Sociedade: Eu odeio esta escola

Por José Ribamar Bessa Freire A Polícia descobriu a pólvora e a roda, quando classificou os autores dessa violência como “portadores de problemas emocionais e psicológicos”. Tal juízo foi feito muito tarde e pela instituição errada. Trata-se não de um diagnóstico médico, mas de um laudo policial preconceituoso, elaborado a posteriori, que olha hoje o ‘desequilibrado’, como no passado se olhava o leproso. Ele é visto como um inimigo da sociedade, que deve ser isolado e punido, e não como alguém que precisa de tratamento.

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Por José Ribamar Bessa Freire* (escrito em 2007 sobre os EUA, qualquer semelhança com o Brasil de 2011 é mera coincidência, ou não…)

Era apenas um menino, de 14 anos, solitário e triste. Cursava a nona série numa escola de Ohio, nos Estados Unidos. Quase ninguém o chamava pelo seu nome de batismo: Asa H. Coon. Como mancava de uma perna, era mais conhecido por um apelido cruel, algo assim como “Deixa-que-eu-chuto”. Nessa quarta-feira, 10 de outubro, entrou na escola com dois revólveres, um em cada mão, como um caubói disposto a se fazer respeitar no faroeste. Fez muitos disparos. Feriu quatro pessoas. Depois, se suicidou.

Foi preciso morrer para conquistar outro apelido: “Deixa-que-eu-atiro”.
No dia seguinte, longe dali, em Filadélfia, Pensilvânia, outro adolescente, também de 14 anos, foi preso. A polícia, após descobrir que ele acessava um site na internet com instruções para fabricar bombas, encontrou em sua casa um arsenal com pistolas automáticas e granadas. O menino estava preparando um ataque à escola, de onde havia fugido para evitar humilhações. Queria se vingar da crueldade dos colegas, que o chamavam de ‘Baleia Prenha’, por causa de sua extrema obesidade.

A violência nas escolas americanas já fez dezenas de vítimas, desde a tragédia de Columbine, em 1999, quando treze pessoas foram assassinadas. Há seis meses, em abril, foi um sul-coreano que matou 32 estudantes na Universidade Virginia Tech, e deixou um manifesto se queixando das afrontas recebidas porque pertencia a uma ‘cultura estranha’ e falava uma língua diferente. Em outubro do ano passado, cinco meninas foram assassinadas numa escola religiosa anabatista, na Pensilvânia. Um mês antes, um menino de 15 anos, matou o diretor de seu colégio, em Wisconsin. E por aí vai.

A Polícia descobriu a pólvora e a roda, quando classificou os autores dessa violência como “portadores de problemas emocionais e psicológicos”. Tal juízo foi feito muito tarde e pela instituição errada. Trata-se não de um diagnóstico médico, mas de um laudo policial preconceituoso, elaborado a posteriori, que olha hoje o ‘desequilibrado’, como no passado se olhava o leproso. Ele é visto como um inimigo da sociedade, que deve ser isolado e punido, e não como alguém que precisa de tratamento.

Ohio que o parta

Afinal, o que está acontecendo? Por que meninos usam a escola como palco de ações homicidas? O que estão querendo nos dizer quando se suicidam, depois de matar e ferir colegas e professores? A gente não consegue entender o recado que nem eles mesmos desconfiam que estão mandando. Talvez fossem compreendidos se escrevessem um conto ou poema, pintassem um quadro, compusessem uma música. Mas usaram a linguagem das balas, predominante hoje nos EUA e na ocupação americana do Iraque. Quem sabe George Bush pode nos traduzir, pois essa parece ser a sua língua materna, digo paterna.

O menino de Ohio entrou na escola mancando, com duas armas, como John Wayne num filme de bang-bang ou como um soldado americano no Iraque. Estava vestido todo de preto: casaco, camisa Marilyn Manson e jeans, as unhas pintadas com esmalte escuro e o pescoço cheio de cadeias estilo gótico. O primeiro disparo atingiu um colega de turma, que o havia esbofeteado após uma discussão sobre a existência de Deus. Depois, feriu outro colega e dois professores. No meio da confusão, berrou, antes de se suicidar: “EU ODEIO ESTA ESCOLA”.

Esse grito fere a nós, professores, talvez tão profundamente quanto as balas, porque evidencia nosso fracasso. A instituição na qual acreditamos, longe de ser um lugar de reflexão, de liberdade e de convivência amistosa, torna-se um espaço insuportável de opressão e de negação da alteridade. A escola que pretende uniformizar as pessoas – e a farda é apenas um símbolo disso – revela que está despreparada para lidar com a diferença. Não ensina as regras de conviver com quem é diferente. O pernetinha, o surdo, o gordão, o cara de olho puxado, o índio, o caboco e o negro são estigmatizados.

A escola, como regra geral, não educa para a diferença em nenhum país. Acontece que ela dialoga sempre com a sociedade que a abriga. Nos EUA, num sistema extremamente competitivo, a escola ‘prepara’ os alunos para serem ‘winners’ (vencedores). Não há lugar para ‘losers’ (perdedores). Os fracassados são esmagados. Há ainda um agravante: a facilidade com que até um ‘loser’ pode comprar uma arma, o que possibilita que se faça, em escala menor, aquilo que Bush faz no Iraque em proporções gigantescas, assassinando milhares de pessoas.

Sociedade-caveirão

Quem está doente não é o “Deixa-que-eu-chuto” ou o ‘Baleia Prenha’. Doente é a relação deles com a sociedade através da escola. É essa relação enferma, produto da sociedade-caveirão, que deve ser tratada. Esses conflitos em instituições de ensino dos EUA nos permitem refletir sobre o modelo de escola e o papel do professor, bem como discutir o tipo de violência que acontece num país complexo como o Brasil. Um fato ocorrido recentemente no Rio de Janeiro pode servir de ilustração.

Uma professora carioca decidiu fazer um curso universitário depois de se aposentar. Hoje ela é minha aluna na UERJ. Contou, em sala de aula, um assalto que sofreu dentro de um ônibus, na Avenida Brasil, quando voltava pra sua casa, na Baixada Fluminense. Numa parada, entraram quatro jovens. Um deles, que parecia ser o chefe, botou um revólver na cabeça do trocador e gritou: “isso é um assalto”. Um segundo menino, também com uma arma na mão, ficou apontando pro motorista, enquanto os outros dois recolhiam, numa sacola, dinheiro, celulares e jóias dos passageiros.

Quando já não havia mais o que roubar, o chefe do grupo deu ordem pro motorista parar. Mas no momento de descer, a professora aposentada o identificou como seu ex-aluno no ensino fundamental. Não se conteve e deu um grito dolorido: “Vandernilson, que decepção! Tanto trabalho pra nada!”. Provavelmente, ela era a única pessoa, além da mãe, que o chamava pelo nome de batismo. ‘Pereba’, assim ele era conhecido, ordenou aos seus parceiros: ‘Sujou! Sujou! Devolve tudo’.

Enquanto o ônibus prosseguia no seu itinerário, eles iam devolvendo os pertences de cada um. Depois, Vandernilson, o Pereba, bastante constrangido, pediu desculpas à sua ex-professora e desceu provavelmente para assaltar outro ônibus. Os passageiros aplaudiram a mestra, cujo aluno podia até não gostar da escola, mas que ainda nutria afeto e respeito por uma de suas professoras.

Na véspera do Dia do Professor, homenageamos todos os mestres que procuram respeitar a diferença. Entre eles, alguns do Instituto de Educação do Amazonas e do Ginásio Amazonense na década de 1960, que compartilharam com seus alunos o que tinham de melhor: Orígenes Martins, Carlos Eduardo Gonçalves, Mercedes Ponce de León, Nathércia Menezes, Hilda Tribuzzi, José Braga, Isis Falcone, Garcitylzo Silva, Lurdinha Telles, Stélio Lobato, Afonso Nina, Manoel Otávio, Farias de Carvalho e tantos outros, que merecem a gratidão perene de seus ex-alunos.

*José Ribamar Bessa Freire é antropólogo, natural de Manaus e assina no “Diário do Amazonas” coluna semanal tida como uma das mais lidas da região norte.Reside no Rio de Janeiro há mais de 20 anos e é professor da UERJ, onde coordena o programa “Pró-Índio”. Mantém o blogTaqui Pra Ti”.

Ditadura: A nossa suja história

Por Rui Martins O Brasil está empurrando para debaixo do tapete sua suja História, talvez por vergonha mas principalmente porque muitos de seus atores, que participaram do golpe e justificaram a ditadura, estão vivos e têm força suficiente, até no STF, para tentar apagar da memória da jovem geração nossas páginas vergonhosas.

Por Rui Martins*

Foi minha filha Julie quem me deu o tema para esta coluna, logo depois do almôço, quando falávamos das mentiras da Tepco no Japão, das tantas mortes na Líbia e do futuro de Kadhafi. Ela ainda está traumatizada por ter ouvido de um primo, numa reunião familiar na última viagem ao Brasil, que a ditadura militar tinha sido uma boa coisa para o País.

Terminando o curso colegial, tem estudado a História recente e me surpreendeu, pois, enquanto tomávamos o café preto sem açúcar, fez um simples mas profundo comentário:

Veja só papai: na França, existem ruas, placas comemorativas com o nome de Jean Moulin, herói da resistência à ocupação nazista. Quando estive em Barcelona, vi que o povo espanhol não esquece dos que lutaram contra o ditador Franco. Mas, no Brasil, ninguém fala nos anos da ditadura, minhas primas nem sabem disso, é como se nunca tivesse acontecido. Mas foram vinte anos !

Coincidentemente, tinha lido ontem, uma entrevista da jovem e brilhante jornalista Ana Helena Tavares com um dos nossos heróis da resistência à ditadura militar, Carlos Eugênio Paz, na qual ele fala nessa falha histórica, pela qual nossos cinco ditadores são chamados de presidentes e seus nomes são imortalizados em obras públicas.

É verdade, o Brasil está empurrando para debaixo do tapete sua suja História, talvez por vergonha mas principalmente porque muitos de seus atores, que participaram do golpe e justificaram a ditadura, estão vivos e têm força suficiente, até no STF, para tentar apagar da memória da jovem geração nossas páginas vergonhosas.

E minha filha citou como exemplo a experiência suíça. Durante anos, os manuais escolares, os jornais, os políticos suíços esconderam o papel da Suíça durante a Segunda Guerra, disfarçado sob o manto de uma pretensa neutralidade. Porém, pressionado pelo peso da verdade, o governo foi obrigado a criar uma Comissão histórica independente, composta também de historiadores estrangeiros, presidida pelo suíço Jean François Bergier, para se revelar os anos ocultos.

E muita coisa dolorosa se soube, desde os judeus entregues aos nazistas nas fronteiras, ficando seus bens retidos nos bancos suíços, à lavagem do ouro roubado dos bancos centrais dos países ocupados pelos nazistas. Com esse ouro lavado e trocado em dinheiro, os nazistas podiam importar tungstênio e matérias primas da Espanha e Portugal para fabricar suas armas de guerra. E, enfim, foi o próprio presidente suíço quem fez solenemente sua mea culpa.

Argentinos e espanhóis desenterram suas vergonhas e estremecem diante das revelações de adoções por famílias de militares dos filhos das jovens opositoras mortas sob a tortura. O exercício da memória é a única maneira de se restabelecer a honra de um país. O Chile teve também seu momento de penitência, ao se revelarem oficialmente os crimes de Pinochet, velho decadente fingindo-se de gagá, com seu passado de traição e assassinatos.

É verdade minha filha, o Brasil nunca poderá ser um país de respeito enquanto não lavar a sujeira dos seus vinte anos de ditadura, enquanto não soubermos os nomes dos torturadores e assassinos, alguns dos quais sobreviveram ao retorno da democracia como políticos e parlamentares.

Enquanto os livros escolares não falarem de resistentes como Marighella, Lamarca e de tantos outros que tornaram possível a democracia de hoje. Será também preciso se retirar dos ditadores, desde Castelo Branco a Figueiredo, passando por Médici, Costa e Silva e Geisel, a citação e referência de terem sido nossos presidentes.

É preciso se contar a verdade para as novas gerações estudiosas, que terão vergonha se o Brasil for o único país do mundo a acobertar a vergonha dos seus anos sujos de ditadura, de falta de liberdade, de torturas e assassinatos. E nesse quadro, é muito normal surgirem declarações abjetas como essas do deputado Bolsonaro, apoiadas pelo pessoal dos anos sujos. Declarações que nunca serão punidas.

*Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreve para o site “Direto da Redação” (onde este texto foi originalmente publicado), para o jornal “Expresso”, de Lisboa, e agência “BrPress”.

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