Sem oposição, sem remédio

Eles dão as mãos e o povo fica a ver navios
Quando o governador e o prefeito eram outros, e faziam oposição entre si, as coisas funcionavam. A partir do momento em que o Palácio Laranjeiras se aliou à Prefeitura do Rio, tudo desandou.
Por Ana Helena Tavares (*)
Anteontem, quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011, acompanhei minha mãe à Defensoria Pública para entregar um documento que comprova que os postos de distribuição alegam não ter o medicamento Anastrozol, que deveria ser fornecido gratuitamente a ela e a outras pessoas para o tratamento do câncer de mama. Chegando lá, me deparei com o sofrimento de muitos outros cidadãos que têm seus direitos essenciais negados por razões das mais diversas.
Só para fazermos a entrega do tal documento, tivemos que esperar mais de duas horas. Imaginem casos mais complicados, como as varas de família – maioria lá. O povo mofa esperando e muitos passam mal, pois chegam lá cedo, não conseguem fazer refeições adequadas e ainda se desidratam com o forte calor.
Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, e Eduardo Paes, prefeito da capital, são mais odiados por aquelas pessoas do que Judas em quarta-feira de cinzas. Mas todos lá estão tão desiludidos que acabam incluindo as três esferas no mesmo saco.
Uma senhora, chamada Arlete Colis, me contou em detalhes sua triste história de luta por seus direitos. Clique aqui para ouvir o indignado desabafo dela.
Aposentada por invalidez, necessita de dois medicamentos básicos. Nenhum deles, nem mesmo o mais barato, ela consegue receber gratuitamente. Chegou a contar que, certa vez, lhe indicaram que ela fosse a uma favela, onde haveria um local em que ela conseguiria seus remédios. Ela foi, sofreu um assalto na porta e não conseguiu o que buscava.
Cobrou “solução pra ontem e vergonha na cara”, em especial do “Seu” Sérgio Cabral. Falava dele com tal raiva que apontava para o gravador como que querendo que ele estivesse em sua frente. Sorte dele que não estava, porque, certamente, levaria umas boas bolsadas e não seria só dela. Logo ele que fez fama por “defender” os idosos…
Com toda a razão, Colis reclamou do atendimento na Defensoria.
Estagiários atolados de serviço e completamente tontos em meio a tanta gente, chegam à beira do desespero e não dão conta de toda a demanda. Além disso, a maioria das pessoas é atendida em pé, no próprio salão. Os estagiários escrevem com uma prancheta na mão e, desta maneira, os problemas de cada um ficam expostos para todos. Os defensores, ditos públicos, ficam confortavelmente instalados em seus gabinetes privados e, como pude comprovar, os cidadãos que eles defendem não sabem nem o nome deles.No que diz respeito à área de saúde, o Município e o Estado recebem verba do Governo Federal para comprar remédios como o de minha mãe e muitos outros, desde hipertensão à diabetes. Tais medicamentos devem ser repassados gratuitamente a quem necessita. No caso de minha mãe, como não está havendo o repasse, a verba destinada à compra do remédio deverá ser cortada e o dinheiro entregue diretamente a ela.
Segundo um homem, que não quis se identificar, quando o governador e o prefeito eram outros, e faziam oposição entre si, as coisas funcionavam. A partir do momento em que o Palácio Laranjeiras se aliou à Prefeitura do Rio, tudo desandou.
Tem lógica. Não que os governantes anteriores fossem melhores – não eram –, mas é óbvio que, quando as esferas municipal, estadual e também a federal não trocavam sorrisos mútuos, se uma pisasse na bola e não distribuísse um determinado remédio, a outra tratava de fazê-lo para mostrar serviço.
Vai daí que é sempre sadio haver oposição organizada, pois evita acomodamentos. Não tê-la não é saudável em lugar nenhum do mundo, como provam os países árabes que padecem da falta dela.
*Ana Helena Tavares, jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.
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Cel. Cerqueira: um homem que tinha um sonho

Ana Helena Tavares
Da esquerda para a direita: Prof. Hélio Alonso, Prof. Oswaldo Munteal e Prof.ª Ana Beatriz Leal. Foto: Ana Helena Tavares

Um homem cidadão não é uma redundância, como certamente idealizava o Cel. Cerqueira e outro famoso sonhador negro, mas pessoas como eles são a prova de que também não é uma contradição.

Por Ana Helena Tavares, em 18 de Janeiro de 2011

O sonho de um ser humano cidadão. Foi exatamente com esta ânsia que fiquei após sair nesta segunda-feira à noite da OAB-RJ, onde fui para a conferência de lançamento do livro “O sonho de uma polícia cidadã”, que homenageia o Coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, assassinado no saguão do Edifício Magnus, no Centro do Rio, em 1999, quando tinha 59 anos. Morto com um tiro vingativo disparado pelo Sargento Sydney Rodrigues, sua morte revelou o drama de um conflito de mentalidades: a polícia com que Cerqueira sonhava era outra.

O livro, distribuído gratuitamente durante o evento, traz textos inéditos, e com uma atualidade impressionante, o que deixa claro o caráter visionário do Cel. Cerqueira, que, em 1975, já sonhava com idéias que só hoje estão em voga. É aí que se faz notar a importância dele não só para a polícia, mas também para os gestores públicos. Quando se fala hoje em UPP e em diversos projetos que estão acontecendo no Brasil, como o PRONACI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), há que se lembrar que isso tudo é pensamento dele.

Os textos foram cedidos pelo Instituto Carioca de Criminologia e organizados pelos pesquisadores Oswaldo Munteal, professor da UERJ e da FACHA; Ana Beatriz Leal, Coordenadora do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro; e Cel. Íbis Silva Pereira, Comandante do Batalhão de Petrópolis. Este último não pôde comparecer devido à sobrecarga de serviço causada pela tragédia que matou centenas de pessoas na região serrana do RJ.

A idéia de registrar o pensamento do Cel. Cerqueira nasceu do livro sobre os 200 anos da Polícia Militar, como me explicou a Prof.ª Ana Beatriz Leal:

– Eu estava trabalhando na PMERJ, em desenvolvimento de projetos, e estávamos produzindo o livro sobre os 200 anos da Polícia Militar. Foi aí que a gente viu que tinha que apresentar um exemplo. Porque uma coisa é falar da história da corporação, outra é você ter um tema atual e trabalhar ele. O Coronel Cerqueira surgiu naturalmente, porque ele foi o precursor de Direitos Humanos na polícia, um grande intelectual. Foi Comandante Geral duas vezes durante o governo Brizola. Logo após a ditadura militar, era visto como um revolucionário. Imagina, ele falava que os quartéis tinham que ser abertos pra sociedade e ninguém o entendia. Claro que isso era visto como loucura. Para mim, foi o maior intelectual de teoria de polícia do Brasil. Não superado até hoje. Só que, como negro, talvez ele não tenha tido tanta voz na academia, onde não é muito pesquisado -, disse a professora.

Tendo sido o primeiro Comandante Geral negro na história da Polícia Militar, o Cel. Cerqueira escreveu muito sobre a questão da inclusão dos negros na sociedade:

– É um marco e um exemplo para a tropa. Ele é, por uns, adorado; por outros, incompreendido -, completou Ana Beatriz.

“Foi uma queda de braço muito dura”, como me definiu o prof. Oswaldo Munteal, também organizador do livro:

– Interessante que, dentro dos 200 anos da Polícia Militar (1809/2009) apareceu um foco novo que é o dos direitos humanos, como pauta, como agenda da polícia. A PMERJ, através do Coronel Cerqueira, apresentou pela 1ª vez essa novidade: a presença do embate político pelos direitos humanos. De dentro de uma corporação monolítica, extremamente blindada, aparece um quadro que modifica totalmente o cenário. Esse aspecto eu acho muito rico -, disse o professor.

Munteal me falou também sobre os apoios recebidos e o funcionamento da pesquisa, que durou dois anos:

– Acho importante ressaltar que nós fomos apoiados pela Petrobras e pelo Ministério da Cultura, tanto que temos hoje aqui um representante da ministra Ana de Hollanda. E outra coisa muito importante de ser dita: nós não tivemos nenhum tipo de dificuldade de acesso aos arquivos da polícia. Isso, pra mim, foi um ponto exemplar. Muita gente fantasia sobre se houve censura. Não. A polícia não blindou, não vetou nenhum documento. Não houve nenhuma aresta nesse sentido. Tivemos oito assistentes de pesquisa, todos da FACHA. E pesquisadores da UERJ e da PUC. Então, foi um trabalho que me deu a felicidade de integrar várias instituições -, afirmou.

Perguntei-lhe ainda sobre como via a PM hoje em dia e ouvi duras críticas a filmes como “Tropa de Elite”:

– É curioso, porque eu vejo a polícia muito mais interessada em discutir o tema da paz do que propriamente o que é apresentado em filmes como “Tropa de Elite”, onde, a meu ver, há uma inversão. Eu vejo isso talvez com excesso de otimismo, mas eu vejo a polícia mais voltada pro cenário da paz do que da guerra. Ou seja, enquanto está se discutindo UPP, o que se vê no filme é o inverso disso. Acredito ser um desserviço à sociedade. É um ponto fora da curva. É outro sinal, que, ao invés de dar ênfase à paz, dá à guerra. Faz muito mal à cidadania, porque eles não estão contando a verdade – há muito mais fantasia do que realidade ali. Há do meu ponto de vista, uma apologia da violência. E a pesquisa me ajudou muito a ver esse ângulo. Digo isso porque um pesquisador, tendo acesso a várias fontes, terá simpatia ou não por determinados objetos. Não existe uma visão sem pré-noções. Quem acha que isso é possível, não faz história. A gente sempre leva uma carga de opinião. E nós tivemos uma empatia com o Coronel Cerqueira -, concluiu Munteal.

Também estava presente ao evento o Prof. Hélio Alonso, fundador e dono da faculdade que leva seu nome. O Cel. Cerqueira foi seu aluno, como ele me contou orgulhoso:

– Falar sobre o Coronel Cerqueira pra mim é sempre agradável. Embora eu tenha tido pouco contato com ele, deu para fazer um juízo dele. O 1º contato que tivemos foi num evento numa associação de chineses. Eu estava conversando com um tenente, quando chegou o Coronel Cerqueira, que era o Comandante da PMERJ. O tenente disse que iria cumprimentar o Coronel e eu disse: “Ah, me apresenta ele. Eu gostaria de conhecê-lo”. Porque eu já vinha acompanhando o trabalho dele há muito tempo. Isso foi na década de 90, pouco tempo antes de ele morrer. Eu o disse que era uma honra muito grande conhecê-lo, no que ele respondeu: “Pra mim, é uma honra muito maior, porque venho acompanhando o seu trabalho há mais tempo. Eu fui seu aluno num curso pré-vestibular no Méier”. Mais tarde, eu assisti a uma palestra dele no Conselho de Turismo da Confederação Nacional do Comércio, onde sou conselheiro lá. Foi uma palestra maravilhosa, onde eu vi que ele tinha um conhecimento muito grande de coisas fora da polícia. Foi mais um momento agradável que tive com ele. Depois eu me afastei um pouco. Estava viajando quando ele morreu e só soube depois. Realmente, era uma pessoa de um vasto conhecimento, incomum a um militar. Perceba: não é que seja estranho, mas não é comum. Ele tinha uma visão humanística muito grande. Então, esse livro e toda essa homenagem só vêm fazer justiça.

A Polícia Militar também marcou presença. Um jovem policial negro foi o mestre de cerimônias. Tive oportunidade de conversar com o Coronel Antonio Carlos Carballo Blanco, Comandante da Escola Superior da PMERJ, visivelmente emocionado por ter convivido de perto com o Cel. Cerqueira:

– O livro representa um justo reconhecimento pelo homem e pelo profissional. Ele foi um divisor de águas. Há o antes e o depois dele. Será pra mim um eterno ídolo, que me abriu horizontes –, disse Carballo Blanco.

A cerimônia foi concorrida, auditório cheio e mesa de honra lotada, contando com nove nomes do mais alto gabarito. Dentre eles, além dos já citados, estava ainda o prof. Adair Rocha, que assina a apresentação do livro e foi professor de Munteal. Rocha definiu o título da obra como “contraditório” aos olhos de parte da sociedade, que crê que polícia não é para ser cidadã.

Um homem cidadão não é uma redundância, como certamente idealizava o Cel. Cerqueira e outro famoso sonhador negro, mas pessoas como eles são a prova de que também não é uma contradição.

Ana Helena Tavares é jornalista, escritora e poeta eternamente aprendiz.

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