Na ponta do canhão, uma flor

Por Ana Helena Tavares Portugal é conhecido como “o jardim da Europa”. Se o homem usasse sempre as flores como únicas armas, a Terra poderia ser o jardim do universo.

Hoje, 25 de Abril de 2011, completam-se 37 anos da Revolução dos Cravos, em Portugal. Sou filha e neta de portugueses, e isto pra mim tem um grande significado, como o tem também para todos os cidadãos do mundo que lutam por democracia. A revolução livrou Portugal da ditadura de Salazar e foi marcada pelo gesto de vários soldados de colocarem cravos na ponta das armas. Na foto acima, a flor não é exatamente um cravo, mas esse é um enfeite que tenho no meu quarto. O canhão não veio com a flor, mas como eu o trouxe de Portugal tive a idéia de colocar uma lá. Portugal é conhecido como “o jardim da Europa”. Se o homem usasse sempre as flores como únicas armas, a Terra poderia ser o jardim do universo.

Ana Helena Tavares

Dr. Ulysses e o coro dos despeitados

Por Ana Helena Tavares Enquanto o mar abriga o corpo daquele que tinha “ódio e nojo à ditadura”, a terra continua sendo “arena” para o coro dos despeitados. Aqueles que não têm luz própria.

Por Ana Helena Tavares

Nunca escondi minha profunda admiração pela figura de Ulysses Guimarães. Timoneiro da democracia, homem de peito estufado que não tinha medo de romper cercos (como se pode ver pela sequência de fotos neste artigo, retiradas do livro “Rompendo o cerco”, de autoria dele). Para quem a política era “irmã do caráter e hóspede do coração”. Ou seja, se confunde com a vida.

Não foi à toa que o mar lhe concedeu a honra de lhe servir de túmulo. Não é para qualquer um.

Mas, enquanto o mar abriga o corpo daquele que tinha “ódio e nojo à ditadura”, a terra continua sendo “arena” para o coro dos despeitados. Aqueles que não têm luz própria.

José Sarney, homem abrigado pela Academia, porém desprezado pelo povo, resolveu escrever um livro-biografia, onde teve a grande idéia de publicar um diário escrito em 1989. Coisa linda.

No tal diário, Sarney anotou sobre Lula: “É a velharia ideológica. O partido marxista, sectário e caribenho. É um anacronismo. Sua sedução permanente é a Sierra Maestra”.

Acho que é desnecessário que eu diga aqui quem eu considero a “velharia ideológica”. Quanto ao resto, não merece comentários, pois os dois governos de Lula foram a melhor resposta.

Mas vamos ao motivo deste texto. Acordei hoje (quarta, 20 de Abril) e resolvi abrir o jornal “O Globo”, coisa que raras vezes tenho estômago para fazer logo de manhã. Lá, me deparei com uma pequena matéria dizendo que o senador Pedro Simon tinha ido à tribuna exigir que Sarney peça desculpas à filha de Ulysses Guimarães.

Ocorre que, naquele mesmo diário, Sarney definiu o Dr. Ulysses da seguinte maneira: “Não tem grandeza nem espírito público. É um político menor, que tem o gosto da arte política, puro gosto do jogo, sem nada mais”.

Aí não dá. Quem, desde a época em que estava em trincheiras opostas às de Ulysses Guimarães, vem flanando “ao gosto do jogo”, dos interesses, “sem nada mais”?

“Não tem grandeza nem espírito público. É um político menor”?! Difícil acreditar que a inveja humana chegue a tão baixo nível.

Leonel Brizola, exilado e sem papas na língua, chamou o MDB de “partido do sim-senhor”. Claro. Não havia outro modo de se permanecer com um partido ativo no Brasil numa ditadura.

Mas o que o fundador do MDB fez foi muito. Tem na história lugar mítico, como também tem o fundador do PDT. Lugares diametralmente opostos ao de um reles ex-UDN, ex-Arena, que se fez coronel pela força e que jamais chegaria à presidência e, consequentemente, não teria se perpetuado por tanto tempo no poder, se não fosse o talento político de quem ele ataca.

“Ulysses, como presidente da Câmara, renunciou ao direito de assumir, e Sarney deveria ser grato, pois foi ele quem coordenou tudo para que Sarney assumisse a presidência do país, em meio à doença de Tancredo”, disse Pedro Simon em discurso recente no Plenário do Senado.

Vejam que Sarney precisou de uma renúncia e de uma morte, pois o povo jamais o colocaria no Planalto. O ódio dele é saber disso.

E Simon disse ainda: “Tenho certeza de que Sarney não vai deixar dentro de sua biografia uma frase como essa, uma frase menor”.

Não me agrada concordar com Pedro Simon – certa vez, escrevi um artigo dizendo que ele, lá no Sul, é tão coronel quanto Sarney no Maranhão, e repito, além de ser um exímio caçador de holofotes. Porém, nenhum ser humano é monolítico.

Sarney não deixa de ter razão quando sugere que a política é “um jogo”. Só que toda a diferença está no jogador. É possível ser Luís Inácio Lula da Silva, é possível ser Ulysses Guimarães. Mas há quem prefira ser Pedro Simon, há quem prefira ser José Sarney. Há até quem prefira ser Fernando Collor. E há gente para votar neles todos. São as agruras da democracia.

Dr. Ulysses merecia ter tido no Congresso substitutos à altura. Não merecia ver lá o neto de seu amigo Tancredo. Neto este que não tem nem nunca teve luz própria. Fez sua fama em cima do sobrenome e para se eleger precisa calar jornais na terra do pão de queijo. Na 1ª e na 3ª fotos, ele aparece, jovem, atrás de Ulysses, ao lado do avô, de quem era assessor. Não tivesse Ulysses na frente para abrir caminho e ele jamais apareceria em fotos como essas. Pena não ter aprendido nada com as belas companhias que teve.

Na foto do meio, vê-se também Saturnino Braga, ex-prefeito do Rio de Janeiro.

Ulysses Guimarães não foi um político perfeito, nenhum ser humano é, mas comparado com os parlamentares vivos… Ai, meu Deus, quanta diferença… Seu passo firme, olhar certeiro e voz decidida fazem uma falta colossal.

Quando o vejo ser atacado por Sarney e defendido por Simon, penso que ele preferia apenas ser esquecido. Que o mar o tenha.

Abaixo, um vídeo que fiz como complemento a este artigo (a música é de Jorge Aragão):

P.S. As fotos foram tiradas em Salvador. Todos estavam vindo de um comício pela democracia, realizado no Campo Grande, que não fora autorizado pelas autoridades militares. Então, a PM com seus cães tentou impedir Ulysses de chegar à sede do MDB. Era meados da década de 70 e o governador da Bahia era o Prof. Roberto Santos, um democrata que não teve como impedir que a PM fosse às ruas.

Clique aqui para ler um cordel sobre Ulysses Guimarães.

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