D. Pedro e água gelada

Foto: Ana Helena Tavares

A história do Colégio João Alfredo, um dos mais antigos do Brasil

O Instituto João Alfredo teve origem com reforma do ensino primário regulamentada pelo Imperador D. Pedro II, em 1854. A partir dessa data, o ensino primário passou a ter conotação profissionalizante, especialmente para crianças carentes.

Em 1873, o Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, ministro do império, em nome do Estado, adquiriu as propriedades de números 1 e 3 situadas à Rua do Macaco (atual Boulevard 28 de Setembro). No local foi inaugurado o Asilo dos Meninos Desvalidos (que hoje dá lugar ao Colégio Estadual João Alfredo). Quando de sua fundação, foi elaborado para o Asilo um regulamento próprio, considerado pioneiro para a época. O asilo receberia meninos do sexo masculino, entre seis e doze anos, e a eles seria ministrada instrução de 1º e 2º graus e profissionalizante.

A inauguração oficial ocorreu em 14 de Março de 1875, com a presença do Imperador D. Pedro II, que, de acordo com os costumes da época, convidou os presentes a beberam, com toda a pompa e circunstância, um copo d’água gelada. Na ocasião, Emílio Simonse ofereceu grande sortimento de roupas para o estabelecimento.

A construção do Asilo pode ser considerada, mesmo em nossos dias, de extremo bom gosto, não só no estilo, como na sua funcionalidade. Os dormitórios, as salas, as oficinas de treinamento, as lavanderias e demais dependências, muito amplas e iluminadas, eram dotadas de sistema de arejamento até então inédito, pois possibilitavam baixar a temperatura nos dias quentes e elevá-la nos dias frios.

A instituição, durante muito tempo, recebeu apoio das autoridades e os meninos dispunham de assistência médica gratuita, prestada pelo Dr. João Joaquim Pizarro.

Em decorrência dos graves problemas sociais, o número de vagas aumentou rapidamente para 200 e a idade limite foi elevada para 21 anos. Em 1892, o Asilo foi acrescido da Casa São José, sendo o ensino profissionalizante transferido para o Palácio da Quinta da Boa Vista. O ensino de 1º e 2º graus, no entanto, permanecia sob a responsabilidade daquela casa. Pode-se dizer que os trabalhos desenvolvidos no Asilo foram extraordinários, tendo alguns chegado a conquistar prêmios no exterior. Muitos de seus alunos se destacaram em vários eventos internacionais, conquistando as medalhas de ouro de 1900 e 1904, além do Grande Prêmio da Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922.

A história do local, no entanto, remonta a tempos anteriores ao Asilo. Entre os séculos XVIII e XIX, havia ali uma senzala. Um local que funcionava, portanto, como instrumento opressor dentro de uma sociedade escravocrata e que viria a se colocar, mais tarde, a serviço da educação pública.

O primeiro diretor do Asilo foi o Dr. Rufino Augusto de Almeida, que exerceu sua função durante dois períodos. O nome de Instituto Profissional João Alfredo foi dado pelo prefeito do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, Dr. Inocêncio Serzedo Correia, em 26 de Agosto de 1910.

A parte destinada aos antigos dormitórios hoje abriga o Instituto de Geriatria e Gerontologia e no restante do prédio, localizado ao lado do Hospital Pedro Ernesto, no coração de Vila Isabel, atualmente funciona o Colégio Estadual João Alfredo, onde é ministrado o Ensino Médio.

Na terra da boemia, com água gelada também se brinda.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de outubro 2008 do jornal “Correio Carioca”.

Fotolog do Instituto João Alfredo

Lisboa – o Porto de Ulisses

Foto: Ana Helena Tavares
Lisboa - Monumento aos Descobrimentos
Lisboa - Monumento aos Descobrimentos

– Para meu amigo Antônio Baptista, lisboeta duro na queda.

Um pequeno roteiro para se aproveitar a capital portuguesa

Diz a lenda popular e romântica que Lisboa foi fundada pelo herói grego Ulisses e que, tal como Roma, o seu povoado original era rodeado por sete colinas. O nome da cidade deriva de “Olissipo”, termo que tem origem nas palavras fenícias “Allis Ubbo’, que significam “porto encantador”.

Lisboa é uma capital histórica com um caráter e um encanto fora do comum, onde 800 anos de influências culturais diversificadas se misturam com as mais modernas tendências e estilos de vida, criando contrastes verdadeiramente espetaculares.

Situados na sua maioria no centro, os bairros históricos são destino imprescindível para quem se desloque à capital portuguesa. Pela cultura, pela história, pelas pessoas ou simplesmente para passear descontraidamente, é imperativo descobri-los. Fazendo parte estrutural da identidade lisboeta, estes bairros proporcionam traçar um verdadeiro mapa pessoal da cidade. As possibilidades são imensas.

O Bairro Alto é um dos mais emblemáticos e atraentes para viver a cidade. Bons restaurantes lado a lado com livrarias intimistas, que sempre guardam boas surpresas, convivem com casas de chá acopladas a lojas de roupas desenhadas por alguns dos mais conceituados artistas portugueses. É um bairro apaixonante, cheio de atrações, combinando ousadia e sofisticação com tradição e antiguidade. Passear no Bairro Alto é um ato irrepetível em qualquer outro ponto da cidade.

A zona do Carmo tem alguns pontos históricos fascinantes, como o Convento e a Igreja do Carmo, que mantém elegância e imponência. Aí poderá visitar as ruínas, mas também o Museu Arqueológico do Carmo, que inclui um numeroso legado de peças pré-históricas, romanas, medievais, manuelinas, renascentistas e barrocas. O Largo do Carmo é também um local emblemático da história nacional recente, tendo sido palco privilegiado da Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. A ligação entre o Carmo e a Baixa é feita através de outro monumento fundamental da cidade, o irresistível Elevador de Santa Justa.

No topo deparamo-nos com uma belíssima vista sobre a Baixa Pombalina. Não perca a oportunidade de utilizar este elevador vertical centenário, único deste tipo no mundo a prestar um serviço público e que, tendo sido concebido por um discípulo de Gustave Eiffel, mantém um estilo bem peculiar.

Vale visitar ainda a Sé de Lisboa, datada de 1150 e mandada construir por D. Afonso Henriques. Próximo à Sé, a subida para o encantador Castelo de São Jorge proporciona aos visitantes uma bela vista da cidade. A colina onde se localiza o Castelo é uma das que envolve o tradicionalíssimo bairro de Alfama que, com seus mundialmente conhecidos bares e restaurantes onde se toca o mais puro fado, é parada obrigatória para quem queira respirar por alguns momentos a alma portuguesa.

Já na zona de Belém não se pode deixar de conhecer o lindíssimo Mosteiro dos Jerônimos, onde se acredita que foram sepultados Vasco da Gama e Luís de Camões. É também nessa zona da cidade que se encontra o Padrão dos Descobrimentos. O monumento, de 1960, celebra o quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, homenageando este impulsionador dos Descobrimentos, mas também os principais desbravadores portugueses.

De lá os navegadores partiram para descobrir o mundo. Lisboa hoje convida o mundo a descobri-la.

Ana Helena Ribeiro Tavares

Matéria publicada na edição de setembro/2008 do jornal “Correio Carioca”.

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