“Bolsonaro blefa com as Forças Armadas”, diz general Bolívar Meirelles

Nesta entrevista ao QTMD?, o general Bolívar diz não encontrar nenhuma possibilidade de comparação entre a conjuntura de hoje e a da década de 60. Para ele, “as Forças Armadas não acompanharão Bolsonaro num golpe”.

General Bolívar

Por Ana Helena Tavares, jornalista, editora do QTMD?

Hoje general reformado, Bolívar Marinho Soares de Meirelles é um dos remanescentes entre os militares que foram cassados pela defesa da legalidade e pela oposição ao golpe de 64. Além disso, é mestre em administração pública com a dissertação “Conflitos políticos e ideológicos nas Forças Armadas Brasileiras” (disponível neste link). Nesta entrevista ao QTMD?, o general Bolívar diz não encontrar nenhuma possibilidade de comparação entre a conjuntura de hoje e a da década de 60.

Para ele, “as Forças Armadas não acompanharão Bolsonaro num golpe”. Mesmo porque, garante, “golpe de Estado não é dado somente por militar”. Bolívar acredita que a classe dominante, nesse momento, “não está bolsonarista” e percebe que o presidente vem perdendo apoio entre seus antigos apoiadores. “Bolsonaro vai entrar 2022 de perna quebrada”, vaticina.

A seguir, a entrevista em detalhes:

Ana Helena Tavares: O senhor vê algum paralelo entre o que vivemos hoje no Brasil e o que o senhor viveu na sua juventude na década de 60?

Bolívar Meirelles: Não há nenhuma possibilidade de comparação da conjuntura política atual com a conjuntura dos anos 60. Começa logo pelo fato de que nós não vivemos uma situação de guerra fria. São vários polos que se colocam hoje no tabuleiro.

Houve essa tentativa de golpe do Bolsonaro (no 7 de setembro) que já era para ter resultado no Impeachment dele. O poder judiciário e o poder legislativo já deveriam ter afastado esse cidadão do poder.

Foi abortada. Ele poderia querer. Tinha um grupo de rua mais organizado do que nós que somos contra o governo dele. Somos quantitativamente maiores, porém com menos organização. O jargão ele vai buscar em Plínio Salgado nos anos 30: Deus, Pátria e Família. Isso é integralismo, extrema direita.

Digo sempre que os golpistas têm duas mensagens: uma é o “mar de lama”, como se eles não fossem corruptos. Está aí a prova desse governo desse capitão corrupto, família corrupta. Eles não iam fazer nada de corrupção e eles estão fazendo. Por outro lado, os golpistas agem a partir de uma posição visceralmente anticomunista, que no Brasil costumo denominar de anticomunismo larvar, porque é um anticomunismo tão imbecil que não vê que o Brasil não tem as menores condições sequer de fazer uma revolução socialista. Não há condições, mas eles insistem nisso tentando descobrir anticomunismo até no Lula.

Sempre votei no Lula no segundo turno, porque votava no Brizola no primeiro e Lula era o “menos pior” diante das ameaças neoliberais. Mas aí ele toma posse e foi o que mais beneficiou banqueiros e usineiros. Então, não tem nada de comunismo na cabeça do Lula. No livro “O que fazer?”, Lenin aponta justamente a diferença entre uma posição revolucionária e uma posição sindicalista. Esse livro é fundamental para entender que o Lula não tem nada de comunista. E o PT é um social-democrata devagar.

Como também social-democracia no Brasil é uma brincadeira de mau gosto. O chamado “Partido da Social-Democracia”, o PSDB do Fernando Henrique, foi o que entregou os minérios de ferro e abriu a Petrobrás. O que motivou à época o capitão Bolsonaro, em seu falso nacionalismo, a dizer que queria o FHC morto, porque ele abriu as comportas para o capital estrangeiro. Mas o que faz hoje o governo do capitão Bolsonaro com esse Paulo Guedes? Estão tentando vender todo o patrimônio do povo brasileiro!

AHT: Há alguma chance de Bolsonaro ter sucesso numa nova tentativa de golpe?

BM: Acho que não há chance. E se ele desse esse golpe ele não teria sustentabilidade para permanecer numa situação de golpe. Por quê? Porque golpe de Estado não é dado somente por militar. Ele é demandado, fundamentalmente, pelas classes dominantes. A classe dominante está dividida. Não está bolsonarista.

Nós temos visto esses manifestos saindo recentemente… Então, a classe dominante não está com ele. As camadas médias altas, tradicionalmente golpistas quando se unem, não estão com ele. Ele está se esvaindo. As Forças Armadas estão divididas. A Igreja está dividida. Quem está com ele são essas igrejas neopentecostais, mas a Igreja Católica não está com ele, os espíritas não estão, os evangélicos de igrejas tradicionais não estão. Então, há uma divisão.

E não é o foco hoje do império norte americano ter um governo ditatorial do capitão Bolsonaro no Brasil. Seria até um problema a mais para o império norte americano. E ele não tendo essas forças coesas não há como se manter no poder, ainda mais numa situação de crise. Crise da pandemia, crise da economia.

Nós vivenciamos um momento hoje de perda substantiva (do poder aquisitivo), um desemprego muito grande. O esvaziamento do valor da moeda. Isso aí é impressionante. E qual é a segurança para os investidores virem para o Brasil nesse governo bolsonarista? Eu moro aqui em Ipanema, saio e vejo uma miséria absoluta. Mendigos… Três pedintes por quarteirão buscando esmola. Por que a ditadura, iniciada no golpe de 64, acabou? Porque o Brasil entrou numa crise econômica profunda.

Hoje, eu vejo um quadro quebrado. Tem muito mais gente do povo pedindo o Impeachment do que a permanência do Bolsonaro ou querendo ele como ditador. Não vejo condições concretas nem ao nível objetivo nem subjetivo, porque ele não tem organização suficiente para desencadear o golpe.

Ele blefa com as Forças Armadas. As Forças Armadas, no meu sentido, não acompanharão o capitão Bolsonaro num golpe. Não acredito que o Exército do qual fiz parte seja tão venal a ponto de ser todo comprado em troca de migalhas. Acho que a maioria está preocupada com as instruções e trabalhos internos.

AHT: E as polícias militares não lhe preocupam? O que acha de algumas análises que têm sido feitas apontando risco de insubordinação nas polícias?

BM: Com relação aos policiais militares, também acho que a maioria procura trabalhar. Além disso, tem as milícias bandidas. Veja que eles conseguiram queimar até o nome milícia, porque você sabe que na Espanha houve uma milícia revolucionária anti-franquista. E as milícias da Venezuela têm uma característica completamente diferente desses milicianos daqui. Lá, elas são complementares às Forças Armadas.

Eu não acredito que as polícias tenham força para um golpe, porque acho que o Exército está dividido, não acompanha esse capitão. E eu discordo de um termo que tem sido usado muito pelo coronel Pimentel (oficial da reserva que têm dado muitas entrevistas). Ele fala em “partido militar”. Ele criou essa hipótese de um partido militar que vai jogando para se manter. Eu discordo. Não existe essa coisa. Partido ou é de classe social, ou é burguês, ou é revolucionário ou, ainda, envolve jogos de interesses monetários. Mas não um partido de uma categoria. Se ele vê um partido militar, daqui a pouco vai ter partido dos juízes, dos médicos, etc… Acho que não existe essa coisa.

O Pimentel é bom porque ele vem denunciando muitas coisas. E ele ficou muitos anos no quartel. Já eu sempre digo que sou um general de peito liso e mangas lisas. Ou seja, não tenho medalhas nem cursos. Não fiquei recebendo essa ideologização reacionária. Eu só recebi uma medalha na minha vida que foi a do Pacificador, mas não fui buscá-la. Até porque essa medalha faz referência a Duque de Caxias e acho meio estranho chamá-lo de Pacificador. Ora, ele foi colocando cobertor em tudo o que era corpo… A quem nunca viu, sugiro que assista ao filme “O Grande Ditador”, no qual o Charlie Chaplin faz uma crítica, recheada de ironia, aos generais medalhados.

AHT: 2022 está logo aí. Quais suas perspectivas?

BM: Bolsonaro vai entrar em 2022 de perna quebrada. Ele saiu muito mal dessa tentativa frustrada de golpe, porque, dentro da própria direita que o acompanhava, já tem gente na cadeia e tem um exilado no México (o Zé Trovão, falso líder dos caminhoneiros). Ele (Bolsonaro) vai cada vez mais se desprestigiar e perder essência em meio ao próprio grupo que o apoiava.

Bolsonaro entrou num processo meio esquizofrênico. Foi apelar para um missivista do golpe, o Michel Temer, que deu o golpe na Dilma. E o Temer já havia se movimentado para salvar Bolsonaro na época em que era presidente da Câmara e Bolsonaro subiu no palanque para dizer que queria matar FHC. Ali, Bolsonaro poderia ter sofrido um processo interno de cassação por ter ameaçado de morte o então presidente.

Bolsonaro é um absurdo. Sei que pode parecer discriminatório o que vou dizer, mas ele merece termos fortes: Bolsonaro é um aborto da natureza.

AHT: O senhor chamou Temer de “missivista do golpe”. Então, o que aconteceu em 2016 foi um golpe, general?

BM: Dilma sofreu um “golpe branco”. Branco que eu digo é porque não era vermelho do sangue. Nem foi revolução nem quartelada. Foi uma articulação entre a classe dominante, grande parcela das camadas médias, uma mobilização de rua permanente, que já vinha de 2013, dentro do processo, e o parlamento também contra ela, porque ela não tinha jogo de negociação, como o Lula ou o Temer têm. Ela teve toda a dignidade, mas já estava fraquejando, compondo com o neoliberalismo, com um ministro da Fazenda neoliberal. Ela devia ter ido para a rua defender o governo dela, mas se acuou.

AHT: O general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, revelou em livro ter planejado com o Alto Comando um tuíte, disparado em 2018 e lido no Jornal Nacional, que, na época, influenciou os juízes do STF a não soltarem Lula. Como o senhor avalia isso?

BM: Olha, Marx diz que a história não se repete, quando se repete é como farsa. Nós temos o Tiradentes como símbolo da nossa independência, um mártir. Antes nós tivéssemos tido no Brasil um Simon Bolívar, um nome mais forte, que tinha projeto. Porque Tiradentes não era um homem de grandes projetos nem grande formação como era Bolívar, mas Tiradentes é o nosso mártir. Simbolicamente, ele não entregou os envolvidos e foi martirizado. O Villas Boas não levou nem um empurrãozinho e já entregou o alto comando todo!? O comando do Exército é que decidiu fazer essa pressão. Então, ele vai entrar para a história não como o Tiradentes, mas como Joaquim Silvério dos Reis. Cada um entra para a história pela porta que deseja. Me desculpe o Villas Boas, mas ele não tinha que ter pressionado o poder judiciário. Isso não é função de militar. Ele poderia até achar que o Supremo às vezes vacila. Eu também às vezes acho. Mas o que ele fez não é função de militar. O que é um militar? Nada mais é do que um funcionário público fardado submetido à hierarquia. Tem que prestar continência, tem que se ater às ordens, tem que ter disciplina, essas coisas…

Nós vivemos numa democracia burguesa. Essa palavra (democracia) até poderia ser colocada entre aspas, porque o poder fundamental é da classe dominante. Ruy Barbosa dizia: “maldito o país que tem uma ditadura do judiciário”. Porque, nesse caso, o povo não tem mais a quem recorrer. Sabemos que o judiciário também escorregou. Agora ficou muito claro que aquele juizeco de Curitiba (Sérgio  Moro) e aquele representante do Ministério Público, o Dallagnol, armaram um jogo para prenderem o Lula, para ele não ser candidato e para efetivarem esta mixórdia. E o Moro é tão descarado que aceita ser ministro da Justiça do sujeito que ele beneficiou. Agora o Moro levou um pé do Bolsonaro. O quadro é esse aí.

AHT: Por fim, gostaria de lhe pedir que comentasse uma frase que o senhor sempre gosta de dizer: “Se quiser ter um bom Exército, prepare uma boa sociedade”.

BM: José Saramago dizia: “eu não sou pessimista, a sociedade é que é péssima”. Como é que você vai querer ter um Estado bom, as Forças Armadas bem politizadas no bom sentido no quadro da nossa sociedade? O militar sofre lavagem cerebral na sua formação. Mas e os médicos reacionários que nós temos no Brasil sofrem lavagem cerebral onde? É a própria realidade da sociedade que faz eles serem assim. Então, é nesse sentido que eu afirmo: se você quiser preparar um bom governo e um bom Exército, prepare uma boa sociedade. Eu já disse em outra entrevista que o fã clube do Ustra está no governo. Mas está também na sociedade. Quantas pessoas estão ainda por aí batendo palmas para o governo e pedindo AI-5? O Ustra cometeu absurdos como torturar mãe na frente dos filhos ainda crianças. E por que nunca foi punido? Porque a sociedade civil é fraca.

O colapso financeiro mundial e nacional no DNA da bitcoin e das moedas: a saída pelo Pacto Social, por J. Carlos Assis

“Chegamos ao fundo do poço e só há saída para cima. Ou nos juntamos no Pacto Social sem trapaças e jogos oportunistas, ou afundamos todos. Não são poucas as crises.”

Por J. Carlos Assis*

Meu querido amigo Luiz Gonzaga Belluzzo, o mais destacado e erudito economista político do país, concorda comigo em quase tudo, exceto quanto ao fato, que sustento, de que a economia mundial caminha para uma crise gigantesca. Por ser meu amigo, ele quer me proteger do desgaste público por anunciar fatos catastróficos que não se realizarão. Sou suficientemente modesto para não acreditar que tenho o dom da profecia. Isso pertence a Deus, mas infelizmente não sou Deus. Se fosse, a primeira coisa que faria seria isolar o Brasil da crise mundial que vem por aí.

Belluzzo se apoia em decisões objetivas das autoridades monetárias para controlar alguma crise econômica. Por exemplo, acha que o FED, o banco central, que está injetando rios de dinheiro na economia dos Estados Unidos e do mundo ocidental para controlar o desemprego, que ainda perdura contra as políticas emergenciais de Joe Biden, segura a barra do crescimento. Até aí estamos quase de acordo. Onde divergimos é quanto ao papel do sistema financeiro no processo. O sistema financeiro é um bicho complexo. Move-se por percepções, não por fatos e decisões.

As bolsas quebram não porque tenham algum desequilíbrio de fundo na oferta e demanda de ações, mas porque alguém, ou alguns, acham que ela vai quebrar. Para transformar suas aplicações em dinheiro vivo, essas pessoas vendem tudo que têm em ações e vão em busca de algum ativo real. Outros, percebendo que isso está acontecendo, vendem também suas ações e deixam de comprar. É o famoso efeito manada. De repente todo mundo vende e ninguém compra. E aí a bolsa quebra, inapelavelmente. Instala-se o caos financeiro, que afeta também a economia real.

Não há remédio contra isso. É um movimento estritamente subjetivo. Não entendo como Belluzzo, que não é propriamente um economista, mas um filósofo da economia, não tira daí a conclusão necessária de que sistemas financeiros quebram pela margem, e não pelo corpo principal do mundo real que apenas representam. Assim, algo tão insignificante em relação ao mercado financeiro globalizado como o universo paralelo das bitcoins, a moeda privada não garantida pelo Estado, pode desencadear um desastre de proporções catastróficas.

A bitcoin é o equivalente contemporâneo, de perfil tecnológico, de uma pirâmide financeira antiga: ganha nela quem entra primeiro e sai primeiro. O sujeito que entra paga pelo que sai. Na febre especulativa, sempre entra mais gente do que sai. Nos primeiros tempos desse mercado paralelo, é preciso que mais gente nova entre no processo para pagar as aplicações dos antigos, a preços cada vez mais altos. A percepção é de uma alta fantástica, sem limites. Aí então um ganhador desconfiado não volta ao mercado para comprar. Ninguém compra. Vem o estouro.

Até que ponto um mercado restrito como o da bitcoin pode afetar o gigantesco mercado financeiro globalizado? Basta um percepto do lado errado, e o sistema de comunicação instantâneo do mundo atual faz o resto através da internet. Ordens de venda e compra se fazem de forma imediata num terminal de computador ou de um celular. Rapidamente os mais especializados na manipulação do sistema percebem uma manifestação estranha. É inevitável o efeito manada. Como ocorre nas bolsas, a bitcoin segue um curso na direção das cinzas, inevitavelmente.

Como é uma moeda sem Estado por trás, a bitcoin não pode ser salva por bancos centrais. Se querem o livre mercado, como há décadas pregam o Consenso de Washington e o grupo do Forum Econômico Mundial, que o tenham. Mas o FED, me adverte Belluzzo, está enterrando dinheiro nos mercados – é o banco central ocidental do dólar, 70% de dinheiro do mundo -, e toda essa liquidez pode salvar sistemas institucionalizados e sistemas paralelos. Será? E os chineses gostarão disso, eles que têm trilhões de dólares enterrados em títulos norte-americanos?

Se o FED continuar inundando o mundo de dólares seu valor cairá, e os chineses, que já deram sinal disso, caem fora com seus títulos. Voltam para casa. Os europeus também não gostariam disso, porque o BCE, seu banco central controlado pelos alemães, tem horror à inflação. Também eles fugirão dos EUA. Poderá se ver, ao reverso, o que aconteceu em 1979: junto com o segundo choque do petróleo, que impôs uma recessão ao mundo, veio o choque de juros. O FED, sob a mão de ferro de Paul Volcker, quadruplicou a taxa básica de juros. Incrível, mas deu certo.

Por que deu certo? Em 1979, último ano de governo do presidente Carter, a Casa Branca estava inteiramente desmoralizada. O sequestro da Embaixada norte-americana em Teerã pelos jovens da Guarda Revolucionária se estendia por mais de 400 dias. Os mercados mundiais comandados pelos Estados Unidos estavam mergulhados em recessão e inflação. A instabilidade monetária e cambial era universal. Então, venceu o mandato do presidente do FED e colocaram em seu lugar o único funcionário público de alta credibilidade no país, Paul Volcker.

Volcker era um durão em matéria de política de combate à inflação. O livro texto liberal dizia que isso deveria ser feito mediante políticas de arrocho fiscal e aumento da taxa de juros. O ajuste fiscal não estava sob seu controle. Mas os juros estavam. Então, ele elevou a taxa básica com um choque sem precedentes. Saiu de um dígito e foi parar em 21%. Jamais acontecera isso. A taxa de aplicação dos bancos chegou a quase 30%. O Brasil, que tomara sua dívida externa a taxas flutuantes de cerca de 7%, passou a pagar extravagantes valores quatro vezes superiores.

O livro texto dizia que, num ambiente inflacionário provocado pela fraqueza do dólar perante outras moedas europeias, o aumento dos juros sugaria a liquidez internacional para os EUA. Foi exatamente o que aconteceu. À custa do aumento da recessão na Europa, provocado pela escassez de dólares, e da brutal expansão da dívida externa dos países pobres e em desenvolvimento, notadamente o Brasil, Volcker estabilizou a economia norte-americana sem fazer arrocho fiscal. Ao contrário. O carismático presidente Ronald Reagan assumiu o poder e acelerou o gasto público.

O que isso tem a ver com a situação econômica brasileira atual? Tem tudo, mas há um fator político inescapável. A inflação e sobretudo o custo de vida estão ficando fora do controle, e o Banco Central de Roberto Campos e Paulo Guedes, como manda o livro texto neoliberal, está aumentando a taxa de juros para combatê-los. Acontece que, no Brasil, não há um Reagan chegando a cavalo à Casa Branca. É Lula que se aproxima do Planalto. Para os especuladores, Guedes é uma garantia de política monetária favorável, enquanto Lula representa uma ameaça futura.

O que caracteriza a especulação é a aposta no futuro. Eis que temos uma situação econômica e política caótica, e uma perspectiva externa desfavorável. A inclinação do especulador, sobretudo quando confrontado com a total falta de credibilidade do governo, é pular fora das aplicações especulativas. A maior delas são as chamadas moedas virtuais, inauguradas pela bitcoin. É a moeda inteiramente sem lastro de metal ou de papel, e sem garantia do Estado como emissor. Essa moeda realizou o ideal do Forum Econômico Mundial: a moeda privada da globalização.

A bitcoin está explodindo no Brasil. Há poucos dias a Polícia Federal prendeu o maior especulador brasileiro em bitcoin, a quem se atribuiu um golpe de R$ 1 bilhão nos mercados interno e externo. Eis outro ponto de diferença entre mim, Belluzzo e outro economista amigo, o professor Daniel Conceição, presidente do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Ambos sustentam que, diante do porte do mercado financeiro mundial, a bitcoin, sendo uma moeda segregada, não tem potencial de, perdendo circunstancialmente valor, deflagrar uma crise financeira.

Estão enganados. Crises financeiras são desencadeadas por fatores subjetivos, não objetivos. Não é o fato em si que as deflagram, mas como outros o percebem. O que importa não é o estoque dos valores a elas referidos, mas seu fluxo. Em uma palavra: bancos e outros agentes financeiros quebram pela margem, não pelo centro. Então, poderiam dizer Belluzzo e Daniel – e, de fato, disseram – porque a notícia da fraude de R$ 1 bilhão no mercado brasileiro de bitcoin não desencadeou o efeito manada no mundo? Suspeito da razão: porque Chico Pinheiro não deixou.

Chico é um dos mais competentes e responsáveis apresentadores de telejornais do Sistema Globo, mas não é um especialista em economia. Quando um repórter lhe apresentou, quando estava no ar, a notícia de que a PF descobrira uma fraude de R$ 20 bilhões no mercado brasileiro de bitcoin, ele não acreditou. Pediu que conferisse. O repórter insistiu, mas assim mesmo Chico Pinheiro não leu a notícia. A versão apresentada foi negociada por R$ 1 bilhão. Era mais aceitável pelo público conservador da Globo. R$ 20 billhões ficaram por R$ 1 bilhão.

A Psicologia diz que pessoas comuns não conseguem conceituar valores absolutos acima de mil. Mas conseguem avaliar valores relativos. R$ 1 bilhão como valor absoluto não faz muito sentido, mas R$ 20 bilhões, ou seja, algo 20 vezes maior que R$ 1 bilhão, despertam atenção. Alguém que esteja aplicado em bitcoin não dá muita importância a um golpe de R$ 1 bilhão, mas fica assustado quando se fala em 20 vezes mais. É o dinheiro dele que está em risco. Ele o põe instantaneamente onde quiser. Na dúvida, pula fora. Outros o seguem. Eis o efeito manada.

Chico riu muito quando lhe disse que ele evitou nesta semana a débâcle dos mercados de moedas virtuais. Como são moedas sem Estados por trás, só tem valor porque alguém está disposto a comprá-las. Quando todo mundo quer vendê-las, viram pó. E como são as moedas características da especulação desenfreada nos paraísos fiscais, podem levar esses últimos na derrocada. Isso, naturalmente, não passa ao largo dos bancos sérios. Alguém que perde dinheiro na bitcoin e deve a um banco sério, pode não pagar a dívida e determinar também sua queda pela margem.

Este é o limite extremo e final da especulação financeira condenada de forma corajosa pelo Papa Francisco num documento técnico espetacular do Vaticano. É um libelo contra a imoralidade básica dos sistemas financeiros atuais. É possível segurar essa onda? Na próxima onda, é possível que não haja um sujeito tão responsável como Chico Pinheiro para segurá-la. Então, finalmente, terá chegado a hora que todos os analistas técnicos dos mercados de moedas virtuais prognosticaram: isso são pirâmides tecnológicas contemporâneas que revivem fraudes financeiras do passado.

A questão é saber o que vem depois. A crise global é inevitável, de proporções gigantescas, maiores do que a de 2007/2008. Será que um país com absoluta falta de credibilidade como o Brasil de hoje, presidido por um psicopata que quer desmontar as instituições da democracia, pode superá-la? Ora, em 2009 conseguiu. Mas era governado por um sujeito sem arestas e sem ódio, com alta credibilidade internacional, apesar de não ter muita cultura. Com auxiliares competentes, adotou a política certa: injetou dinheiro na economia e recuperou o consumo e a produção.

Agora a situação é diametralmente oposta e o presidente louco está dominado por neoliberais que acham que a situação será normalizada pelo livre mercado, sem intervenção do Estado. Na matriz neoliberal, o único instrumento de política econômica à mão de outro desequilibrado, Paulo Guedes, é a política fiscal-monetária de austeridade. A fiscal, aplicada com extremos sacrifícios para o povo durante por mais de 20 anos, jogou a economia numa estagnação permanente e à inflação de agora. Resta o choque dos juros. E isso não dará apenas inflação, mas hiperinflação.

Tivemos hiperinflação no passado, esmagando o povo, mas tolerada pela classe dominante porque a economia era indexada. Hoje, a indexação, mesmo que imposta improvavelmente por um governo neoliberal, é insuficiente. O custo de vida vai para a lua. Ou iria. Já que, diante de crises tão profundas, um governo que viria substituir a tragédia neoliberal bolsonarista ainda pode salvar a Nação. A preliminar é a imediata deposição de Bolsonaro e de Guedes. Isso tem que ser feito rápido, pois o atual desgoverno ameaça explodir o custo de vida, o desemprego e as eleições.

Será que o Congresso terá agilidade para atuar nessa velocidade? Acredito na pedagogia da crise. Colegas meus acham que exponho muito minha credibilidade porque aponto a inevitabilidade da consumação das crises particulares numa crise global. Faço isso, porém, não porque quero ser profeta. Faço porque quero dar uma contribuição ao país e ao povo para evitar o pior. O que estou propondo é um grande Pacto Social entre classes e grupos que correm riscos comuns, em vários campos, em busca de um objetivo comum, a estabilidade e a retomada da prosperidade perdida.

Entre as lideranças sociais não há grande dificuldade de conciliação quanto ao diagnóstico básico das crises e a definição de interesses comuns. A questão é enquadrar esses objetivos num nível superior de decisão. Esse é o papel do Pacto e do Congresso Nacional. A partir dele, e da intervenção efetiva de classes dominantes tradicionais, que estão fragmentadas, e classes dominadas, que sofrem conjuntamente o pior das crises, pode-se colocar pressão sobre o Congresso Nacional para que tome o poder institucionalmente, enterre o neoliberalismo e mude radicalmente a economia.

Pode parecer difícil, mas não é. Isso é um jogo dialético. Chegamos ao fundo do poço e só há saída para cima. Ou nos juntamos no Pacto Social sem trapaças e jogos oportunistas, ou afundamos todos. Não são poucas as crises. É a ambiental, a energética, a urbana, a de segurança pública, do terrorismo, que são comuns ao mundo. E a econômica, a social, a política, a do Estado, a do mercado de trabalho, que são principalmente nossas. Não há como enfrentá-las isoladamente. É preciso que haja coerência na formulação e na ação. Isso está ao alcance do Pacto Social.

*José Carlos Assis é jornalista e economista.

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