O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro

Se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. Não por acaso ele desfila sua credibilidade, de cabeça erguida, pelos mais nobres salões internacionais. E isso não o faz deixar de ser de esquerda, não o torna menos progressista. Ao contrário, o progresso requer o sacrifício do beijo no carcereiro.

Por Ana Helena Tavares

O que é ser de esquerda pura? Se dentre as definições estiver não aceitar conchavos suspeitos nem mesmo em momentos que seja necessário se livrar da forca, então a esquerda pura é uma grande utopia, simplesmente não existe. E é uma grande falsidade dizer-se puro.

Não há adegas neste país com vinhos que possam dizer que nunca se misturaram a azeite. Mais: misturas fazem parte do jogo político que, queiram os “puristas” ou não, precisa ser jogado. O grande segredo está em fazer com que este jogo não apague a chama da defesa da justiça social, da luta pelas liberdades democráticas e dos Direitos Humanos, bandeira indiscutível do nosso presidente.

Chegar ao governo não é a mesma coisa que chegar ao poder. É preciso deixar isso sempre claro. Poder conquista-se a troco de alianças.

Se não foram poucas as realizações do governo Lula em projetos sociais, há que se assumir que isso se deve em grande parcela ao talento do nosso presidente para agregar para suas trincheiras conhecidos adversários. Não por acaso ele desfila sua credibilidade, de cabeça erguida, pelos mais nobres salões internacionais. E isso não o faz deixar de ser de esquerda, não o torna menos progressista. Ao contrário, o progresso requer o sacrifício do beijo no carcereiro. Sempre foi assim em toda história da humanidade. Como então uma esquerda fechada conseguirá avançar? Manter ideais, sim, mas transformar rivais em aliados nos momentos de batalha mais sangrenta é questão de sobrevivência.

Temos agora aí a CPI da Petrobras, este engodo plantado pela oposição para desestabilizar o governo e afundar o país. Numa situação como essa, ter maioria no Congresso, mesmo que à custa de determinados acordos que nunca foram e não são dos sonhos do governo, parece que se faz arma fundamental – e inevitável. Só assim é possível vislumbrar um afrouxamento da corda que essa oposição que nós temos, totalmente desinteressada com o país, ajudada por nossa grande imprensa, vendida e imunda, tem colocado todos os dias no pescoço de Lula.

Ora, responda-me rápido: se fosse você que estivesse lá no Planalto, você também não iria querer se livrar da forca?

21 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

O progresso e o sacrifício do beijo no carcereiro no blog Quem tem medo do Lula?

Quando os animais explicam

Minha Pérola!
Freud e seu Lün, um chow-chow presenteado por Helene Deutsch.

“Diálogo” com Sigmund Freud, em homenagem à minha labradora, Pérola, fiel companheira, que morreu segunda-feira à noite, dia 22/06/2009. Os trechos de minha autoria aparecem em negrito. Os trechos de autoria do gênio da psicanálise aparecem em itálico e foram retirados de uma rara entrevista que ele concedeu ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. A entrevista completa está disponível em http://niilismo.net/forum/viewtopic.php?t=216

Sigmund Freud: Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.

No meio do caminho eu tinha uma Pérola
Eu tinha uma Pérola no meio do caminho

Nunca me esquecerei daquele olhar naqueles momentos
Queria passar e lá estava ela
Agora quero ficar e ela não está lá

Deveria ter sentado mais no meio do caminho?
E acariciado mais a Pérola?

Não… Eu brinquei muito com minha Pérola!
Quantas chegadas festivas em casa!

Não há companhia como aquela…

Sigmund Freud: Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico.

Pois é, homens matam e morrem em busca de status, sem saber que caso alcançassem a estatura dos animais seriam muito mais felizes.

Sigmund Freud: O homem selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela própria impõe.

E, enquanto nós nos cobramos tanto, constantemente, de nos encaixar em um mundo totalmente desencaixado pela nossa própria ação, do que os animais se cobram a não ser da nobre tarefa de zelar por quem amam?

Sigmund Freud: As emoções do cão (acrescentou Freud pensativamente) lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis como Aquiles e Heitor.

Menorzinha da ninhada…

Teu nome é Pérola!

Fruto de superações
Lutou pra mamar
Com os irmãos fortões!

Misturada de raças…

Tu nasceu labradora
Minha Pérola!
Uma vencedora!

“Ih, ela tem o um monte de pintinhas na barriga e, caramba, o nariz é rosado!”
“Você vai mesmo querer essa?”
“Ah, sei lá, pode ser um tipo de câncer, ela pode não durar muito, hein…”
É essa, mãe!

Não era câncer
Ela me explicou o valor (e o sabor!) de rolar na lona
Viveu de forma intensa
Séria e bobona…

Seu sorriso? Uma janela…

Uma estrada que Deus me deu

Sorria com os olhos! Que grande aula era aquele olhar!

Queria conversar com o meu

Queria dizer: vai em frente, menina!

Acredito no seu potencial!

E, se ela acreditava…

Duvidar seria no mínimo desagradável.

Sigmund Freud: As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.

O único “conflito” que ela tinha não era pra dentro, era pra fora…

Era com a cachorrada da vizinhança

Acho que ela os achava muito abusados

Só quem podia latir por ali era ela, ora!

De brava? Só o tamanho…
Ela era um ser feliz dia após dia!
Só tinha um hábito meio estranho…
Gostava de me olhar quando eu escrevia

Sigmund Freud: (sorrindo) Fico contente de que não possa ler. Certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo!

Parece que os animais não sentem essa coisa chamada “trauma”, né? Pelo menos não como a gente.

28 de Junho de 2009,

Ana Helena Tavares

Quando os animais explicam no É-poésis

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