Honduras: a posição firme do Brasil e a ousadia dos golpistas

É humanizar e ser livre ou autodestruir-se

Por Ana Helena Tavares

Segundo informações do Ministério das Relações Exteriores, a situação hoje, 22 de Setembro de 2009, é crítica em Honduras. A Embaixada do Brasil teve a água, a eletricidade e as linhas de telefone fixo cortadas. Segundo a agência de notícias AFP, “a eletricidade está sendo mantida com gerador”. O Ministério informou, ainda, que o Brasil solicitou apoio à Embaixada dos EUA para que, “em caso de necessidade, ofereçam segurança e diesel para o gerador”. No entanto, ainda não há notícia de que tenham obtido retorno.

Segundo informações do site Uol, “militares de Honduras cercaram na manhã desta terça-feira (22) a embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde permanece o presidente deposto, Manuel Zelaya, e obrigaram a retirada dos manifestantes que passaram a noite em frente ao edifício.”

Em Nova York, onde se encontra para participar da Assembléia Geral da ONU, Lula declarou à imprensa que, para ele, “o normal que deveria acontecer é que os golpistas deveriam dar um lugar a quem tem direito de estar nesse lugar, que é o presidente eleito democraticamente pelo povo”. Lula disse ainda: “Nós esperamos que os golpístas não entrem na Embaixada do Brasil”.

Em nota, os golpistas disseram que pretendem responsabilizar o Brasil por possíveis atos de violência: “A tolerância e a provocação que se realiza desde o local dessa representação do Brasil são contrárias às normas do direito diplomático e transformam a mesma e seu governo nos responsáveis diretos dos atos violentos que possam suscitar dentro e fora dela”, disseram.

Daí, cá com meus humildes botões, eu fico pensando… É sempre assim… A ambição desenfreada dos que nasceram para o despotismo não aceita que o povo, que pra eles só presta manipulado, enxergue com seus próprios olhos. Quando a democracia procura fortalecer-se por meio de consulta popular, a elite conservadora sente-se ameaçada e, tendo chance, tira o pó dos canhões. E não duvido que na caserna ainda repouse o sonho dourado da extrema direita brasileira. Os que ontem apoiaram o chumbo e que hoje continuam no poder, espalhados pelo Congresso, até podem fingir apoiar a paz, mas essa máscara não lhes segura no rosto.

Contar com a ignorância do povo sempre foi ferramenta fundamental de opressão política. Júlio César já sabia disso. Tanto aqui como em Honduras, as elites conservadoras mantém isso em comum: a voz deles é a voz de Deus, portanto povo não tem voz.

Reclamar seus direitos, cobrar deveres daqueles em quem bem mais que um voto, se depositou confiança. Quantos no mundo podem fazer isso e não fazem? Quantos não podem e nem sabem o porquê?

Os homens nascem com total liberdade de pensamento. Podem e devem valer-se dela ao longo da vida. É natural que quem tem um pensamento conservador chie com a possibilidade do progresso; é natural e vital que os progressistas da esquerda chiem junto para defender as idéias em que acreditam; o que não é natural, ou não deveria ser, é o comodismo, a apatia, a inércia.

Só plantando paz é possível colhê-la. É humanizar e ser livre, ou autodestruir-se. Parabéns à diplomacia brasileira pela posição firme de abrigar e apoiar aquele que é o presidente legítimo de Honduras.

22 de Setembro de 2009,
Ana Helena Tavares

Obs: Este texto foi escrito originalmente para a minha coluna na “Revista Médio Paraíba” e para o blog “Quem tem medo do Lula?“. Trata-se de uma atualização do meu artigo “Honduras e os pacotinhos vazios“.

Só vibra o pulso de quem sonha – ou o porquê de eu acreditar no Lula

Lulaaaa

Por Ana Helena Tavares

Cor, brilho, voz, vibração, palavra. Certa vez ouvi uma senhora de 92 anos, esbanjando vitalidade, dizer que a palavra sempre foi sua maior arma. Foi com ela que sempre lutou e – mesmo nas derrotas – venceu.

Contou que já é professora de português há 75 anos e que, depois de tanto tempo, já viu passar pelas mãos dela pessoas de todos os credos – de todas as cores. Rindo, disse que já havia sido alfabetizada quatro vezes por quatro reformas ortográficas. Pelo entusiasmo demonstrado, certamente ainda passaria por mais quatro.

Seu brilho arrebatador no olhar e seu pulso vibrante acusam: ela nunca deixou de sonhar. Sim, ela tem um sonho. Faço idéia do sorriso que Luther King abriria ao saber qual. Ela sonha com um mundo em que as pessoas não nasçam para viver – mas para conviver. Seus 92 anos lhe ensinaram que essa é a maior das artes.

Tomando por base esse sonho tão grande, que é meu, dela e de tantos, fiquei pensando o que, mesmo os críticos mais ferrenhos, teriam a dizer quanto à figura de Lula no que diz respeito à habilidade para essa arte chamada convivência. Olhos castanhos, azuis, verdes ou negros, para ele todos foram sempre dignos do mesmo respeito.

Não há adegas neste país com vinhos que possam dizer que nunca se misturaram a azeite. Mais: misturas fazem parte do jogo político e, se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. O grande segredo está em não permitir que este jogo político que, queiram os “puristas” ou não, precisa ser jogado, contamine a chama da defesa da justiça social, da luta pelas liberdades democráticas e dos Direitos Humanos, de modo a apagá-la.

Foi mantendo acesa essa chama que, depois de realizar tantos sonhos, muitas vezes, tidos como quase irrealizáveis, ele se fez respeitar. Foi assim que seu olhar de retirante chegou a 2009 vendo o olhar negro do chefe da Casa Branca apontar para ele e dizer: “Esse é o cara!”.

Não me digam que é por mero acaso que “o cara”, mesmo bombardeado por uma grande imprensa de interesses pequenos, desfila sua credibilidade, de cabeça erguida e pulso sempre vibrante, desde os mais nobres salões internacionais aos mais pobres grotões deste país.

Ana Helena Tavares

Obs: Neste texto, que está também no blog que ajudo a editar, o “Quem tem medo do Lula?“, eu adapto e mesclo pedaços de dois artigos meus: “O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro” e “Sim, nós podemos!“, de modo a focar mais especificamente na figura política e humana de Lula.

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