O “D” de PSDB quer dizer o quê?

JS: “Você sabe?” Dilma: “Acho que é Desespero”
Ah, sim, o DEM também quer dizer o mesmo… É tudo uma questão do sentido que se dá à palavra.

Por Ana Helena Tavares em 03 de Setembro de 2010

JS, por méritos visíveis, ganhou de muitos o apelido de “vampiro anêmico”. Dizem que os vampiros moram na Transilvânia. Deve ser, porque no Brasil eu tenho certeza que ele não mora. Já morou, antes de perder a identidade.
Hoje é de tão triste figura que não percebe que perdeu o viço. Falta-lhe a coerência de Dilma, que é o que sempre foi; falta-lhe o vigor de Plínio Arruda Sampaio, 12 anos mais velho em idade cronológica e tão mais novo em ideais; falta-lhe até mesmo a classe de Marina que, guardadas as inversões de sentido, não se presta a ataques baratos.
O que é neoliberalismo?
Uma classe que muitos desfilam pelos quadros da Sorbonne, mas raros são os que saem de lá para aplicá-la nas ruas. Deve ter sido lindo, para os alunos do guru que JS renega, aprenderem nas cadeiras da sacrossanta universidade parisiense os ensinamentos de Marx e, anos mais tarde, em 2002, ao final do governo neoliberal de FHC aqui no Brasil, ouvirem dele: “Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação de diferenças sociais.” (declaração dada ao “Financial Times”).
Vejam como é variável a interpretação de neoliberalismo nas mentes dos “escolhidos”. Acho que ele queria que a gente risse, mas nem por isso.
O “D” da questão
Aí vem JS, o discípulo ingrato, acusar o PT disso, daquilo e daquilo outro… Pra que provas se o único interesse é tumultuar a democracia?! Curioso. O “D” de PSDB quer dizer o quê?! Ah, sim, o DEM também quer dizer o mesmo… É tudo uma questão do sentido que se dá à palavra.
Já não está mais aqui o velho timoneiro que também criou um partido com “D” na sigla e dava a essa letrinha o seguinte sentido: “A grande força da democracia é confessar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes.” (Ulysses Guimarães)
O jogo de esconde-esconde
Se já nenhum ser humano é infalível, imaginem no jogo político, reforçado pela numerosa parcela medíocre da imprensa que se vende a ele, onde há palanques até embaixo de tapetes. Não há altares de pureza. De limpa já basta a raça com que Hitler sonhava. É um jogo de causar inveja ao mais maquiavélico jogador de pôquer. Roberto Marinho entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel.
JS, aluno tardio e arredio, não aprendeu grande coisa, mas o suficiente para conhecer os tortuosos túneis da política. Ou seriam “passagens secretas”? Aquelas dos “alguéns” a esconder.
Uma sede de poder vazia de sustentação. Uma eterna ânsia de tapetão.
O que é golpe?
E disso os tucanos entendem. Como foi mesmo que FHC conseguiu o apoio da maioria dos deputados para a aprovação de sua reeleição em 98, sem uma consultazinha popular sequer? Ah, já sei, só pode ser porque distribuía balas no Congresso no dia de São Cosme e Damião. E a imprensa o que disse? Ah, sim, tudo muito normal.
Mas, quando se cogitou que Lula consultasse a população sobre a possibilidade de um 3º mandato, aí é golpe. Porque golpe é outra palavra muito dúbia… Principalmente, para a elite, que a interpreta por detrás de seus vidros fumê. De onde não ouve o povo. Nem o vê.
A grandeza de se reconhecer a derrota
Por que nossa última Constituinte foi um movimento tão progressista? Porque é preciso reconhecer-se imperfeito para avançar. É preciso reconhecer-se derrotado para começar de novo. E quando JS reconhecerá que foi derrotado? Não por Dilma, nem por Lula, nem pelo PT, mas por seu próprio partido, por seus próprios aliados e, pior que isso, por si próprio. Conseguirá um dia ter tamanho gesto de grandeza em meio à miudeza de pensamento que o ronda? Difícil.
O que o PSDB fez ao pedir a cassação do registro de Dilma, quando ela conta com mais de 50% dos votos, senão a irresponsabilidade extrema de tentar se autopromover na marra como onipotente, “cavalo puro sangue”, achando (ingenuamente) que aniquilaria a concorrência? A rejeição deles é tamanha que possivelmente a Marina ganharia, mas, antes disso, não tenho dúvida de que o povo não toleraria um novo 64: sairia às ruas e o jogo ficaria de fato pesado.
Pra que ver cabelo em ovo?
Na quarta, 01 de Setembro, seis homens armados assaltaram o comitê central do PT em Mauá (SP). Onde? Sim, no mesmo município da badalada quebra de sigilo.
O presidente da Câmara de Vereadores de Mauá, Rogério Santana (PT), pronunciou-se sobre o assunto. Poderia ter devolvido na mesma moeda as levianas e desesperadas (é com “D”…) acusações tucanas, mas não o fez. Sem provas de conotação política não há porque levar para esse lado. Isso só levaria o cenário eleitoral a uma maior truculência. Mas, opa, é bom cuidado: sabe-se lá o que quer dizer truculência…
O que é truculência?
Uma pista… Na edição de 30 de Agosto, a revista Época publicou uma entrevista com o engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros, ligado ao PSDB e um dos alvos da quebra de sigilo ocorrida nas dependências da Receita Federal. Ele diz: “Esse tipo de ação é tão truculento, tão medíocre e limitado que certamente vem de pessoas com menos sofisticação política do que o núcleo central do governo. Que vantagem eles teriam? Mas sabemos que, dentro do todo político do governo Lula e, agora, da campanha da ex-ministra Dilma, existe um grupo mais truculento mesmo.”
É muito engraçada a ambiguidade que as palavras ganham no bico tucano… Na mesma entrevista, é possível encontrar o seguinte absurdo: “quebra de sigilo fiscal guarda a mesma proporção que uma tortura física praticada pela polícia e pelo exército porque se trata de direitos constitucionais do cidadão” (declaração que só pode mesmo vir de quem estava nadando em dinheiro e voando em céu de brigadeiro durante a ditadura).
Refrescando a memória
Daí, pergunto: será que o escândalo do grampo – que levou “Mendonção” (como é conhecido), então presidente do BNDES, ao banco dos réus em ação de improbidade administrativa, e que comprovadamente ocorreu com a condescendência do então Presidente da República, FHC, que também aparece nas gravações – não foi então uma ação truculenta, já que se tratou de quebra de sigilo telefônico com o intuito mesquinho de favorecer empresas no leilão de privatização da Telebras? Não estavam em jogo “direitos constitucionais do cidadão”? Ou seria “sofisticação política”?
Legítimo representante da privataria, “Mendonção” foi ainda processado pelo Ministério Público pela concessão irregular de empréstimos para a privatização da Eletropaulo. A memória da maioria dos leitores é curta, por isso é bom relembrar essas coisas como exemplo do descaramento tucano, nitidamente expresso no vocabulário.
Ai, que saudade do outro “D”
Certa vez, “monsiêr FHCÊ”, o príncipe renegado, chegou ao ponto de soltar uma das declarações mais levianas que já ouvi – “Ai, que saudade do governo militar, onde eu podia falar”. JS também é saudoso da época em que era José Serra. Que época mesmo? Começa com “D”…

Ana Helena Tavares, jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz. Editora-chefe do blog “Quem tem medo do Lula?”

A transfiguração da democracia

E vejo o sentido dessa democracia, conseguida a tão duras pedras, ser transfigurado pelo pensamento retrógrado dos pouquíssimos clãs que detêm o poder sobre nossa mídia. O que gera a pior das ameaças que pode existir – a que vem escondida por um belo tapete.
Por Ana Helena Tavares (*)

Um ataque que abalou o Brasil no conluio da direita militar contra a abertura política completa hoje (27 de Agosto de 2010) exatos 30 anos. O advogado e professor Luiz Felippe Monteiro Dias, filho de Lyda Monteiro, vítima fatal ao atentado à OAB, em 27 de Agosto de 1980, tem vindo a público para lembrar que aquele crime não pode ficar até hoje impune. Aquele como tantos outros.

Hoje ele estará às 13:40, hora do atentado, na antiga sede da OAB para um ato em memória de sua mãe. Em 26 de Agosto de 2009, quando o atentado estava em véspera de completar 29 anos, ele declarou ao hoje agonizante Jornal do Brasil: “nosso país tem uma tradição política de barganhar a história. Mas não pode continuar jogando o lixo para debaixo do tapete”.
Concordo plenamente.
A democracia está em que todos possam ter acesso à sujeira de ambos os lados. Um regime democrático não pode permitir que sua história, suja ou limpa, seja encoberta pelos tapetes do esquecimento. Não é possível avançar assim.
Aqueles foram anos pautados pela dureza, uma pauta encapuzada, protegida pelos setores conservadores e reacionários, que crêem na mão pesada como saída. Havendo ou não punição aos algozes, é imprescindível que as novas gerações tenham acesso aos arquivos daquele período, que tenham direito ao contraditório, tantas vezes negado por nossa “grande” imprensa. Enfim, que tenham o direito de pisar sobre chão descoberto.
Tapetes são ótimos para se tropeçar.
No entanto, nosso país saiu da ditadura a qual se viam os capuzes para mergulhar em anos de uma hipocrisia perigosa. Uma hipocrisia compactuada pela parcela podre da mídia, saudosa dos anos de repressão em que se acreditavam mais felizes.
Saber-se sob controle exerce estranho fascínio, mesmo em mentes das mais instruídas, vai entender. Isso sem falar naqueles fascinados por exercê-lo.
Um fascínio que se mantém na velha política dos coronéis. Nosso “digníssimo” ex-presidente do STF foi acusado publicamente – e de forma enfática – por seu mais bravo colega de toga, de andar ciceroneado por capangas. Nosso “digníssimo” presidente do Senado, dono do Maranhão, tem o hábito de colocar seguranças armados para receber equipes de reportagem com truculência. Temos um “digníssimo” ex-presidente da República, dono de Alagoas, que anda chamando repórter de “filho da puta” e, sem a necessidade de jagunços, ameaça, ele mesmo, “meter a mão na cara”.
Capangas, seguranças armados, jagunços, valentões… Estão longe do charme de um 007, mas os desafie de verdade e tenho certeza de que, assim como o agente secreto da rainha inglesa, eles também “têm licença para matar”.
Observem, por exemplo, que, para os donos da mídia, o MST é terrorismo, mas os capangas e jagunços rurais que matam trabalhadores a sangue frio podem ficar impunes. Assim como quem os paga se julga com “licença” para ludibriar constantemente o povo e sente-se livre de penalidades. Ou pior, acima delas.
É, portanto, um constante jogo de aparências que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes. Mas lá estão eles. Os de hoje, com outros métodos, e os de ontem, escondidos do público, caminhando impunes pelas ruas desse Brasil, depois de pagarem com a morte o idealismo de tantos brasileiros.
Eu não vivi aquela época. Nasci bem no finalzinho do exato ano em que Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva e, até mesmo, um FHC bem diferente do que ocupou o Planalto – ou o Ex-FHC, já que agora isso tá na moda… – subiam juntos a palanques para gritar que as eleições tinham que ser diretas e tinham que ser já! Ou seja, cheguei a esse mundo doido e a esse Brasil de tantas contradições, ganhando de presente de boas-vindas a democracia.
Pena que hoje nosso sistema judiciário esteja entregue a pessoas que se julgam donos do mundo. Há quem se salve, claro, sempre há. Mas, em todas as esferas do poder, falsos paladinos da liberdade e da moralidade proliferam-se mais que cupim.
E vejo o sentido dessa democracia, conseguida a tão duras pedras, ser transfigurado pelo pensamento retrógrado dos pouquíssimos clãs que detêm o poder sobre nossa mídia. O que gera a pior das ameaças que pode existir – a que vem escondida por um belo tapete.
Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz.
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