Anoitecer, uma mesa de pedra envolta de verde, papel e caneta…

– Para o meu irmão, Daniel. Homem de coração livre como as folhas que voam em uma floresta.

Floresta em coração urbano
O verde frescor a te envolver
É festa! A natureza toca piano…
Com o ardor da cachoeira a descer

O sol ilumina as nuvens em seu passeio
Os namorados riem das folhas a cair
E nessas horas se entende esse mundo a que veio
Ele diz: vivam! Não se furtem a existir

E as folhas do chão?
Quanto nos tem a ensinar…
Chamá-las de mortas?! Não!
Já viram o arco-íris que estão a formar?

Sim, quantos as pisam e não vêem suas cores?
Nem dá tempo de olhar pra baixo, tanta pressa…
Mas aquelas folhas que já viram cair tantos amores
Sabem que a vida sempre recomeça.

Ana Helena Tavares

O saxofonista no sinal de trânsito

Havia quem achasse chique. “Ah, dá um ar de Nova Yorque a isso aqui”
Havia quem desse chilique. “Ô, moço, tira essas bolsas da calçada, quero passar!”
Havia quem o achasse um louco. “Olha o cabelo, e as calças!”
Havia quem achasse pouco. “Devia ir tocar lá em Brasília”

Ele estava lá, no vai não vai. E eu, por um minuto, quis tomar-lhe o sax.
Não sei nem fazer o lá. Mas e daí? Ele o que queria era transgredir.
Fosse tocar “O que é? O que é?” chamaria mais atenção do que notas soltas?
Não era a música que chamava atenção. Era a cara-de-pau.

Cara-de-pau sadia. Sem a qual o mundo não roda.
Ousadia que faz a vida ter (algum) sentido.
“Não faz mal. Te avia” Há de ter pensado ele.
“Eu também queria.” Pensei eu ao vê-lo parado.

Os passantes? Assobios de indiferença. “Ainda bem que não é comigo”
Os viajantes? Pena. “Não teve outras oportunidades, senão não estava aí.”
Hesitante. “O sinal já vai abrir, toco não toco?”
Num instante. Já não mais o vejo. O ônibus seguiu seu curso.

Ana Helena Tavares

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