O doce maior da vida

– Para minha mãe, Maria do Céu, o meu maior doce, e para todas as verdadeiras mães do mundo.

Dentro do instinto biológico ideal, toda mulher deveria nascer mãe. Afinal, todas deveriam nascer para reproduzir. Só que algumas conseguem, outras não. E, além disso, quem disse que reproduzir é ser mãe?

Sinceramente, não acredito que o famoso “instinto maternal” seja comum a todas as mulheres. Não creio que toda mulher nasça com o instinto social (se é que cabe este termo) de ser mãe. Se assim fosse, como seriam possíveis todos os casos de mães que renegam, maltratam e até matam seus filhos? Como chamar aqueles seres de mães? Como é possível dizer que aquelas pessoas nasceram mães? A sociedade pode ter corrompido algumas, mas há aquelas que parecem já ter nascido com raiva de bonecas…

Dizem que o ato de brincar de boneca é o maior ensaio para as futuras mães. Mas há meninas que só gostam de brincar de carrinho e nem por isso significa que vão torna-se péssimas mães. Para muitas mulheres o seu maior sonho é vir a ser mãe. Outras, porém, preferem ter como ambição uma carreira de sucesso ou um amante insaciável – sem jamais pensar em ter filhos. Nem todas as mulheres, fazem uma festa a uma criança ou brincam com elas. Como todos nós sabemos, não é difícil encontrar muitas que repudiam crianças, quase como se as mesmas fossem um estorvo a evitar a todo o custo.

A sociedade mudou, é claro, mas isso não quer dizer que antes todas nasciam mães e agora não. Desde sempre houve desvios. O fato é que o termo mãe é grande demais para que se possa afirmar que toda mulher já nasce com ele. Não, não nasce. Mãe é uma das menores palavras da língua portuguesa e é a que talvez tenha um dos significados mais complexos. Não há mãe sem sonhos construídos em conjunto.

Sendo assim, não posso dizer que toda mulher já nasce podendo ser considerada mãe. Pois, quando olho pro mundo à minha volta, não posso crer que todo ser humano, homem ou mulher, já nasça amando. Na verdade, não nasce amando nem odiando. Sentimentos são edificados tal como castelos. E só o real amor pelos filhos torna uma mulher mãe.

Sendo biológica ou adotiva, quando a mãe é mãe, atribui todo o amor que tem dentro de si àquela criatura condicionada ao seu encanto – e a relação com seus filhos depende tanto do toque carinhoso na cria como da capacidade de uma “troca de olhares” a léguas de distância.

Não, eu não posso dizer que sou mãe. Sequer que sei o que significa ser. Posso no máximo fazer recortes da realidade que observo. Uma mãe, creio eu, está desde o simples gesto do pedaço de doce levado no quarto do filho até a crença inabalável que seus filhos são seu maior doce.

Tantas e tantas definições já foram dadas para as mães. Nenhuma delas alcança o que se passa no coração das verdadeiras mães ao perder um filho. Mário Lago, autor daquela conhecida música que tenta definir o que é uma “mulher de verdade”, disse certa vez num desconhecido poema: “É um fruto de sua vida / Um fruto que Deus lhe deu / Quem perde mãe já perdeu / o doce maior da vida”. Não resta dúvida que nossas mães são um doce inigualável. Mas arrisco-me a dizer que a dor da perda de uma mãe em nada supera a dor da perda de um filho. É uma questão de ordem natural das coisas. Como o próprio Mário Lago disse: o filho “é um fruto de sua vida”. É exatamente isso. E, nesse sentido, eu acrescentaria que as verdadeiras mães projetam em seus filhos um sentimento de imortalidade. O que gera uma sensação de perda de continuidade terrível a cada filho que morre.

Mãe é isso. É se doar de forma incondicional, vibrando mais com as vitórias dos filhos do que com as próprias, não se importando em até matar por eles, ou em deixar de respirar se for para o filho continuar perdendo o fôlego.

E isso não se vê em qualquer esquina.

05 de Maio de 2009,
Ana Helena Tavares

O doce maior da vida no Recanto das Letras

O doce maior da vida no blog do Patolino

Sonhos não terminam de manhã! (ou Minas ainda há! 1ª e 2ª partes*)

Foto: Ana Helena Tavares

Uma rede, um pedaço de Minas...
Uma rede, um pedaço de Minas...

– Para o meu amigo Gilson Caroni Filho, capixaba com alma mineira, alma de menino… Um menino incansável na luta por justiça, que tanto sonhou construir mudanças no mundo que hoje muda o mundo construindo sonhos.

Vou para Minas, mas cadê Minas?
Disseram que se desfez, disseram que agora é mar.
Mas, ué, lá não tem praia, lá tem boi, lá tem vaca, lá tem o verde que dá café.
Posso sentir o cheiro. E sentir é saber.
Que algo existe, sim, existe! Sinto e…
por isso, ainda há!

De onde vem o leite que tomo de manhã?
Não me enganem!
“Ah, foi feito em laboratório…” Nada disso!
E aquela vaquinha branca que vi sestrosa pelo mato?
Minhas retinas não me iludem e se for ilusão, que mal há?
Tenho certeza, Minas ainda há!

De onde vem aquele pozinho pretinho com um cheiro irrepetível?
“Shiii, hoje em dia isso se fabrica, moça!”
Pela janela do carro observo, de um lado e de outro, cafezais em flor,
lá no meio deles, do coração de uma casinha simples pareço ouvir:
“Cheirinho de café quente, já colheu o resto?” Por lá não passou Mr. Ford,
por lá Minas ainda há.

Vou para Minas, sei que ela está lá! Sei porque sinto.
Ando nas ruas de minha querida metrópole, olho para uma rosa, sinto seu aroma e sei. Tiro o calçado na minha varanda, piso numa nesga de terra e sei.
Até ao acariciar meus cachorros olho profundamente seus olhares indecifráveis
e entendo que Minas sempre haverá.
Basta se querer que ela exista.

Queijo com goiabada,
cheiro de terra molhada,
palmas na calçada: “Ô, de casa!”
Cheguei em Minas. Uma rede, um quintal: “Ah, que bela amendoeira!”
Será dali que saem aquelas amêndoas parrudas de Natal?
Sabia que Minas ainda havia.

Como passar um Natal sem Minas?
Um Natal sem o interior,
qualquer interior.
Noel vem de uma cidade sonho?
Vem da minha Minas.
Todo real foi sonho antes.

Carrinho de rolimã desce,
sobe ladeira.
Era o brinquedo preferido do menino magrinho, irmão de mais dezesseis,
na sua longínqua Minas.
Hoje, bem-sucedido empresário, no Rio de Janeiro que adotou, ele garante:
“Minas não sai de lá.”

É por isso que eu vou para lá.
Na minha viagem, talvez não ouça nenhum “uai”.
Quem sabe não encontro algum capixaba, ou paulista talvez…
Que interior rico tem São Paulo, que interior rico tem o Brasil.
E pelo mundo afora já imaginaram quantos recantos não são, por assim dizer, mineiros? “Para que pressa, meu senhor, a gente já chega, é logo ali…”

E o senhorzinho, então,
vai indo,
vai indo,
até que avista Minas.
Ela estava
dentro dele.

Porque dentro dele
canta um galo.
Acordou junto
à primeira fornada.
Um pão quentinho
e Minas cabia naquele cantinho.

Lá fora, as folhas choram
o orvalho da noite que ninou as ladeiras.
Telhas com lodo acusam:
por ali passou água,
por ali passou vida;
Minas passou por ali.

E para onde foi Minas?
Terá ido para o bater de asas do beija-flor
ou para o deslizar da gaivota?
Não importa. Minas paira.
É o que os galos anunciam
todas as manhãs.

Você não os ouve de seu arranha-céu?
Experimente passar um dia arranhando
a terra…
Fazendo desenhos nela, casinhas de barro…
Ah! Como fiz casinhas de barro!
Sim, Minas mora nelas.

E pode morar também na sua,
basta ouvir o cantar do galo.
De repente, no ouvido um estalo.
É estalinho, é São João.
A brasa da fogueira escreve no vento:
“É Minas! É trem ‘bão’!”

Olha o trem…
ziguezagueando as montanhas,
parece brincar
com os cafezais.
Café com galo cantando?
É gosto de quero mais.

“Toma os trocados
pro seu doce,
vai lá na barraca,
meu filho,
deixa eu fazer o bolo de milho.”
Ah! Quero mais…

Minas deixa esse gosto nos lábios dos que já a beijaram.
E sinto… E há.
Como quando um domingo à tarde me faz sentir passar a banda…
Ela não passou? Mas senti.
Como quando um pingo de arte me faz sentir rodar em ciranda…
Não rodei? Mas senti.

Minas é sensação.
Como amar sem sentir?
E que gosto tem o real
sem o amor
que se confunde
com aquele chamego de interior?

Que gosto tem a fruta comida do pé?
Tem gosto de Minas!
Para que lavá-la e tirar seu pólen?
Minas é aquela pétala que compõe a flor,
porque secá-la é lhe negar sabor.
Sim, mangas têm pólen, margaridas têm sabor.

Como um grão de areia
que na nossa mão é maior que o mar,
Minas transforma,
se transforma,
nos transforma.
Por isso vive.

Vive na folha que cai da árvore
e voa que voa.
Sabe-se lá onde vai parar.
Vive na formiguinha que sobe a parede
à toa, à toa…
Que nada, está a trabalhar.

Está presente nas abelhas que dão mel
e nas ovelhas que dão lã.
De onde vem isso tudo, meu Deus?!
Para compor uma mesa de ceia, risadas harmônicas
e tortas rodeadas de saladas de frutas.
Quantas Minas, quanto campo, quantas lutas!

A pedra que dava ouro hoje dá louro
a quem nela crê.
Em Minas, tem dessas pedras que rolam na grama,
se sujam de lama,
sem se importar com quem vê.
Nem com quem ouve…

Mas o galo quer platéia… E a platéia precisa dele.
Ouça você com mais cuidado.
Sim, ele canta em sua metrópole.
Até na Avenida Central ele canta.
Verdadeiro mestre em disfarces,
sabe de inglês a javanês.

“Um dia traduzi num exame escrito:
‘Liberta que serás também’.
E repito”
Foi assim que Vinícius de Moraes confessou ter um dia
errado a tradução do lema da bandeira mineira.
Repito com ele!

Como saber se Minas há
se você nunca buscar libertar-se para que ela liberte-o?
Não tem tempo?
Ah, foi bom lembrar…
Cocoricó!!!!!
Para ser livre, Minas gosta de libertar os relógios.

E o que Minas
mais gosta mesmo
é de ser Minas.
Uma autenticidade
que nunca ninguém
vai lhe tirar.

Seja você
mineiro ou capixaba,
brasileiro ou estrangeiro,
é fácil entender.
Minas é sinônimo
de sonhar.

Já foi num campinho daqueles de várzea
e observou alguns pés descalços
atrás de um sonho?
Já interpretou o rosto de quem ganhou sua primeira pipa
e foi pro alto de uma ladeira para soltá-la
sonhando alcançar as nuvens?

A Minas
de que falo
é tudo isso.
Todos os sonhos
que enquanto houver
o pulsar de corações
não morrerão.

Ela está nos hábitos mais gostosos
que a humanidade já produziu.
Desde o sonho
de abraçar o mundo
ao desejo
de abraçar e beijar aquele menino/menina com quem tanto se sonha.

Sim, Minas está também nos namoros
e nos choros
que eles produzem…
Já se banhou num lago em dia de chuva fina e chorou de amor na cabeceira de um rio? Ou quem sabe… Já correu no temporal e chorou de amor à beira mar?
Suas lágrimas foram para Minas.

Chove e, em cada gota,
Minas é mais Minas.
Da janela se vê folhas escorrerem sua alegria.
Oh! Que lindo girassol no florista
de minha metrópole ensolarada…
Foi regado com amor.

Minas está no sol e na chuva, no sol e na lua –
está no encontro dos dois.
Está em tudo que é vida e vida
– para quem a vive intensamente –
cheira a sonho, como o pão de queijo quentinho da vovó,
como almofadas macias que embalam meu sono.

Sonhei que uma borboleta piscava para mim de noite.
Estou certa de ter visto uma beliscar os primeiros raios de sol.
Borboleta, borboleta… Borboleta que vai e volta…
Será a mesma? Eu sabia!
Minas está nela
e sonhos não terminam de manhã.

Dezembro de 2008

(escrito à mão, entre os dias 08 e 15, num lugar cheirando a Minas)
Ana Helena Ribeiro Tavares

*Um texto que nasceu por partes…

Minas ainda há 1ª parte no Recanto das Letras

Minas ainda há 2ª parte (ou As manhãs são dos galos e das borboletas) no Recanto das Letras

Minas ainda há 1ª parte no blog do radialista mineiro Carlos Ferreira

Minas ainda há 1ª parte no blog do Patolino

E as partes se juntaram…

Sonhos não terminam de manhã no Portal Literal

Sonhos não terminam de manhã no Guia de Concursos Literários

Sonhos não terminam de manhã no blog É-poésis

Obs: Claro está que este texto é minha singela homenagem ao maravilhoso estado de Minas Gerais e é importante ainda frisar que o título original de “Minas ainda há” trata-se de uma homenagem a Drummond, nosso magistral poeta mineiro, que dizia que “Minas já não há…”

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