TV – As duas faces dessa moeda

O processo de vulgarização da TV em contraste com sua contribuição ao progresso da humanidade

A luta por altos níveis de IBOPE tem levado muitos canais de TV a conseguir níveis estratosféricos de vulgaridade e sensacionalismo. Gastam-se horas e horas com uma programação apoiada na máxima de que o povo adora uma boa baixaria e muitos programas, inclusive na área jornalística, parecem apostar insistentemente na violência como sinônimo de audiência.

Os poderosos da televisão não podem, porém, se esquecer de que o povo, principalmente o brasileiro, é extremamente inconstante e boa parte dele parece já estar se cansando de tanta apelação.

Não fosse o forte poder persuasivo que a mídia televisiva ainda exerce sobre as mais diversas camadas sociais, os legítimos representantes do que se pode chamar de “cultura da apelação sexual” dificilmente teriam grande ascensão, tão meteórica quanto infundada. Para comprovar o quanto a falta de talento e originalidade cansa, basta observar o que costuma acontecer a homens e mulheres que têm sua fama sustentada apenas por seus corpos “sarados” ou seu rebolado sensual: já surgem condenados ao esquecimento sem sequer terem chegado a sentir o real sabor do sucesso.

Ganhar fama é uma das coisas mais fáceis da vida, ter sucesso é conseguir mantê-la.

No entanto, para além de servir a essa eterna busca pela fama, o sensacionalismo pode também ser cruel… No que diz respeito a programas jornalísticos, não há momento em que fique mais evidente a perversidade sensacionalística do que na cobertura de crimes hediondos. A pobreza criativa e o desrespeito às vidas envolvidas no caso geralmente são de tal ordem que cabe perguntar para que se gasta tanto papel e tinta com manuais de ética. Até porque se na emissora líder há muitos anos eles já viraram peça de museu fica difícil convencer as outras de que ética e audiência podem caminhar juntas.

Mas, se a ética estiver junto a ilustres companheiros, como a criatividade e o talento, ela pode sim atrair o gosto popular. Quem diz que para agradar ao povo só basta mesmo uma boa baixaria nada mais faz do que se esconder atrás da falta de habilidade para produzir coisas melhores. Pois é, comodismo também produz sensacionalismo.

Por outro lado, analisemos a face positiva dessa moeda.

Aquela que já recebeu apelidos como “babá eletrônica” e “janela para o mundo” é, antes de tudo, um poderoso veículo de comunicação, que há muito tempo faz parte de nossa vida e não se pode negar que seja de alguma forma benéfica ao povo. Contribui para o progresso humano a partir do momento em que inúmeras pessoas que não têm acesso a outros meios de comunicação (e mesmo as que têm), são beneficiadas pelas informações e pelos bons programas que ainda conseguem sobreviver. Pena que, apesar e por causa de conhecerem todo esse poder que têm em mãos, as atenções da maioria dos profissionais da área parecem estar voltadas para incentivar ainda mais o consumismo…

Contudo, como todo bom brasileiro, não desisto nunca de ter esperança e insisto em acreditar que um dia toda essa vasta gama de informação e cultura que a TV tem o potencial de levar ao povo, ao invés de nos fazer perder valores, poderá servir para nos tornar um pouco mais cultos e informados. Talvez assim compreendamos que muitos dos problemas de que nos queixamos não são nada se comparados a tantas mazelas espalhadas pelo mundo e aí, quem sabe, possamos também dar o devido valor ao nosso país.

Mas isso, amigos, é apenas um sonho de uma jovem idealista… E tenho minhas dúvidas se sonhos dão IBOPE…

18 de abril de 2008,

Ana Helena Ribeiro Tavares

Projeto Genoma deve aprender a driblar o preconceito

Seis anos depois de escrevê-lo, é com grande orgulho que dedico este artigo à Karinne Siqueira, minha amiga SEN-SA-CI-O-NAL que conseguiu a façanha de conciliar as “novelas da Glorinha” com a faculdade de filosofia… e com especialização em bioética… (te mete! rsrs)

Sempre se soube que o preconceito racial nasceu da intolerância humana, mas agora que, graças ao projeto genoma, a ciência pôde comprovar que o conceito de raça não tem embasamento genético, isso ficou muito mais claro, tornando ainda mais deplorável qualquer tipo de preconceito. A verdade é que todos nós – ricos e pobres, brancos e negros, judeus e palestinos – fazemos parte de uma só raça, maravilhosamente diversificada: a raça humana.

Entretanto, apesar de ter conseguido mostrar que os homens têm entre si muito mais semelhanças do que diferenças, o projeto traz também uma inovação que, por ironia do destino, pode tornar ainda maior a discriminação entre os homens. É provável que daqui a algum tempo seja possível determinar, ainda na barriga da mãe, as características de um ser humano, podendo-se, assim, “montar” um filho idealizado segundo a visão de seus pais. Isso pode trazer sérias conseqüências, pois a grande maioria das pessoas não vai querer ter um filho de mentalidade mediana e fora dos padrões de beleza, podendo ter em casa grandes gênios e beldades. Parece óbvio que aqueles que não puderem ter acesso a essa tecnologia ou não fizerem parte dessa geração de superbebês passarão a ser discriminados. Estaríamos entrando num nazismo disfarçado…

Sem contar que fazer com que o ser humano já nasça perfeito seria criar super-homens para condená-los a viver limitados pela própria perfeição.

E há ainda outra questão levantada pela possibilidade de que, com toda essa evolução na engenharia genética, se consiga prolongar cada vez mais o tempo de vida do homem: será que o planeta Terra terá condições de absorver de forma razoável o iminente aumento da população mundial? Não só do ponto de vista ecológico, como também pelo prisma social, parece-me que a resposta é não… Afinal, de nada adianta fazer com que o homem viva mais se não forem criados recursos para que ele tenha uma boa qualidade de vida. Até porque, um aumento desordenado da população do planeta, só virá aumentar ainda mais a exclusão social e o abismo entre ricos e pobres. Corremos, então, o risco de assistir a um cada vez mais impetuoso darwinismo social – em que o mais poderoso critério de seleção seja o dinheiro.

Além disso, ao modelar as características que terá uma pessoa, como se ela fizesse parte de uma linha de montagem ou, então, ao criar cópias perfeitas de um ser humano, a ciência, querendo brincar de Deus, estará, paradoxalmente, abrindo mão da diversidade humana que tanto preza e que faz do homem a obra prima da criação. Seria coisificar o homem, negando-lhe sua essência individual.

Prefiro, portanto, pensar no projeto genoma, a princípio, como a prova definitiva de que a raça humana é só uma, tão única quanto fascinante. Certamente não será isso que fará com que, de uma hora para outra, a humanidade passe a conviver em harmonia, mas se fizer com que as pessoas ao menos reflitam sobre os benefícios dessa convivência, sem dúvida já será um grande começo.

Ana Helena Ribeiro Tavares,

(primeiro artigo meu publicado em jornal, nos jornais “O Globo” e “Extra”, caderno Cidadão do Futuro, edição de 22 de Junho de 2002)

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