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A mão invisível do mercado estava segurando o volante nas carreatas contra o isolamento, diz professor de economia

Carros caríssimos foram às ruas. Foto: EDUARDO MATYSIAK/FUTURA PRESS

Por Ana Helena Tavares, jornalista

Para o professor de economia Eduardo Amazonas, a chamada “mão invisível” do mercado não é tão invisível assim. Ela estava dirigindo os carros que desfilaram contra as medidas de saúde pública na última sexta-feira, 27 de março:

“Essa mão invisível é aquela que determina que só quem tem dinheiro vai sobreviver. É uma coisa complicada isso. O mercado não vai resolver essa crise. E o que é o mercado? São essas carreatas. É aquele cara da hamburgueria, o Madero. É o ‘Véio da Havan’ (como ficou conhecido o empresário Luciano Hang). É o marketing dos empresários. São pessoas que manipulam o mercado para se beneficiar. As pessoas mais pobres não têm instrumentos para essa manipulação. Nós vivemos num mundo de exclusão. Numa globalização de exclusão. Então, o Estado tem que fazer sua parte”, determina.

Isso dito por um liberal, como é o caso do entrevistado, pode soar estranho, mas ele garante que não é, pois, nesse momento, se vê na obrigação de ser keynesiano.

“O que Keynes disse? Que quando a iniciativa privada está em crise o Estado entra para injetar dinheiro e estimular a economia. É um socorro. Então, você tem que saber em que momento você vai ser monetarista e em que momento você vai ser desenvolvimentista”, explica.

Amazonas que, além de mestre em economia, é psicanalista, compara essa necessidade de variação no pensamento econômico para se adequar às circunstâncias da realidade com as mudanças necessárias no tratamento de um paciente ou de outro: “às vezes, precisamos usar Freud, outras vezes precisaremos de Winnicott, porque o paciente vai requerer mais atenção”.

O ministro da economia no Brasil, Paulo Guedes, é um ultraliberal, adepto da escola de Chicago. Se estivesse sentado na cadeira dele, Amazonas pediria um estudo sobre as reservas cambiais e usaria tudo o que fosse necessário.

“Nós temos cerca de 380 bilhões em reservas cambiais. Com o dólar a 5 reais, 30 bilhões são 150 bilhões de reais que você pode colocar na economia. E, num momento em que o dólar está subindo muito, você pode jogar dólar no mercado para diminuir a cotação. Nós estamos numa guerra. E numa guerra usamos o que temos. Para salvar vidas, eu não posso pensar em economizar. Tenho que gastar. Eu faria isso. Pensaria de onde posso tirar dinheiro.”

No entanto, o professor não vê no governo uma grande disposição para gastar:

“Qual o discurso hoje do governo? Ah, vamos gastar, mas não vamos gastar como o PT. Ficam insistindo na crítica ao PT. Porque os petistas gastaram mais com a crise de 2008, mas nós sofremos menos. Teve até aquela frase do Lula, em 2009, dizendo que era uma “marolinha”. E de fato foi, justamente porque o PT gastou muito. O grande erro do PT, a meu ver, é que, depois disso, eles continuaram gastando demais, principalmente no governo Dilma. Acho que isso poderia ter sido revisto, mas essa é outra discussão.

Então, o Paulo Guedes está dizendo: ‘eu vou gastar, mas vou gastar com parcimônia’. Eu não sei se este dinheiro que ele está gastando vai ser o suficiente. Porque, veja, grande parte do que ele está gastando não é dinheiro novo. O que significa isso? Ele está, por exemplo, antecipando o décimo-terceiro dos aposentados (é um dinheiro que seria gasto lá na frente). Tudo bem. É uma coisa emergencial. Acho ótimo. Mas, por exemplo, tem o fundo de garantia. Vou dar um exemplo do que poderia ser feito: quem tem até 3 mil reais poderia sacar, quem tem mais de 50 mil poderia sacar 10% . Alguma coisa tem que ser feita, porque vai faltar dinheiro. E isso vai gerar um efeito multiplicador muito grande.

Acabei de ver que foi liberada a lei de responsabilidade fiscal para se gastar mais. O quanto esse endividamento lá na frente será complicado? Nós não podemos pensar nisso agora. Nós temos que salvar as pessoas, não podemos deixar que elas morram de doença nem de fome.”

Ele acredita que dá para fazer as duas coisas e discorda daqueles que alimentam uma dicotomia entre vidas e economia, o que chama de visão “utilitarista”.

“Dependendo da posição em que você esteja, você vai escolher aquilo que te beneficia. Vou dar um exemplo utilitarista: você acha que hoje não tem governantes querendo que velhos morram para que eles possam pagar menos aposentadorias? Então, o utilitarismo é assim: deixa morrer os velhos que eu me benefício da dívida das aposentadorias.”

É preciso jogar dinheiro do helicóptero

O professor observa que muita gente não está percebendo que isso é uma crise de saúde pública mundial. Não foi uma crise que começou no mercado financeiro, mas na vida real. Ele alerta que o desespero tem levado pessoas comuns a cometerem equívocos financeiros.

“Como a taxa de juros caiu muito, muita gente jogou sua poupança para a bolsa e ficou sem dinheiro. Porque veja: a bolsa caiu de 117 mil pontos (em janeiro) para 77 mil agora em março. As pessoas perderam muito dinheiro. Elas não têm ideia de que para você aplicar na bolsa de valores você precisa ter 1 milhão. Porque, assim, eu posso aplicar 200 mil e, se eu perder, me recupero daqui a 5 ou 6 anos porque tenho 800 mil de reserva. Um exemplo. Aí a pessoa pega sua poupança de 30, 40 ou 50 mil e vai querer colocar na bolsa de valores? É outro problema. Isso traz uma insegurança paras as pessoas que vão precisar de dinheiro.

Não adianta: o governo tem que injetar dinheiro. Como o Trump está fazendo. O Trump está lá dando dinheiro, entregando nas casas. O Milton Friedman (economista norte-americano) fala em ‘jogar dinheiro do helicóptero’. É isso que tem que ser feito. Assim, é possível ter uma recuperação da economia em ‘V’. Ou seja, cai e se recupera. Do jeito que as coisas estão (no Brasil) a gente vai ter uma recuperação em ‘L’. Cai bruscamente e fica lá embaixo durante bastante tempo. Uma recuperação longa.

Estou extremamente pessimista com o que vem por aí. Estou vendo muita miséria e muita doença. Essa doença já chegou às comunidades. Isso é muito complicado. Se as pessoas não ficarem em casa, a gente não sabe quantos podem se contaminar.

As pessoas não estão entendendo que precisam ficar em casa para a economia se recuperar rápido. Essa loucura de fazerem carreata para irem para a rua traz um risco muito grande. É o risco de ficar ainda mais tempo em quarentena prejudicando ainda mais a economia”, avalia.

E prejudicando também a saúde mental da população. Como psicanalista, o entrevistado lembra que o número de suicídios poderá explodir:

“São dramas muito grandes. Então, a economia, neste momento, tem que ajudar as pessoas. Não importa quanto você vai gastar. Você vai gastar dinheiro para ajudar as pessoas. Depois a gente resolve”.    

Dependendo da demora de recuperação da economia, Amazonas teme ainda uma convulsão social:

“Daqui a pouco vou ter que descer para o supermercado armado, porque vão começar a ocorrer saques. Eu estou preocupado. E digo: os 600 reais (que o Senado aprovou nesta segunda-feira, 30 de março) é muito pouco. O governo tem que se endividar! Precisa dar, pelo menos, 1 salário mínimo para as pessoas. Iriam ser 200 reais. Como é que o Paulo Guedes quer dar 200 reais para as pessoas sobreviverem, meu Deus do Céu?! É uma maldade muito grande”, comenta.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, o Congresso aprovou o maior pacote de estímulo econômico da história. Mas o economista italiano, professor de Chicago, Luigi Zingales, levantou dúvidas sobre os rumos do dinheiro. Em entrevista à BBC, ele disse: “me parece que eles (referindo-se aos americanos) estão mais garantindo subsídios a empresas do que realmente distribuindo para as famílias mais jovens e mais pobres.” Amazonas diz que, se olharmos para o passado, veremos que Zingales tem razão na crítica e que essa diferença de tratamento entre pessoas e empresas de fato poderá ocorrer.

“Se voltarmos à crise de 2008, vamos ver que havia uma maior preocupação em salvar os bancos. O que deveria ter sido feito naquela época? Ajudar as pessoas a pagarem suas prestações de casa. Se você fizesse isso, a crise teria sido muito menor. Não foi feito. Foram bilhões de dólares para bancos.

Na crise atual, aqui no Brasil, o Banco Central já liberou 1 trilhão e 200 milhões para bancos. Esse mesmo governo queria dar 200 reais para as pessoas na informalidade que são 40 milhões de brasileiros. Isso está errado. Quando você dá dinheiro para banco, será que esse dinheiro vai chegar às pessoas? Porque isso é crédito. As pessoas não têm dinheiro e ainda vão se endividar? Tem que haver uma outra proposta”, recomenda.

“Parece o Titanic”

“Na verdade, parece o Titanic. A terceira classe você mata para salvar a primeira classe. O mundo funciona assim, infelizmente. A gente precisa começar a ter uma sociedade melhor”. É o que deseja o professor sem, porém, acreditar no seu desejo.

“Nós deveríamos ser mais humanistas, mas o ser humano está muito ruim para sair melhor. A solidariedade está muito pequena. E vou dizer mais: as pessoas não estão se dando conta do que é essa pandemia. Na verdade, as pessoas não sabem nem o que significa pandemia.

Aí eu vou fazer uma crítica ao presidente. Não vou dizer ‘nosso’, porque não gosto dele. O presidente da República está sendo muito infantil. Ele pode até sofrer processos internacionais porque está cometendo crimes. A revista The Economist diz que ele é o ‘BolsoNero’.

A imagem do Brasil fica muito ruim para investimento internacional, que nós já não estávamos tendo. Todo investimento internacional fica em cima de privatizações. Então, nós estamos perdendo mercado internacional. Ano passado, perdemos 20% das nossas exportações. São problemas muito sérios que estão sendo criados. É assustador.

Por exemplo, o governo liberou 497 agrotóxicos. Destes, vários geram câncer. Outros geram problemas na córnea e as pessoas podem ficar cegas. Ninguém ligou para isso! As maldades estão sendo feitas de uma forma assustadora muito antes da pandemia. E agora vem a pandemia. Parece que nós temos assassinos no poder. O que é que é isso? O mercado internacional está nos vendo. Nossa imagem está muito ruim”, conclui.

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