A dança das estações

Chega o inverno. Logo se quer aconchego, mas se tem medo do sossego. Será assim o ser humano? Notoriamente contraditório?

Mas que o contraditório não o vença! Chegar ao outono e entregar-se por causa das quedas é o mesmo se deixar morrer por um beliscão. E quantos beliscões a vida nos quer dar? Sim, ela quer! Há que se permitir! E por que quer? Por que permitir? Porque a primavera só vem para quem a espera.

Esperar é sofrer, porque sofrimento é vida. Porque o sorriso depois da lágrima é sempre mais molhado. Um pingo de orvalho, em qualquer semente, é sempre sinal de alegria. Por que seria diferente com o choro?

E o verão virá? Virá e também passará. Virão passos, que verão asas. Uma eterna mutação.

Enquanto a vida dura, a dança das estações só se traduz a quem as sente. Contraditoriamente.

Ana Helena Tavares,
26 de Dezembro de 2009

Ser como gota de chuva

“Não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive. É o mais adaptado às mudanças” (Charles Darwin)

Chove. E eu com vontade de mergulhar em cada gota.

As gotas caem nos meus olhos, mas meus olhos querem ser elas.

Límpidos, nascidos de nuvens, sem o embaçamento da metrópole empoeirada.

Livres, guiados pelo vento, sem as amarras da sociedade que me molda.

Ser como gota de chuva. Flutuar, conhecer lugares longínquos, beijar cada chão.

Ser cristalina no ar e desmanchar-me turva no asfalto quente que me evaporaria e me faria voltar a ser gota. Um eterno recomeço.

Assim precisaria ser a vida. Cada sol nos anuncia uma nova chance de voltar a ser gota.

E de percebermos que aquele berro que ficou calado não morreu. Apenas se transformou.

27 de Julho de 2009,
Ana Helena Tavares

Ser como gota de chuva no Recanto das Letras

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