O torturador Ostrovski e o passado que assusta a neta, por Marcelo Auler

Marcelo Auler

A defesa da honra é um direto constitucional de todos os cidadãos. Recorrer à Justiça contra aqueles que lhe destratam, além de ser legal, é compreensível. O inusitado, porém, é se deixar passar três décadas – na realidade, 34 anos – para se discutir na Justiça uma acusação que se considera injusta. Desonrosa. Tal e qual acontece agora com o advogado paranaense Mario Espedito Ostrovski, que desde 1985 é apontado, em documentos oficiais, como “torturador” na ditadura civil-militar que se impôs ao país entre 1964-1985.

No último dia 25 de setembro, Ostrovski ingressou no 2º Juizado Especial Cível de Foz de Iguaçu (PR) – Processo 0028970-35.2019.8.16.0030 – com uma ação de indenização por danos morais, contra o jornalista Aluízio Palmar e o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu. Cobra uma indenização no valor máximo permitido em Juizados Especiais, R$ 39.920,00.

Foi à Justiça por conta de uma publicação no Facebook da entidade de defesa dos direitos humanos, em junho passado (reprodução ao lado), relatando um fato ocorrido seis anos antes: o chamado escracho promovido por militantes do CDHMP na frente do prédio onde o torturador no passado e hoje advogado trabalha. Na inicial da ação judicial, seu advogado, Ary de Souza Oliveira Jr, alega:

Pois bem, em data de 29 de junho de 2019, o requerente recebeu uma ligação de sua neta (adolescente de 15 anos, estudante na cidade de Foz do Iguaçu, e como todo adolescente, conectada às redes sociais) informando que na rede social FACEBOOK havia uma publicação com palavras ofensivas e que a mesma estava muito assustada e com medo diante do que estava vendo perante a rede social, inclusive porque seus amigos de escola estavam perguntado e questionando se tal pessoa MARIO ESPEDITO OSTROVSKI era seu parente, em razão do sobrenome e por óbvio não ser um sobrenome comum”. E continua: “Ainda ao longo deste dia, vários clientes lhe telefonaram, bem como amigos informando a situação que havia sido exposto e ainda querendo explicações se havia o autor sido condenado criminalmente por essas barbáries relatadas no post.”

Será que a neta conhecia o passado do avô?

Mario Espedito Ostrovski. Foto: secretaria Justiça Trabalho e DH PR

Um argumento surreal. Até porque, como se constata da simples leitura, a publicação do Facebook não apresenta nenhuma “palavra ofensiva” que justificasse uma jovem de 15 anos ficar “assustada e com medo diante do que estava vendo”. Não há ofensa, mas relato de fatos.

Relatos que se encaixam perfeitamente bem dentro do direito constitucional de todos à Liberdade de Expressão. Uma velha discussão entre o direito coletivo e o direito individual à preservação de uma imagem. Imagem, no caso, suja por atos criminosos de um passado que o próprio escolheu abraçar. Não por outro motivo, a Associação Brasileira de Imprensa – ABI já se solidarizou com Palmar.

Pela versão do advogado e do “requerente” é possível deduzir, a ser verdadeiro o argumento, que a suposta neta de Ostrovski deve ter se assustado não com o relato do “escracho”, ocorrido quando ela tinha apenas 9 anos. Muito provavelmente horrorizou-se com o passado do avô. Será que ela o desconhecia?

CONTINUE LENDO EM MARCELO AULER – REPÓRTER.

Um homem chamado rabino. Um cordel para Henry Sobel.

Cordel da Ordem dos Direitos Humanos
Para dizer ao Presidente Miliciano que o Cordel não só conhece História como é a própria História

Cordel da Ordem dos Direitos Humanos
Para dizer ao Presidente Miliciano que o Cordel não só conhece História como é a própria História

Henry Sobel

Um Homem Chamado Rabino
Que denunciou a morte, sob tortura, de Vladimir Herzog, o saudoso Vlado

Henry Sobel, de estola branca, no enterro de Vladimir Herzog.

Na segunda ditadura
O Brasil vivenciou
Estatito da Tortura
Linha dura imperou
Muita gente exilada
Perseguida, assassinada
Um judeu se levantou

O judeu dos mais valentes
Do Direito um defensor
Totalmente diferente
De quem propaga horror
Henry Sobel era Rabino
Que ao povo Palestino
Sempre foi respeitador

Quando o jornalista Vlado
Teve preso no porão
De tanto ser torturado
Na Cadeira do Dragão
Amarrado, encapuzado
Molhado, eletrocutado
Veio a óbito, então

O Estado bandoleiro
Disse que Vlado judeu
Na ala dos prisioneiros
O suicídio cometeu
Mas no corpo do ativista
Marcas que davam na vista
Diziam o que ocorreu

Rabino Israelita
Profeta do Deus Eu Sou
Disse com sua voz bendita:
Vlado não se suicidou
Ao contrário, foi matado
Cruelmente torturado
Tanta dor não suportou

No velório, tal Rabino
Sim, fez dura acusação
Contra regime cretino
Tomou firme posição
Fez denuncia ao mundo inteiro
Do Estado Brasileiro
Que matava cidadão

Junto com Dom Evaristo
O Profeta Cardeal
Em nome do próprio Cristo
Fez Culto na Catedral
Em memória do ativista
Suicidado por fascista
Regime policial

Quem peitou a ditadura
Denunciando o terror
Soube honrar a Escritura
E seu Deus Libertador
Como profeta ousado
Recusou-se ser calado
Diante do opressor

Em tempos milicianos
Este ardente defensor
Dos Direitos Humanos
Contra o ódio de impostor
Fará falta na trincheira
Onde gente brasileira
Não dá trégua a ditador

Fará falta este Rabino
Nas trincheiras do atuar
Contra um Coiso assassino
Que satã fez levantar
Este satanista coiso
Com grupo religioso
Faz arminha pra matar

Quem peitou a ditadura
Assassina contumaz
Por seus atos de bravura
Na coragem tão audaz
Henry Sobel merecia
Pra alegria da Poesia
O Prêmio Nobel da Paz

Henry Sobel vai simbora
Pros rumos dos imortais
Lá pra donde hoje mora
Vlado dos memoriais
Foi simbora o Rabino
Com seu gesto tão divino
De lampejos pastorais

Jetro Cabano Fagundes
Farinheiro do Marajó e de Ananin

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