PLANO PARA ISOLAR A ECONOMIA BRASILEIRA DA TURBULÊNCIA DOS MERCADOS FINANCEIROS INTERNACIONAIS

financeira do capitalismo especulativo e predatório, e a órbita da economia real.

Por J. Carlos de Assis*

a) DIAGNÓSTICO

Estamos diante de uma situação de desequilíbrio fundamental entre a órbita financeira do capitalismo especulativo e predatório, e a órbita da economia real. É o que está na origem de toda a crise capitalista desde a tulipomania no final do século XVII, iniciada em Amsterdã, e logo estendida às outras capitais dos países mais desenvolvidos da Europa. Isso também se verificaria em crises recorrentes sucessivas, ao longo dos séculos XVIII e XIX, até desembocar na crise da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e na recente crise financeira de 2007/2008, ambas iniciadas nos EUA e estendidas às economias globalizadas.

Esse desequilíbrio fundamental só poderia ter sido evitado, a longo prazo, pela aplicação do tipo de política econômica recomendado pela teoria de Finanças Funcionais, de Abba Lerner, e, na mesma época dele, pelo gênio da Economia Política britânico, Lord Keynes. Na verdade, essa ordem é invertida. Primeiro veio a receita prática de Keynes, materializada nas políticas para retirar o mundo da Grande Depressão dos anos 30, tendo sido depois conceituada por Lerner, como prevenção de crises similares no futuro. Entretanto, querelas inúteis em torno de FF e do keynesianismo e impediram que a prevenção de Lerner fosse adotada.

Antes de Abba Lerner e de Keynes, Karl Marx, o fundador da Economia Política científica e o maior dos investigadores da natureza do capitalismo, até hoje, já havia detectado a natureza última da crise capitalista. Dividindo a economia real em dois departamentos, o Departamento I, de produção de bens de consumo, e o Departamento II, de bens de produção, Marx mostrou que a crise capitalista era oriunda de um desequilíbrio de fundo entre os dois departamentos. Mas Marx conservou, em sua teoria, elementos da Economia Clássica, que não incluía as interações da economia real com a economia financeira. Pensava que a moeda era apenas um véu transparente que recobria a economia real.

O resultado tem sido crises recorrentes do capitalismo, ao longo dos últimos três séculos, fundamentalmente iguais na essência, mas diferentes na forma, nesse caso em decorrência da velocidade de comunicação entre os mercados reais e financeiros. Na época do navio a vela, as crises viajavam pelo mundo a vela; com o navio a vapor, viajavam a vapor; já na época da energia elétrica, viajavam através de ondas elétricas de telégrafo. Hoje, na era eletrônica e da internet, são instantâneas. Daí a intensidade cada vez maior das crises, que são instantâneas, e a tremenda dificuldade do processo de sua recuperação,

que deve seguir pelo caminho lento da realidade material.

Não é. A moeda interage com a economia real e se descola dela. Na era das comunicações instantâneas, esse descolamento se aproxima de velocidade infinita. Mas ainda pode ser contido, quando há forte intervenção do Estado sobre a economia financeira. Se nada, do mundo real, pode atingir a velocidade da luz, como ensina a Física, nas proximidades dela, se não há intervenção do Estado, manifesta-se o Caos. É o que estamos vivenciando atualmente. Em 1929, sob o Presidente republicano Hoover, a economia norte-americana submergiu na crise da depressão até 1933. Já com Roosevelt, democrata, houve forte intervenção e recuperação da economia, entre 1933 e 1939.

A guerra, restaurando plenamente o lado da produção e do emprego militar em face à demanda civil real, insuficiente e deprimida por causa da depressão anterior, restaurou o equilíbrio fundamental entre oferta e demanda materiais. Com o bloqueio das comunicações no mundo, devido ao estado de beligerância, a órbita financeira ficou contida e não perturbou a restauração da economia real. Isso só seria modificado no pós-guerra, quando os EUA, impondo à Inglaterra, potência hegemônica decadente, sua própria hegemonia militar e econômica, não aceitou as sugestões de Keynes de se criar uma moeda mundial, o bancor. Este seria o instrumento monetário para assegurar, pelas contas públicas internacionais, o equilíbrio dos balanços de pagamento entre os povos e, por aí, a estabilidade econômica e financeira interna dos países.

A crise de 2007/2008 trouxe um novo paradigma nas relações internacionais, pelo menos em seu início. As duas primeiras reuniões, em Washington e em Londres, marcaram a inauguração do paradigma da cooperação no mundo. Superpôs-se ao paradigma anterior da guerra, no plano militar – superado pela dissuasão nuclear -, e pelo paradigma da concorrência predatória e ilimitada no plano econômico – se superposto pela intervenção do Estado na economia. Os líderes mundiais estabeleceram acordos de cooperação interna e com outros países para lidar com a crise. Houve um início de cooperação. Eram keynesianos.

Tudo voltou à estaca zero na reunião seguinte em Ottawa, no Canadá. Houve dissensão da Alemanha, liderando a Zona do Euro, contra os EUA, que se mantiveram, com o democrata Barak Obama, na linha intervencionista e de estímulo à continuação da retomada da economia real. A estratégia funcionou ali, mas na Europa, sob hegemonia de Angela Merkel, fiscal-monetarista durona, a economia mergulhou na estagnação em que ainda permanece. O Brasil seguiu um caminho ambíguo, com Lula. Inicialmente, acompanhou os EUA: o Governo injetou R$ 200 bilhões na economia, a partir do BNDES, em 2009. A economia teve uma recuperação espetacular de 7,5% no ano seguinte. Depois, seguiu a linha das restrições fiscais da Europa: a economia, também aqui, mergulhou na estagnação a partir de 2010, acentuada com a entrada de Dilma no poder em 2011.

O que se esperar da atual crise? Livre mercado, como quer Guedes e sua equipe de neoliberais, inclusive o presidente do BC, Roberto Campos, independente da esfera política, ou a linha intervencionista de um Getúlio Vargas, JK e Geisel, que também eu defendo, de forte intervenção no mercado e liquidação do neoliberalismo? Á luz da história, não pode haver muitas dúvidas. A questão é técnica: como conciliar a restauração do equilíbrio na economia real da oferta e da demanda, garantindo a estabilidade dos preços, com a purgação da economia financeira, adotando uma linha dura de permissão da quebra dos especuladores e a salvação dos financistas responsáveis. Disso, porém, falo amanhã.

Adianto que, também aqui, estamos na iminência de inaugurar o grande paradigma histórico da Cooperação. Caminham bem articulações para se chegar a um Pacto Social que leve a um Pacto Político que estabeleça, por sua vez, um novo marco legal de intervenção do Estado na economia, enterrando de vez a ideia do mercado absolutamente livre dos neoliberais. Como disse Marx, nenhuma etapa histórica, em geral caracterizada pela oposição radical entre correntes políticas e sociais divergentes, é superada antes que o velho esteja no ponto de cair de pobre, e o novo, pronto para assumir o seu lugar. Pergunto: nossa sociedade chegou a esse ponto? Eu mesmo respondo: creio que sim. A efetivação disso é o Pacto Social que está na iminência de ser construído.

*José Carlos Assis é jornalista e economista.

O colapso financeiro mundial e nacional no DNA da bitcoin e das moedas: a saída pelo Pacto Social, por J. Carlos Assis

“Chegamos ao fundo do poço e só há saída para cima. Ou nos juntamos no Pacto Social sem trapaças e jogos oportunistas, ou afundamos todos. Não são poucas as crises.”

Por J. Carlos Assis*

Meu querido amigo Luiz Gonzaga Belluzzo, o mais destacado e erudito economista político do país, concorda comigo em quase tudo, exceto quanto ao fato, que sustento, de que a economia mundial caminha para uma crise gigantesca. Por ser meu amigo, ele quer me proteger do desgaste público por anunciar fatos catastróficos que não se realizarão. Sou suficientemente modesto para não acreditar que tenho o dom da profecia. Isso pertence a Deus, mas infelizmente não sou Deus. Se fosse, a primeira coisa que faria seria isolar o Brasil da crise mundial que vem por aí.

Belluzzo se apoia em decisões objetivas das autoridades monetárias para controlar alguma crise econômica. Por exemplo, acha que o FED, o banco central, que está injetando rios de dinheiro na economia dos Estados Unidos e do mundo ocidental para controlar o desemprego, que ainda perdura contra as políticas emergenciais de Joe Biden, segura a barra do crescimento. Até aí estamos quase de acordo. Onde divergimos é quanto ao papel do sistema financeiro no processo. O sistema financeiro é um bicho complexo. Move-se por percepções, não por fatos e decisões.

As bolsas quebram não porque tenham algum desequilíbrio de fundo na oferta e demanda de ações, mas porque alguém, ou alguns, acham que ela vai quebrar. Para transformar suas aplicações em dinheiro vivo, essas pessoas vendem tudo que têm em ações e vão em busca de algum ativo real. Outros, percebendo que isso está acontecendo, vendem também suas ações e deixam de comprar. É o famoso efeito manada. De repente todo mundo vende e ninguém compra. E aí a bolsa quebra, inapelavelmente. Instala-se o caos financeiro, que afeta também a economia real.

Não há remédio contra isso. É um movimento estritamente subjetivo. Não entendo como Belluzzo, que não é propriamente um economista, mas um filósofo da economia, não tira daí a conclusão necessária de que sistemas financeiros quebram pela margem, e não pelo corpo principal do mundo real que apenas representam. Assim, algo tão insignificante em relação ao mercado financeiro globalizado como o universo paralelo das bitcoins, a moeda privada não garantida pelo Estado, pode desencadear um desastre de proporções catastróficas.

A bitcoin é o equivalente contemporâneo, de perfil tecnológico, de uma pirâmide financeira antiga: ganha nela quem entra primeiro e sai primeiro. O sujeito que entra paga pelo que sai. Na febre especulativa, sempre entra mais gente do que sai. Nos primeiros tempos desse mercado paralelo, é preciso que mais gente nova entre no processo para pagar as aplicações dos antigos, a preços cada vez mais altos. A percepção é de uma alta fantástica, sem limites. Aí então um ganhador desconfiado não volta ao mercado para comprar. Ninguém compra. Vem o estouro.

Até que ponto um mercado restrito como o da bitcoin pode afetar o gigantesco mercado financeiro globalizado? Basta um percepto do lado errado, e o sistema de comunicação instantâneo do mundo atual faz o resto através da internet. Ordens de venda e compra se fazem de forma imediata num terminal de computador ou de um celular. Rapidamente os mais especializados na manipulação do sistema percebem uma manifestação estranha. É inevitável o efeito manada. Como ocorre nas bolsas, a bitcoin segue um curso na direção das cinzas, inevitavelmente.

Como é uma moeda sem Estado por trás, a bitcoin não pode ser salva por bancos centrais. Se querem o livre mercado, como há décadas pregam o Consenso de Washington e o grupo do Forum Econômico Mundial, que o tenham. Mas o FED, me adverte Belluzzo, está enterrando dinheiro nos mercados – é o banco central ocidental do dólar, 70% de dinheiro do mundo -, e toda essa liquidez pode salvar sistemas institucionalizados e sistemas paralelos. Será? E os chineses gostarão disso, eles que têm trilhões de dólares enterrados em títulos norte-americanos?

Se o FED continuar inundando o mundo de dólares seu valor cairá, e os chineses, que já deram sinal disso, caem fora com seus títulos. Voltam para casa. Os europeus também não gostariam disso, porque o BCE, seu banco central controlado pelos alemães, tem horror à inflação. Também eles fugirão dos EUA. Poderá se ver, ao reverso, o que aconteceu em 1979: junto com o segundo choque do petróleo, que impôs uma recessão ao mundo, veio o choque de juros. O FED, sob a mão de ferro de Paul Volcker, quadruplicou a taxa básica de juros. Incrível, mas deu certo.

Por que deu certo? Em 1979, último ano de governo do presidente Carter, a Casa Branca estava inteiramente desmoralizada. O sequestro da Embaixada norte-americana em Teerã pelos jovens da Guarda Revolucionária se estendia por mais de 400 dias. Os mercados mundiais comandados pelos Estados Unidos estavam mergulhados em recessão e inflação. A instabilidade monetária e cambial era universal. Então, venceu o mandato do presidente do FED e colocaram em seu lugar o único funcionário público de alta credibilidade no país, Paul Volcker.

Volcker era um durão em matéria de política de combate à inflação. O livro texto liberal dizia que isso deveria ser feito mediante políticas de arrocho fiscal e aumento da taxa de juros. O ajuste fiscal não estava sob seu controle. Mas os juros estavam. Então, ele elevou a taxa básica com um choque sem precedentes. Saiu de um dígito e foi parar em 21%. Jamais acontecera isso. A taxa de aplicação dos bancos chegou a quase 30%. O Brasil, que tomara sua dívida externa a taxas flutuantes de cerca de 7%, passou a pagar extravagantes valores quatro vezes superiores.

O livro texto dizia que, num ambiente inflacionário provocado pela fraqueza do dólar perante outras moedas europeias, o aumento dos juros sugaria a liquidez internacional para os EUA. Foi exatamente o que aconteceu. À custa do aumento da recessão na Europa, provocado pela escassez de dólares, e da brutal expansão da dívida externa dos países pobres e em desenvolvimento, notadamente o Brasil, Volcker estabilizou a economia norte-americana sem fazer arrocho fiscal. Ao contrário. O carismático presidente Ronald Reagan assumiu o poder e acelerou o gasto público.

O que isso tem a ver com a situação econômica brasileira atual? Tem tudo, mas há um fator político inescapável. A inflação e sobretudo o custo de vida estão ficando fora do controle, e o Banco Central de Roberto Campos e Paulo Guedes, como manda o livro texto neoliberal, está aumentando a taxa de juros para combatê-los. Acontece que, no Brasil, não há um Reagan chegando a cavalo à Casa Branca. É Lula que se aproxima do Planalto. Para os especuladores, Guedes é uma garantia de política monetária favorável, enquanto Lula representa uma ameaça futura.

O que caracteriza a especulação é a aposta no futuro. Eis que temos uma situação econômica e política caótica, e uma perspectiva externa desfavorável. A inclinação do especulador, sobretudo quando confrontado com a total falta de credibilidade do governo, é pular fora das aplicações especulativas. A maior delas são as chamadas moedas virtuais, inauguradas pela bitcoin. É a moeda inteiramente sem lastro de metal ou de papel, e sem garantia do Estado como emissor. Essa moeda realizou o ideal do Forum Econômico Mundial: a moeda privada da globalização.

A bitcoin está explodindo no Brasil. Há poucos dias a Polícia Federal prendeu o maior especulador brasileiro em bitcoin, a quem se atribuiu um golpe de R$ 1 bilhão nos mercados interno e externo. Eis outro ponto de diferença entre mim, Belluzzo e outro economista amigo, o professor Daniel Conceição, presidente do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento. Ambos sustentam que, diante do porte do mercado financeiro mundial, a bitcoin, sendo uma moeda segregada, não tem potencial de, perdendo circunstancialmente valor, deflagrar uma crise financeira.

Estão enganados. Crises financeiras são desencadeadas por fatores subjetivos, não objetivos. Não é o fato em si que as deflagram, mas como outros o percebem. O que importa não é o estoque dos valores a elas referidos, mas seu fluxo. Em uma palavra: bancos e outros agentes financeiros quebram pela margem, não pelo centro. Então, poderiam dizer Belluzzo e Daniel – e, de fato, disseram – porque a notícia da fraude de R$ 1 bilhão no mercado brasileiro de bitcoin não desencadeou o efeito manada no mundo? Suspeito da razão: porque Chico Pinheiro não deixou.

Chico é um dos mais competentes e responsáveis apresentadores de telejornais do Sistema Globo, mas não é um especialista em economia. Quando um repórter lhe apresentou, quando estava no ar, a notícia de que a PF descobrira uma fraude de R$ 20 bilhões no mercado brasileiro de bitcoin, ele não acreditou. Pediu que conferisse. O repórter insistiu, mas assim mesmo Chico Pinheiro não leu a notícia. A versão apresentada foi negociada por R$ 1 bilhão. Era mais aceitável pelo público conservador da Globo. R$ 20 billhões ficaram por R$ 1 bilhão.

A Psicologia diz que pessoas comuns não conseguem conceituar valores absolutos acima de mil. Mas conseguem avaliar valores relativos. R$ 1 bilhão como valor absoluto não faz muito sentido, mas R$ 20 bilhões, ou seja, algo 20 vezes maior que R$ 1 bilhão, despertam atenção. Alguém que esteja aplicado em bitcoin não dá muita importância a um golpe de R$ 1 bilhão, mas fica assustado quando se fala em 20 vezes mais. É o dinheiro dele que está em risco. Ele o põe instantaneamente onde quiser. Na dúvida, pula fora. Outros o seguem. Eis o efeito manada.

Chico riu muito quando lhe disse que ele evitou nesta semana a débâcle dos mercados de moedas virtuais. Como são moedas sem Estados por trás, só tem valor porque alguém está disposto a comprá-las. Quando todo mundo quer vendê-las, viram pó. E como são as moedas características da especulação desenfreada nos paraísos fiscais, podem levar esses últimos na derrocada. Isso, naturalmente, não passa ao largo dos bancos sérios. Alguém que perde dinheiro na bitcoin e deve a um banco sério, pode não pagar a dívida e determinar também sua queda pela margem.

Este é o limite extremo e final da especulação financeira condenada de forma corajosa pelo Papa Francisco num documento técnico espetacular do Vaticano. É um libelo contra a imoralidade básica dos sistemas financeiros atuais. É possível segurar essa onda? Na próxima onda, é possível que não haja um sujeito tão responsável como Chico Pinheiro para segurá-la. Então, finalmente, terá chegado a hora que todos os analistas técnicos dos mercados de moedas virtuais prognosticaram: isso são pirâmides tecnológicas contemporâneas que revivem fraudes financeiras do passado.

A questão é saber o que vem depois. A crise global é inevitável, de proporções gigantescas, maiores do que a de 2007/2008. Será que um país com absoluta falta de credibilidade como o Brasil de hoje, presidido por um psicopata que quer desmontar as instituições da democracia, pode superá-la? Ora, em 2009 conseguiu. Mas era governado por um sujeito sem arestas e sem ódio, com alta credibilidade internacional, apesar de não ter muita cultura. Com auxiliares competentes, adotou a política certa: injetou dinheiro na economia e recuperou o consumo e a produção.

Agora a situação é diametralmente oposta e o presidente louco está dominado por neoliberais que acham que a situação será normalizada pelo livre mercado, sem intervenção do Estado. Na matriz neoliberal, o único instrumento de política econômica à mão de outro desequilibrado, Paulo Guedes, é a política fiscal-monetária de austeridade. A fiscal, aplicada com extremos sacrifícios para o povo durante por mais de 20 anos, jogou a economia numa estagnação permanente e à inflação de agora. Resta o choque dos juros. E isso não dará apenas inflação, mas hiperinflação.

Tivemos hiperinflação no passado, esmagando o povo, mas tolerada pela classe dominante porque a economia era indexada. Hoje, a indexação, mesmo que imposta improvavelmente por um governo neoliberal, é insuficiente. O custo de vida vai para a lua. Ou iria. Já que, diante de crises tão profundas, um governo que viria substituir a tragédia neoliberal bolsonarista ainda pode salvar a Nação. A preliminar é a imediata deposição de Bolsonaro e de Guedes. Isso tem que ser feito rápido, pois o atual desgoverno ameaça explodir o custo de vida, o desemprego e as eleições.

Será que o Congresso terá agilidade para atuar nessa velocidade? Acredito na pedagogia da crise. Colegas meus acham que exponho muito minha credibilidade porque aponto a inevitabilidade da consumação das crises particulares numa crise global. Faço isso, porém, não porque quero ser profeta. Faço porque quero dar uma contribuição ao país e ao povo para evitar o pior. O que estou propondo é um grande Pacto Social entre classes e grupos que correm riscos comuns, em vários campos, em busca de um objetivo comum, a estabilidade e a retomada da prosperidade perdida.

Entre as lideranças sociais não há grande dificuldade de conciliação quanto ao diagnóstico básico das crises e a definição de interesses comuns. A questão é enquadrar esses objetivos num nível superior de decisão. Esse é o papel do Pacto e do Congresso Nacional. A partir dele, e da intervenção efetiva de classes dominantes tradicionais, que estão fragmentadas, e classes dominadas, que sofrem conjuntamente o pior das crises, pode-se colocar pressão sobre o Congresso Nacional para que tome o poder institucionalmente, enterre o neoliberalismo e mude radicalmente a economia.

Pode parecer difícil, mas não é. Isso é um jogo dialético. Chegamos ao fundo do poço e só há saída para cima. Ou nos juntamos no Pacto Social sem trapaças e jogos oportunistas, ou afundamos todos. Não são poucas as crises. É a ambiental, a energética, a urbana, a de segurança pública, do terrorismo, que são comuns ao mundo. E a econômica, a social, a política, a do Estado, a do mercado de trabalho, que são principalmente nossas. Não há como enfrentá-las isoladamente. É preciso que haja coerência na formulação e na ação. Isso está ao alcance do Pacto Social.

*José Carlos Assis é jornalista e economista.

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