O governo visivelmente se decompõe. Gangrenou. Por Pedro Tierra

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“Quando se rompe o laço de credibilidade entre o cidadão comum e o aparelho judiciário – e ele já não tem a quem recorrer – a despeito de toda a aparência de normalidade, instala-se a barbárie”.

Por Pedro Tierra*

        O fino verniz da legalidade burguesa no Brasil não resistiu ao sal da crise de Estado produzida pela inserção dos pobres no orçamento público durante os governos populares liderados pelo Partido dos Trabalhadores, Lula e Dilma à frente. Esse desarranjo no funcionamento do Estado que tutela a sociedade mais desigual do planeta provocou um violento processo de restauração.

 

Os mesmos setores de sempre, situados no topo da pirâmide social, engrenaram a marcha à ré para impedir um processo – ainda incipiente – de desenvolvimento com distribuição de renda que apontava no sentido de reduzir as criminosas desigualdades sociais e regionais cristalizadas no apartheid que marca a história do país ao longo de cinco séculos.

 

Uma classe trabalhadora atônita, que conta com precários instrumentos organizativos para uma efetiva ação de massas, combate com valentia, mas com pouca eficácia, em defesa de direitos acumulados nas lutas dos últimos setenta anos, que todos  imaginávamos consolidados na Carta Constitucional de 1988. Não alcança ainda convencer a extensa base social assalariada que busca representar, dos efeitos devastadores das contrarreformas. No imediato, expressos com a elevação das taxas de desemprego; no médio e no longo prazo, com a ausência de proteção aos mais pobres; com o congelamento dos investimentos públicos por 20 anos; com a abolição das garantias trabalhistas e a liquidação previdência social.

 

Vai, a duras penas, submetida a um bombardeio asfixiante dos monopólios de comunicação, se dando conta de que o golpe não foi efetivado para combater a corrupção – afinal, em lugar algum se combate a corrupção instalando uma quadrilha para administrar o país – mas para suprimir o capítulo dos direitos sociais da chamada Constituição Cidadã e enxuga-la de qualquer veleidade de inclusão social que justifique o título.

 

Com relativo sucesso a resistência dos trabalhadores conseguiu fazer os assalariados, contando aí os setores médios, compreenderem os danos que sofrerão com a liquidação da Previdência Social e a consequente entrega do sistema de previdência pública aos bancos.

 

Com relação à mal chamada Reforma Trabalhista, no entanto, prevalece até agora uma baixa capacidade de explicar as consequências nefastas sobre as relações entre assalariados e empregadores ao instituir a supremacia do acordado sobre o legislado; introduzir a vigência das contratações temporárias; vender malandramente uma antiga ilusão capitalista de que o trabalhador “é o empreendedor de si mesmo” e com isso nos fazer engolir a patranha ideológica da igualdade de condições entre patrão e empregado no momento do contrato. Tudo isso  num país que arrasta atrás de si os ossos da tradição escravocrata nas relações de trabalho.

 

A arrogância da direita triunfante, verbalizada há poucos dias por um ex-ministro tucano e reiterada pelo dono do maior banco do país já anuncia seu propósito: liquidar a força dos sindicatos como condição indispensável para prosperar a super exploração da mão de obra assalariada e nos remeter às condições que antecederam à Lei Áurea. O sonho dos neoliberais do século XXI, nestes trópicos, reproduz as feições dos sonhos de seus avós, os liberais do século XIX: repousa sobre a exploração do trabalho escravo, ou da “servidão voluntária” como definiu há poucos dias um juiz do trabalho.

 

Problemas. Os prepostos que ocuparam a vanguarda do golpe para cumprir a agenda neoliberal: retirar o Brasil da exploração da maior riqueza descoberta pela Petrobrás, a maior do século, e abrir as jazidas do Pré-sal para as petroleiras concorrentes; aprovar a lei da venda de terras a estrangeiros; franquear a Base de Alcântara aos EUA; desmantelar o Programa Nuclear; votar a reforma trabalhista e a liquidação da previdência social. Os encarregados de conduzir esse programa sinistro para qualquer nação, materializam nos atos quotidianos o oposto do discurso que galvanizou os corações das classes médias envergando a camisa amarela da seleção pelas ruas do país: o combate sem tréguas à corrupção.

 

Pouco tempo se passou e nem os segmentos mais estúpidos das classes médias envenenados pelo bombardeio fascista que jorra dos meios de comunicação engole a farsa: não se combate a corrupção utilizando o lumpen encabeçado por Eduardo Cunha, Michel Temer, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Henrique Alves, Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Aécio Neves, José Serra para nos atermos à linha de frente. Estes senhores não encontram tempo para governar. Estão diariamente às voltas com os Procuradores do Ministério Público e os Delegados da Polícia Federal. Aquele suplente de deputado, Rocha Loures, mencionado por Temer como um rapaz “de boa índole“, flagrado com a mala contendo $500 mil reais, generosamente oferecidos pela JBS a um destinatário por enquanto não identificado, não conta naquela vistosa vanguarda. Trata-se apenas de um contínuo do presidente usurpador. O fato passa indiferente aos olhos dos setores sociais e políticos que sustentam o governo e o simulacro de legalidade que ele encarna. E como um acidente aos olhos do Judiciário que o libertou na última semana, agregada uma tornozeleira eletrônica à indumentária.

 

O governo visivelmente se decompõe. Gangrenou. A cada semana perde um pedaço, alvejado por denúncias de corrupção. Sua sobrevivência virou uma permanente fuga para frente. Acossado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Os mesmos procuradores que deram uma decisiva contribuição para que pusessem abaixo o governo de Dilma Rousseff, eleito pelo voto popular e se instalassem no Palácio do Planalto em seu lugar, para regenerar o país da mancha do petismo.

 

O governo golpista cambaleante segue porém, desafiando a lógica e a decência, encontrando energia suficiente para levar adiante a agenda antinacional e antipopular, ainda que tenha de lançar ao mar o cadáver político de Temer, substitui-lo por um Rodrigo Maia embalsamado até 2018 e atender aos objetivos originais do golpe: restaurar a agenda neoliberal implementada parcialmente pelos governos Collor e Fernando Henrique e interrompida nos governos Lula e Dilma para dar lugar a um Projeto de Desenvolvimento Democrático Popular e de afirmação da soberania nacional que não sobreviveu às contradições da base social e política que por doze anos o sustentou.

 

Prepara-se o funeral de Michel Temer para poupar o nariz dos mais sensíveis e perfumam Rodrigo Maia para impingi-lo à nação, antes que as maiorias sociais tenham conseguido acumular força suficiente nas ruas com a mobilização da sociedade por Diretas Já! e, assim, recuperar a soberania popular, único caminho para impedir o aprofundamento da catástrofe que o golpe significa para o Brasil.

 

 

*Pedro Tierra (Hamilton Pereira) é poeta, fundador do Partido dos Trabalhadores e ex-presidente da Fundação Perseu Abramo. Texto enviado pelo autor por e-mail com a intenção expressa de “contribuir com o debate político”.

Dom Pedro Casaldáliga conversa com Deus sobre como Temer foi parar lá

BRASÍLIA: A SODOMA E GOMORRA DE PINDORAMA

Por José Ribamar Bessa, em seu site

No mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) soltou o deputado Rocha Loures (PMDB, vixe vixe) e negou o pedido de prisão do senador Aécio Neves (PSDB vixe vixe), o Criador do Universo, escoltado por um querubim e um serafim, apareceu a Dom Pedro Casaldáliga, de 89 anos. O bispo emérito de São Félix do Araguaia descansava às margens do rio Xingu, na área alagada da Cachoeira do Limão, debaixo da última árvore que sobreviveu ao desmatamento da Hidrelétrica de Belo Monte. Levantou os olhos e prostrou-se descalço sobre a terra vermelha diante da face divina:

– Vou buscar um pouco de água para lavar vossos pés – disse o bispo, debilitado pelo mal de Parkinson. Deslocou-se em sua cadeira de rodas e pediu ao padre agostiniano José de Jesus Saraiva, que é seu enfermeiro:

– Traz água. Prepara farinha de mandioca, beiju e aquela quinhapira do Tiquié, lá do Rio Negro, aquela feita pela sogra do Nazareno.

Ofereceu aos visitantes peixe e vinho de buriti. O serafim pediu pimenta murupi. O querubim, malagueta. Enquanto os dois “seguranças” angelicais saboreavam a quinhapira dos deuses, Dom Pedro indagou:

– Senhor, o presidente Michel Temer declarou em cadeia nacional de televisão: “Não sei como Deus me colocou aqui”. Senhor, está é a pergunta que fazem 200 milhões de brasileiros e a primeira-ministra Erna Solberg, da Noruega (ou será da Suécia?). Por que, Senhor, Vós lá o colocastes, envergonhando-nos diante de nós mesmos e do mundo? Além de corrupto, ele é medíocre.

Foi aí que o Senhor Deus dos Exércitos abriu o jogo:

– Pedro, me inclui fora dessa. Isso não é obra minha, mas de Lúcifer, o capiroto, que confessou em delação premiada ter agido em conluio com o pato da Fiesp. Por isso, estou aqui. Acaso poderei ocultar-te o que vou fazer? Tal qual Sodoma e Gomorra, é imenso o clamor que se eleva do Brasil. O pecado é grande. Muita corrupção: gente embolsando recursos da saúde, da educação, da cultura, da merenda escolar. Uma quadrilha, que tomou de assalto os poderes de Estado, comete crimes que bradam aos céus e pedem a Deus vingança.

– E o que ide vós fazer contra esses crimes sem castigo? – perguntou o bispo.

– Eis que é chegada a hora do ajuste de contas. Estou mandando os anjos conferirem. Se for verdade, ai de ti, Brasil! Os quatro cavaleiros do Apocalipse trarão fome, desemprego, doenças e morte. Fogo e enxofre cairão do céu. A lama da Mineradora Samarco que jorrou com o rompimento da barragem de Mariana e destruiu casas, árvores, pássaros, peixes, envenenou os rios, matou gente e animais, na maior catástrofe ambiental do Brasil, vai parecer café pequeno.

O bispo do Araguaia, com seu chapéu de palha e seu anel de tucum que substituíram a mitra e o ouro, implorou:

– Senhor, não destruais o Brasil. Os inocentes não podem pagar pelos pecadores. Castigai apenas os ímpios. Preservai os justos: são milhões de brasileiros conscientes e honestos. Fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis o país em atenção a essas pessoas?

O Senhor respondeu:

Ego accípior. Se encontrares em Brasília 50 homens justos, eleitos pelo povo, incluindo aí juízes do Supremo Tribunal Federal, ministros e ocupantes do Palácio do Jaburu, em atenção a eles, pouparei o país da destruição.

Dom Pedro fez as contas nos dedos, calculando, excluiu Jucá, Renan, Gilmar Mendes, Toffoli, Marco Aurélio, Alexandre de Moraes, Temer. O bispo tremeu nas bases e negociou:

–  Excelência, não me leveis a mal, se ainda ouso falar-Vos, embora seja eu pó e cinza. Se porventura faltar dez aos 50 justos, fareis perecer todo o país por causa desses dez?

O Senhor respondeu, tratando com a maior intimidade o bispo a quem muito amava:
– Fica frio, Pedro. Não destruirei o Brasil, se em Brasília forem encontrados 40 homens justos hoje no poder.

Dom Pedro voltou a contar. Foi excluindo um a um: deputados, senadores, juízes, ministros. Barganhou como um camelô da rua Uruguaiana:

– Rogo-vos, Senhor, que não vos irriteis se eu insisto ainda! Talvez só se encontrem 30 justos.

Deus, que não é besta, contou também nos seus dedos e desafiou:
– Se encontrarmos 30 políticos ou juízes incorruptíveis em Brasília, salvo o país inteiro.

Dom Pedro, que também não é leso, pediu as pastas do arquivo do Centro de Defesa dos Direitos Humanos para ali pesquisar os recortes de jornais e ponderou:

– Desculpai, se ouso continuar enchendo – com todo respeito – o Vosso divinal saco e torrando Vossa celestial paciência. Pode ser que só se encontrem 20, um deles já está em nossa lista, é o juiz Herman Benjamin.

– Tudo bem, Pedro.  Me diz quais são os outros e em atenção à tua coragem e aos 20 homens públicos honrados, não destruirei o Brasil.

Dom Pedro buscava os nomes, mas só encontrou Aécio, “o Mineirinho”, jamais preso apesar de ter suas trapaças fartamente documentadas; Rocha Loures, o homem da mala de dinheiro do Temer, agora solto; as falcatruas do Moreira Franco, o “Angorá”, e do Cunha; o cinismo de Gilmar Mendes libertando Eike Batista e de Marco Aurélio devolvendo o mandato a Aécio; visualizou – ai! – José Serra e – ai, ai –  Geraldo Alckmin, absolutamente impunes. O bispo pediu, então, à CNBB verificar na sessão plenária da Câmara dos Deputados do dia 30 de julho. Às 9h30, o único parlamentar solitário que lá estava era Celso Jacob (PMDB-RJ), preso por falsificação de documentos e dispensa indevida de licitação e autorizado a sair da prisão e a ela retornar depois de poder votar medidas sobre o destino dos brasileiros. Dom Pedro, derrotado, replicou:

– Senhorzinho de minh’alma. Não se irrite se falo ainda uma última vez! Que será se forem encontrados apenas 10 homens públicos honrados?

Deus respondeu sem pestanejar:

– Negócio fechado. Ainda assim não destruirei o Brasil por causa desses dez.

Nesse exato momento, os anjos, a quem tentaram subornar com propinas, já haviam feito suas contas. Chamaram o povo para as ruas e disseram a todas as pessoas decentes:

– Levantai-vos. É preciso sair de vossa apatia e desânimo, porque do contrário o Senhor vai destruir o Brasil. Ganhai as ruas. Manifestai vosso protesto e batei panelas. Panelas não são monopólio do pato da Fiesp. Batei panelas. Nada de olhar para trás, para não virar estátua de sal.

Foi aí, então, que a população descobriu, enfim, que quem colocou Temer no Jaburu e lá o mantém não foi Deus, mas nossa própria inércia política. E que ele só sai de lá se for retirado pela mobilização popular.

De todos os rincões do Brasil, ouviu-se um coro de vozes:
– Assim seja. Amém, Jesus! Aleluia, peixe no prato, farinha na cuia.

Houve queda na Bolsa de Nova York com repercussão na Sacola de Brasília. Siempre es posible la utopia.

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