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SÍNODO DA AMAZÔNIA: COLOCAR A PERIFERIA NO CENTRO

Por José Oscar Beozzo*, direto de Roma, em 05 de outubro de 2019

A chamada para a prece ao 37º. dos 40 dias dia de “navegação” rumo ao Sínodo da Amazônia, recorda um fio que percorre toda a experiência bíblica: Deus se revela nos pequenos e nos humildes, provocando espanto e a incredulidade ou perguntas aparentemente sem resposta:

“De Nazaré, pode sair alguma coisa que preste?” (Jo 2, 46)

“Esse não é o carpinteiro, o filho de Maria…?” (Mc 6, 3)

Provoca também o louvor agradecido de quem, como a jovem Maria, reconhece os inusitados caminhos escolhidos por Deus:

“Glorifica minha alma o Senhor…, porque olhou a pequenez de sua serva” (Lc 1, 47-48).

Também percebemos que o Sínodo Amazônico é um pequeno afluente de água viva que deseja servir a esse propósito maior. Mesmo em sua pequenez em relação à visão eclesial tradicional, onde o centro prevalece, e talvez justamente por isso, essa periferia (que também é imensa e majestosa como um território que expressa o mistério de Deus) quer servir como um sinal que oferece luzes ao centro.

A Amazônia é, e quer ser, um rosto periférico que ajuda o centro a concretizar seu processo de transformação, seu retorno à origem no Cristo vivo que encarna e transcende estruturas, temporalidades e características culturais. Uma expressão do Deus que habita a Igreja e a abre à novidade“.

Nada mais eloquente do que o cortejo que no meio da manhã deste 04 de outubro, festa de São Francisco de Assis, padroeiro da Itália, atravessava alegre e orgulhosamente a Via della Conciliazione rumo à Praça São Pedro.

A Conciliazione (Reconciliação) é grande avenida que liga as margens do Rio Tibre, na altura da ponte do Castelo Sant’Angelo até a praça de São Pedro. Foi construída por Mussolini para celebrar o Tratado de Latrão de 1929 que selou a reconciliação do Reino da Itália e o Vaticano, depois da ferida aberta pela tomada dos estados pontifícios e da cidade de Roma pelas tropas de Garibaldi em 20 de setembro de 1870, pela “brecha” da Porta Pia. Para tanto, foram varridos os velhos quarteirões do Borgo Santo Spirito dando lugar a edifícios ocupados hoje por diferentes organismos da Santa Sé, livrarias, cafés, lanchonetes, embaixadas e algumas igrejas.

Os  turistas que se apinhavam na avenida, primeiro paravam para se perguntar o que estava acontecendo, enquanto outros já corriam com seus celulares para bater uma foto do estranho grupo que avançava a passo firme, indiferente ao que se passava ao seu redor. 

Eram indígenas vindos de vários rios, rincões e países da bacia amazônica, em sua maioria mulheres, enfeitadas com os adereços de seus povos. Não era um cortejo de cardeais ou de grandes dignatários do mundo, mas sim de gente humilde, de rosto curtido pelo sol e com as marcas de muitos trabalhos, enfermidades e sofrimentos, sobreviventes da grande e secular tribulação de seus povos na Amazônia.

Ostentavam seus crachás de convidados do Papa Francisco para plantarem juntos uma árvore nos Jardins do Vaticano, para celebrar a realização do Sínodo, sua consagração a São Francisco de Assis e apontar os novos caminhos para uma Igreja com rosto amazônico e para uma ecologia integral.

Pela tarde, conversei com um dos indígenas vindos da Amazônia brasileira, Francisco, do povo Apurinã, no rio Purus, todo feliz com seu modesto cocar de penas coloridas.

O Purus é um rio de águas claras que nasce no Peru e atravessa os estados do Acre e do Amazonas, o último grande afluente da margem direita do Rio Solimões, com seus imponentes três mil quilômetros de extensão. Sua língua pertence ao tronco linguístico Maipure-Aruak. São hoje perto de cerca de 4.000 pessoas. Foram fortemente marcados pela violência dos dois ciclos da borracha na Amazônia, o primeiro das últimas décadas do século XIX e começos do século XX e o segundo, com a invasão (1943-1945) dos “soldados da borracha”, durante a II Guerra Mundial, depois do acordo entre os presidentes Getúlio Vargas e Roosevelt para suprir com borracha o esforço de guerra norte-americano, quando as grandes plantações de seringueiras da Malásia, do Vietnã e de todo o sudeste asiático haviam sido tomadas pelos exércitos do Japão.

Hoje os Apurinã lutam pela demarcação de suas terras ainda não reconhecidas e seguidamente invadidas por madeireiros.

Francisco não cabia em si por estar ali representando seu povo, por ser xará do Papa e trazer para a escuta do Sínodo, a voz e o clamor do seu povo.

Tiramos uma foto juntos, tendo como pano de fundo o entardecer por sobre a cúpula da Basílica de São Pedro, uma das obras primas do gênio de Michelangelo.

Na entrevista na Sala de Imprensa da Santa Sé, naquela mesma tarde, o bispo português, auxiliar de Lisboa, Tolentino Mendonça, poeta e literato, nomeado responsável pela Biblioteca do Vaticano e elevado nesses dias ao cardinalato, respondeu direta e certeiramente a uma pergunta dos jornalistas sobre o significado do Sínodo:

“O Papa Francisco com o Sínodo da Amazônia quis colocar a periferia no centro da Igreja”.

*José Oscar Beozzo é teólogo, historiador da Igreja.

Crônica No. 2 enviada para o Boletim Rede dos Cristãos

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