Por que não proponho rezarmos pela proteção da natureza

 Marcelo Barros.

Nesse domingo (29), passei em Veneza, convidado por um grupo cristão que prega a defesa da terra e da natureza, através de mudança no nosso estilo de vida. Pediram-me para falar da Amazônia e falei. À tarde, me levaram de barco a uma ilha belíssima da lagoa de Veneza: São Francisco do Deserto. Conforme a tradição, ali há exatos 800 anos (1319), São Francisco de Assis voltava do Egito e do encontro com o sultão e, cansado, desembarcou em Veneza. Ali viu aquela ilha deserta, mas cheia de pássaros. Esses faziam uma imensa orquestra de sons. São Francisco disse aos irmãos que os pássaros louvavam a Deus e quis participar do louvor deles.

Falou aos pássaros e estes fizeram silêncio para escutá-lo. Hoje nessa ilha há um convento e é um lugar de natureza belíssima. Nos jardins do convento embaixo a uma árvore imensa, se colocaram cadeiras e fui convidado para participar de uma oração ecumênica pela Criação.

Coordenavam essa oração o arcebispo (patriarca de Veneza) e um pastor adventista. Eu não queria falar mas os organizadores insistiram e eu disse o seguinte:

O que significa orar pela terra e pela natureza?
Que sentido tem viver em uma sociedade organizada de forma que sistematicamente a natureza é explorada e destruída e depois rezar a Deus para refazer aquilo que a gente destrói? Deus poderia pensar que o fazemos de bobo. Pedimos para que ele proteja a natureza de nós próprios?

Para a tradição judaico-cristã, a oração começa por escutar a Deus. Mas, será que queremos verdadeiramente escutá-lo? O que adianta rezar por uma coisa diante da qual Deus parece impotente e incapaz de ajudar?

Na parábola do evangelho que se lê hoje nas Igrejas católicas, anglicanas e luteranas, um homem rico pede ao pai Abraão que ele trata como sendo Deus que mande o pobre aliviar a sua sede. Com palavras de hoje, Deus nos responde:
– Meu filho (minha filha), nem eu posso ajuda-lo/a. Entre nós e vocês aí, nesse inferno do lucro e do aquecimento global que faz da terra um inferno existe um abismo (Não fui eu que criei abismo ou inferno. Foram vocês mesmos) e nem eu posso anulá-lo.
– Vocês acham que eu posso convencer à Vale do Rio Doce a ganhar menos lucro e não destruir a Amazônia e as regiões de Minas que seus proprietários já destruíram? Os rios que eles já mataram?
– Acham que eu consigo que eu vou conseguir convencer Bolsonaro e os empresários brasileiros a respeitar a vida dos povos indígenas e o direitos dos pobres?
– Acham que algum dia vou conseguir convencer as comunidades de Igreja e seus pastores que eu quero justiça e não culto? Eles continuam achando que sou extremamente narcisista e que gosto mesmo de ser adorado e bajulado. Eles criaram um deus à imagem e semelhança de sua ambição de poder e de vaidade e dizem que sou Eu. De tudo isso sou tanto vítima como vocês e a terra. Se vocês quiserem libertar a Terra e aos pobres, pode ser que ajude também a proposta de vocês pensarem em libertar a mim mesmo Deus da religião narcisista e hipócrita que adora o poder travestido de Deus e os que a exploram para a sua vaidade e o seu lucro.

Desculpem vocês que estão aqui para orar pela criação. Não quero que pensem que estou dizendo que é inútil. Estou apenas sublinhando as premissas e condições de uma oração bíblica hoje. Vocês têm razão: podemos sim orar pela criação. Deus está triste e está meio deprimido. Que nossa oração tenha duas dimensões:
1 – a de consolar Deus do fato de ter fracassado em seu intento de nos empolgar pelo seu reino, projeto de um mundo feito de amor, justiça e comunhão cósmica.
2 – a de lhe prometer que vamos libertá-lo da prisão em que as religiões e mesmo a nossa Igreja o mantêm prisioneiro e vamos com ele reiniciar o caminho da redenção de nós mesmos e do mundo. Amém.

Contra Código Florestal, CNBB vai mobilizar 12 mil paróquias por assinaturas

Por Gilberto Costa O presidente da CNBB, dom Raymundo Damasceno, durante entrevista coletiva sobre o Código Florestal
A Igreja Católica poderá mobilizar suas 12 mil paróquias para fazer circular um abaixo-assinado contra o projeto do novo Código Florestal aprovado na Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado Federal.

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Por Gilberto Costa
Agência Brasil*

O presidente da CNBB, dom Raymundo Damasceno, durante entrevista coletiva sobre o Código Florestal

A Igreja Católica poderá mobilizar suas 12 mil paróquias para fazer circular um abaixo-assinado contra o projeto do novo Código Florestal aprovado na Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado Federal.

O anúncio foi feito nesta sexta-feira (17) em Brasília pela cúpula da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que pretende criar um fórum com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e um grupo de ex-ministros do Meio Ambiente contrários às mudanças propostas na lei.

O Conselho Permanente da CNBB divulgou nota contra a flexibilização do uso de áreas de preservação permanente (APP) e contra a anistia das multas e penalidades a quem desmatou, estabelecidas no relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

O documento convoca os católicos “a participar do processo de aperfeiçoamento do Código Florestal, mobilizando as forças sociais e promovendo abaixo-assinados contra a devastação”. Segundo a CNBB, as decisões referentes ao código não podem ser motivadas por uma lógica produtivista que não leva em consideração a proteção da natureza, da vida humana e das fontes da vida. “Não temos o direito de subordinar a agenda ambiental à agenda econômica”, diz ainda a nota da CNBB.

No ano passado, a participação da Igreja Católica viabilizou o recolhimento de mais de 1 milhão de assinaturas em favor da Lei da Ficha Limpa aprovada pelo Congresso Nacional. Com a mobilização de agora, a CNBB espera ser ouvida na discussão do novo código. “Não queremos nos furtar a participar da melhoria do texto”, disse aos jornalistas o secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Ulrich Steiner.

Além de destacar a importância de participar das discussões, o bispo disse esperar que Senado convoque a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) para debater a proposta. No mês passado, a SBPC apresentou ao Congresso Nacional e ao governo federal um estudo preliminar sobre as consequências da mudança do código no aumento do desmatamento.

“Eu espero ser convidada para o debate. Já estamos com a apresentação pronta”, disse à Agência Brasil a presidente da SBPC, a bioquímica Helena Nader.

Ela informou que a presidência do Senado não acatou nenhuma das sugestões encaminhadas pela SBPC em carta, como, por exemplo, a proposta de que a Casa inclua a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) na discussão do projeto do novo código.

O projeto tramita entre as comissões de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA), de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) e de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).

A CNBB também divulgou nota sobre a violência na Amazônia, mencionando o assassinato de quatro camponeses, recentemente, nos estados do Pará e de Rondônia, que foi associado a conflitos agrários e ambientalistas. “As ameaças [aos camponeses mortos] já eram de conhecimento das autoridades competentes, Infelizmente, pouco foi feito para proteger estas famílias”, diz a nota da CNBB.

*Fonte: http://sul21.com.br/jornal/2011/06/contra-codigo-florestal-cnbb-vai-mobilizar-12-mil-paroquias-na-coleta-de-assinaturas/

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