espetacularização da vida, em benefício da projeção pessoal.
    Parabéns mais uma vez.

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