E o golpe também pegou a Igreja

Os dirigentes da Igreja Católica na Bolívia se declaram favoráveis ao golpe.

Por Marcelo Barros, monge beneditino

Marcelo Barros

As mais recentes notícias sobre a Bolívia nos entristecem, por causa do terrível golpe de Estado e da realidade triste que ele significa de racismo e de fechamento das elites com relação a qualquer governo que tente administrar o país para a maioria do povo. Por outro lado, o mais triste é constatar que os dirigentes da Igreja Católica na Bolívia se declaram favoráveis ao golpe.


Em sua declaração, os bispos negam que tenha havido golpe, mas não explicam como se derruba um presidente constitucionalmente eleito sem golpe. Deixam claro que a primeira preocupação é a defesa da propriedade e só depois falam na vida das pessoas. Convocam as forças armadas para cumprir essa função constitucional, sem nada dizer do fato de que se elas tivessem cumprido sua função nesses dias, não teria acontecido o que aconteceu. Nenhuma palavra sobre a violência e os crimes cometidos pela oposição que provocou o golpe. Nenhuma alusão à realidade dos povos indígenas, maioria da população boliviana que o presidente Evo Morales representava. E aludem claramente à possiblidade de novas eleições.


Qualquer pessoa de bom senso que leia a declaração da Conferência dos Bispos Bolivianos diante do atual Golpe de Estado poderá se fazer várias perguntas. A primeira é a que Igreja esses bispos pertencem: a do papa Francisco ou a que insiste em se manter no modelo de Cristandade, graças aos núncios de cada país que garantem a nomeação de bispos, à imagem e semelhança de um Vaticano que boicota o papa? Os mesmos bispos que nunca se pronunciaram contra as ditaduras militares do passado e os governos corruptos que tomaram conta do país até o século XXI, de repente, sempre que podem mostram sua inaceitação de um governo que não prestigiou mais o poder eclesiástico dos bispos e se declarava sempre pela valorização das espiritualidades dos povos originários. Provavelmente esses bispos não quiseram ler o Instrumento de Trabalho do Sínodo da Amazônia, nem prestaram atenção às palavras do papa Francisco colocando a valorização das culturas originárias como missão da Igreja. Será que não percebem que, por trás da rejeição a Evo Morales (com todos os defeitos e limitações que seu governo possa ter) o que está por trás é o racismo e o ódio contra o processo que na Bolívia, desde o primeiro governo do MAS, tem se chamado de Revolução Indígena? Por acaso, algum desses bispos pode afirmar que algum dos líderes da oposição ao governo agora derrubado tem a mesma preocupação ética e a mesma solidariedade ao povo pobre que o governo de Evo Morales, com todos os seus defeitos, demonstrou?


Outra questão é se esses bispos representam de fato a Igreja Católica da Bolívia ou sinalizam um fosso entre a cúpula e as bases?


De um lado, é triste constatar que dificilmente os bispos se pronunciariam de forma tão clara pelo golpe e contra o processo constitucional da Revolução Indígena se a maioria dos padres e diáconos das dioceses tivessem posição contrária. Sabemos que a Pastoral das Culturas que corresponde ao que aqui no Brasil seria o CIMI e a CPT juntos e os/as companheiros/as da Pastoral Bíblica das diversas regiões da Bolívia sempre têm apoiado as iniciativas do governo e quando podiam colaboravam com ele. No entanto, a declaração dos bispos revela um fosso entre os bispos e muitas bases das comunidades e mesmo entre os bispos e os/as responsáveis leigos ou padres das pastorais sociais.


Provavelmente o que está por trás dessa declaração é o velho instinto eclesiástico de se posicionar sempre pela elite e à direita. É o mesmo tom e conteúdo das declarações dos bispos da Venezuela e também do Equador quando este ainda se movia nos caminhos da Revolução Cidadã.


Essa declaração revela que nenhum desses bispos, alguns dos quais têm suas Igrejas na região panamazônica, devem ter assinado o Pacto de compromisso com os pobres renovado pelos bispos e missionários nas Catcumbas de Domitila em 20 de outubro de 2019.

A sina da América católica

Católico fervoroso, Camacho faz América Latina retomar a tradição de golpes de Estado violentos.

Luiz Fernando Camacho, no púlpito, de bíblia na mão, ao lado de imagem de Nossa Senhora.

Por Ana Helena Tavares, jornalista

A América já não é tão católica se compararmos com a época em que Caetano Veloso tinha longos cachos e lamentava a nossa “incompetência” e consequente necessidade de “rídiculos tiranos”. Porém, a parcela reacionária do catolicismo permanece decisiva nos rumos políticos desse pedaço de terra abaixo da linha do Equador.

Basta observar que, apesar de estar sendo chamado genericamente de “fundamentalista religioso”, o líder golpista boliviano, Luiz Fernando Camacho, é católico fervoroso, devoto de Nossa Senhora. Basta observar ainda que, no Brasil, o voto católico foi decisivo para eleger Bolsonaro.

Como já tem sido muito estudado, os católicos chamados “carismáticos” (mas não só estes) se aproximam dos neopentecostais “evangélicos”. Ambos são faces de um “cristianismo” sem Cristo, calcado no velho testamento. Um “cristianismo” que acredita num Deus opressor, mau e punitivo, negando tudo o que o homem de Nazaré fez em vida.

Há os que lideram golpes e tomam a linha de frente, de bíblia e cruz na mão, mas há muitos que seriam mais honestos se dissessem que seguem o “pilatismo”, pois simplesmente lavam as mãos diante de qualquer injustiça.

No caso dos católicos, são surdos ao atual líder da Igreja. Lamentam que hoje o trono de Pedro não seja ocupado por um ridículo tirano.

%d blogueiros gostam disto: