Hoje a passeata chorou

Hoje a passeata chorou

Você era o mais vibrante dos alunos da escola
Você sorria radiante, você lutava até por bola
Hoje você se cala, mas a luta continua
O povo ainda rala, ainda clama, ainda sua

Hoje a passeata chorou pela falta de você

Quem não te viu chorar
Não consegue mais te ver sorrir
Quem te viu lutar
Não aceita o seu fugir

Quando a tortura começava você era o mais valente
E se a dor apertava a sua força era na mente
Hoje o país é outro e a tortura é de outro tipo
Mas existe e você nada, como se não fosse mais contigo

A nossa música, você lembra? Era forte, era protesto
A utopia era o que importava, pra depois ficava o resto
Hoje, saudoso, eu visito aquelas praças que tinham vida
Pra dizer aos meus olhos que buscamos uma saída

Todo dia olho no espelho e me orgulho daquelas bolinhas
As de gude, que jogamos, pra derrubar cavalarias
Imaginas como me dói escrever-lhe estas linhas?
Assistindo-o ir à TV dizer tantas patifarias?

Quem teve ânsia de justiça, não se acostuma à covardia
Quem quis mudar o mundo, não o vive sem magia
Não sei como você pode ter vendido a sua alma
É triste, é deprimente, não me peça pra ter calma

Hoje a passeata chorou pela falta de você

15 de Agosto de 2010,
Ana Helena Tavares

Livremente inspirado na letra da música “Quem te viu, quem te vê“, de Chico Buarque.

Recado de primavera

Publico hoje aqui um texto em formato de carta. Um texto ingênuo e profundamente despretensioso, afinal vai fazer 10 anos e foi escrito quando eu tinha apenas 13 anos. No entanto,  foi com este texto que ganhei meu primeiro concurso literário (ainda nos bancos escolares do meu querido CPII) e pode-se dizer que esta foi minha primeira crônica, tendo sido assim o marco inicial de toda uma história… E só por isso já deveria ter merecido espaço aqui há mais tempo… Trata-se de uma paródia a um texto homônimo de Zuenir Ventura (que naquela época ainda escrevia pro Jornal do Brasil). Algum tempo depois de escrevê-lo, cheguei a entrar de fato em contato com Zuenir, que respondeu parabenizando-me e terminou dizendo: “Espero que você continue fazendo seus exercícios de estilo”. Um dia ainda terei oportunidade de dizer pessoalmente a ele que, não só continuei, como é àquelas palavras que se deve o nome deste blog. Segue então o texto…

Vou continuar vigiando as ruas, os pássaros e os rapazes em flor

Meu caro Zuenir Ventura,

Escrevo-lhe aqui do Andaraí para lhe dar uma notícia grave: a primavera chegou. Ao ler “Recado de primavera”, que você escreveu ao cronista Rubem Braga, resolvi mandar-lhe uma carta parecida.

Sempre que posso leio suas crônicas no Jornal do Brasil, pois as acho muito criativas. Infelizmente, ainda não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas espero que isso brevemente aconteça.

Pouca coisa mudou, cronista, nesses dois anos. As “violências primaveris” de que Rubem Braga falava na carta a Vinícius de Moraes, continuam sendo “violências mesmo”, só que, às vezes, são até piores.

Esse ano a primavera está um tanto estranha. Para se ter uma idéia, ao invés de tempo quente e estável, ultimamente tem estado frio e ocorrido muitas chuvas inesperadas. Dizem que é culpa de um tal fenômeno chamado “La Niña”.

O tempo vai passando, cronista. Chega a primavera nesse Rio de Janeiro, que apesar de tudo, continua a “Cidade Maravilhosa”, narrada em prosa e verso por tantos poetas, músicos e escritores como você.

Eu ainda vou ficando por aqui a vigiar, em nome de todos aqueles que já se foram, as ruas, os pássaros e os rapazes em flor. E estudando, como todo jovem, para um dia ser alguém. Até breve!

Ana Helena Ribeiro Tavares
Setembro de 1998.

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