Nada é por acaso

O texto abaixo é do meu amigo Daniel Vasconcellos. Amigo de termos divido bancos escolares no nosso inesquecível CPII. Fico muito feliz de publicar este texto aqui, acompanhado do vídeo acima (sugerido por ele), porque é a prova de que há, sim, jovens atentos aos mais corriqueiros acontecimentos do cotidiano e capazes de ver neles uma oportunidade de aprendizado. Há, sim, jovens que respeitam a sabedoria dos mais velhos, pois sabem que por debaixo de cabelos brancos, muitas vezes, pulsa um coração mais jovem do que qualquer jovem. Parabéns, Daniel! É um dom divino enxergar o que a sociedade renega. Segue o texto…

Numa das atividades que exerce um agente de aeroporto, está o acompanhamento de prioridades, os ‘meeting and assistance’ , entendido pelo código no sistema MAAS. E na Azul, pude fazer inúmeros, sendo os idosos os mais ‘divertidos’ talvez.
Sempre que possível, troco um dedo de prosa, pois não existe maior sabedoria que daqueles que já viveram muitos anos, e esse seria o estágio máximo do ser humano: a vivência!
Inúmeros são os casos e as histórias, de uma faixa etária, que em sua maioria carece de atenção e de carinho. Pois depois de tanto tempo, o sentimento de solidão ou o medo de ficar só, transparece visível em qualquer contato humano, no brilho do olhar de quem recebe o mais genuíno e receptivo ‘seja bem-vindo(a)’ quando a porta do avião se abre. Nesse momento, está selado o recebimento esperado de quem aguarda um acompanhamento da Azul.
No dia de hoje, pela terceira ou quarta vez desde que estou na Azul, recebo a senhora Emilia vindo de Porto Alegre e ela me reconheceu:
– Olá Vasconcellos, como vai? perguntou ela.
Eu lhe respondi:
– Vou bem e a senhora?
Ela continuou:
– Hoje vim sozinha, costumo sempre vir com meu marido, você se lembra, o Zupo?
Eu:
– Claro, estou lembrado sim, hoje ele ficou?
Ela:
– Não, Zupo faleceu na nossa última ida, se lembra que você nos conduziu até o avião?
Nessa hora, eu senti um arrepio dos pés à cabeça, e parecia que alguém realmente muito próximo a mim tinha falecido. Mal sabia eu a coincidência que vinha.
Eu:
– Claro que lembro do ‘Seu Zupo’, mas o que o aconteceu? Nossa Dona Emilia, eu estou perplexo.
Eu suspirei profundamente e ela visivelmente abalada continuou dizendo que ele sofrera um AVC e que tinha falecido em Porto Alegre.
Eu demonstrei meu mais profundo pesar e uma consternação no olhar, porque nós sabemos da morte e a imaginamos distante de nós. Mas foi questão de alguns dias que se passaram desde que os embarquei e ele esteve comigo, assim como ela. Era um casal que viajava sempre conosco, e por serem frequentes, acaba-se por estabelecer um laço de amizade e carinho por essas pessoas.
O que mais me surpreendeu foi o que ela me disse em seguida:
– Vasconcellos, eu conto para os meus sobrinhos e filhos os anjos de guarda que Deus me coloca no caminho. Pois dessa vez todos ficaram preocupados comigo, pois eu embarcava sozinha e disse que não se preocupassem. Porque sempre cuidam muito bem de mim, e eis que vem você Vasconcellos. Eu já o reconhecera quando o vi chegando no avião!
Eu complementei:
– Dona Emilia, eu não estava programado para receber esse voo. Eu ia receber uma cadeira de rodas que chegara no voo que está numa posição remota. Mas no momento em que me dirigia para lá, o avião da senhora pousou e só eu era o mais pronto a recebê-lo. E então outro colega foi fazer a cadeira de rodas.
– Então Vasconcellos, nada é por acaso, e agora como você, eu que fiquei arrepiada. Ela me deu um esbarrão de leve com o braço confirmando o que tem como mantra: Deus coloca os anjos de guarda próximos sempre.
Nesse momento, já descendo as escadas rolantes, eu comentei com ela:
– Dona Emilia, eu percebo, com meus poucos 26 anos, que somos colocados à prova a todo instante e a grande dinâmica da vida está em saber se reciclar, recomeçar a todo momento e a todo instante. Nunca seremos estáticos e estáveis. E feliz sou eu, confirmando esse meu pensamento, pelo modo que vejo a senhora, após perder o marido, de cabeça erguida, certa de tudo que fez de melhor e proporcionou ao seu marido. Mesmo quando doente, levando-o e trazendo-o de avião, contrariando todos à sua volta que não o fizessem pelo estado debilitado que ele se encontrava.
Que Deus a conserve sempre assim, e por mais e muito mais que dez anos a senhora possa voar conosco e eu ter essa graça vinda de Deus, me orientando exatamente no caminho que estou trilhando. E sobre a questão do recomeço e da constante reciclagem.
Conduzi-a até o táxi, onde, antes dela entrar no carro, pedi-lhe um abraço e agradeci por aqueles quinze minutos de uma conversa inesperada e de uma pessoa que jamais poderíamos esperar ensinamentos? Depende do modo que você aproveita as oportunidades que a vida lhe apresenta!
Ela muito grata e contente pelo mesmo motivo, me surpreendeu tirando da bolsa, um papel que continha uma foto de um nascer-do-sol e uma frase fornecida pelo crematório onde fora tratado o marido. “Estarás sempre presente em nossas vidas com teu brilho e sabedoria”.
Com um sorriso no rosto e com uma reverência eu disse:
– Deus a abençoe sempre e permita que esteja sempre entre nós. O meu muito obrigado.
Retornando para ajudar os colegas na operação dos voos embarcando, parecia que eu tinha sido purificado e esse tipo de conversa, promove um turbilhão na minha cabeça, pois as peças, as ideias mudam-se de lugar. Recebem outras prioridades, muda-se de comportamento, de propósito de vida, inclusive.
A razão da nossa existência é algo que custamos a identificar e pode levar anos. Ao final dessa conversa, posso afirmar que é isso que disseminamos quando vivos e guardamos das pessoas que se vão: brilho (a energia que imprimimos naquilo que fazemos) e sabedoria (sobre o que conhecemos).
Rio de Janeiro, 20 de junho de 2011.

A saudade, a lua, a vida… Poesia, Pessoa

Essa foto foi tirada no dia em que tomamos um cafezinho juntos e tivemos a conversa abaixo... Observem que ele está compenetrado pra ver se aprova os meus versos... Não gostou nada, mas insisti tanto que ele permitiu a publicação...

Hoje, vivo fosse, Fernando Pessoa faria 123 anos. Há alguns anos escrevi um “diálogo” com trechos de poemas dele. Lembrando que este blog é também arte, publico hoje aqui. Os trechos de autoria do gênio português estão em itálico e entre aspas. Os trechos sublinhados em negrito são de minha autoria.

– Dedicado à minha amiga Gaby Mendes, por sua coragem de ter ido dialogar com o “poeta fingidor” em solo lusitano e por sua generosidade de ter voltado pra nos contar história.

-”Diálogo” com Fernando Pessoa – 1ª parte – A vida

Vida. O soar de um coração
Doce magia e também sofrimento
A verdade feita de ilusão
Numa alegria banhada a lamento

“Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso nada é inteiro.”

Tal como o acordar de um vulcão
Ou a forte rajada do vento
As voltas da vida, meu irmão
Vêm à sorte, não dizem momento

“Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim
De pensada, mal vivida…
Triste de quem é assim!”

“Quem eu pudera ter sido
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido
Se ao menos chovesse menos!”

Mas todo o sempre haverá de ser
Grande exemplo de jornada
Aquele que lutando morrer
Sem deixar vazia a estrada

“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.”

E nessa vida, sem ter um segundo,
Vagamos à procura de um prumo
Envolto no mistério profundo
Daquilo que só tem um resumo:
Nós somos feito um nada no mundo
Pobre barco sem leme e sem rumo!

“E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada”

“Qual porém é a verdadeira?
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar”

Pois a arte de saber viver
Que nos leva a ser feliz
É viver para o saber
Como eterno aprendiz!

“Mas triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.”

“Eras sobre eras se somem
No tempo que em era vem.
Ser descontente é ser homem.”

Se para uns a luta é prazer
Em nossa vida tão desejada
Quem só deseja mesmo viver
Ganha forças surgidas do nada

-”Diálogo” com Fernando Pessoa – 2ª parte – A lua

“A lua (dizem os ingleses),
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.”

Afinal, numa noite luminosa
Essa lua ensolarada
É a coisa mais formosa
É dama consagrada

“E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De… não sei se é desejar.”

Sei que dos mágicos poderes
Dessa lua de marfim
Indecifráveis prazeres
Brotam em mim

“Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando…
A lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.”

-”Diálogo” com Fernando Pessoa – 3ª parte – A saudade

O que dizer da saudade?
Sentimento que chega de mansinho
E de repente dá uma forte vontade
Vontade de voltar ao ninho

Sem nos pedir licença
Chega para nos fazer
Sentir falta da presença
De alguém que nos faz viver

“E isto lembra uma tristeza
E lembrança é que entristece
Dou à saudade riqueza
Da emoção que a hora tece”

“Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora
Está para além da saudade”

É sensação de peito apertado
Que não fere o corpo mas sim a alma
E só tornando-se a ver o ente amado
É que então o coração se acalma

“Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia”

Por isso a saudade, tão difícil de ser entendida,
Parece nos fazer entender:
Não se pode dar valor a algo na vida
Só quando sua falta nos faz sofrer.

Ana Helena Ribeiro Tavares

%d blogueiros gostam disto: