Massacre em área rural no Mato Grosso deixa nove mortos

camponeses-assassinados-lcp-rondonia
Charge: Carlos Latuff

Líder do ranking de desmatamentos na Amazônia, a cidade de Colniza (MT) foi palco de mais um episódio violento nesta quinta-feira (20), quando adultos, idosos e crianças foram assassinados. De acordo com as informações, ainda preliminares, dez pessoas foram vítimas do massacre, feito por “encapuzados”, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso. (trecho de matéria da Agência Brasil)

Atualização do QTMD? (23/04/2017): quando publicamos a matéria, as informações, ainda preliminares, davam conta de 10 mortos, incluindo crianças.  Tais dados eram sustentados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que neste domingo (23) publicou um vídeo no qual esclarece que foram, na verdade, nove mortos, todos homens pais de família. Isso, claro, não diminui a natureza trágica do crime.

O QTMD? reproduz abaixo carta-aberta da Prelazia de São Félix do Araguaia, que seguindo a tradição de denúncias do bispo Pedro Casaldáliga, hoje com Parkinson, mas lúcido, manifesta-se sobre o episódio.

EM MATO GROSSO O CAMPO JORRA SANGUE
A Prelazia de São Félix do Araguaia, em reunião com suas/seus agentes de pastoral, seu bispo dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito dom Pedro Casaldáliga, na cidade de São Félix do Araguaia – MT, manifesta sua dor, indignação e solidariedade com as famílias assassinadas na Gleba Taquaruçu, município de Colniza – MT, no dia 20 de abril.
Este massacre acontece num momento histórico de usurpação do poder político através de um golpe institucional, com avanços tão graves na perda de direitos fundamentais para o povo brasileiro que coloca o governo do atual presidente Temer numa posição de guerra contra os pobres, isso refletido de forma concreta nos projetos, como as Medidas Provisórias 215 e 759, que violam direitos dos povos do campo e comunidades tradicionais, como também no acirramento do cenário de violações contra as/os defensores de direitos humanos. Diversos políticos expõem abertamente seus discursos de ódio e incitação à violência contra as comunidades que lutam pelos seus direitos. Vivemos um clima de “Terra sem lei”, uma verdadeira guerra civil em nosso país.
Como consequência, o ano de 2016 foi o mais violento dos últimos 13 anos, apontando para uma perspectiva desoladora no campo. E esta situação de Colniza, onde assassinaram inclusive crianças, nos expõe diante dos objetivos de ruralistas que não temem nada para conseguir as terras que buscam.
As famílias de agricultores da Gleba Taquaruçu vêm sofrendo violência desde o ano de 2004. Neste período, em decisão judicial, a Cooperativa Agrícola Mista de Produção Roosevelt ganha reintegração de posse concedida pelo juiz de Direito da Comarca de Colniza, como anunciada na Nota da Comissão Pastoral da Terra, de 20 de abril deste ano. Em 2007, ao menos 10 trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado e, neste mesmo ano, três agricultores foram assassinados.
Como estão, neste momento, as famílias que vivem em Colniza? O município já foi considerado o mais violento do país. Sabemos que na região existem outros conflitos de extrema gravidade, como o da fazenda Magali, desde o ano 2000, e o conflito na Gleba Terra Roxa, desde o ano de 2004. A população teme que outros massacres possam acontecer.
Clamamos justiça e que os autores desses crimes sejam processados e punidos. A conseqüente impunidade no campo, fruto da omissão dos órgãos públicos, perpetua a violência.
Na semana em que lamentamos o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1997, que vitimou 19 lutadoras e lutadores do povo, somos surpreendidos por outro massacre no campo, que quer amedrontar, calar as vozes e submeter a dignidade do povo brasileiro.
Temos a certeza que o massacre ocorrido jamais roubará os sonhos e as esperanças do povo. E jamais calará a voz das comunidades que lutam.
O sangue dos mártires será sempre semente de JUSTIÇA e VIDA!
São Félix do Araguaia, 21 de abril de 2017.

Temer vai pegar “praga de pobre”, diz ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi

IMG_20170331_110639776
Carlos Lupi e Fernando Bandeira. Entre eles, Getúlio Vargas. Foto: Ana Helena Tavares.

Durante entrevista para biografia de Fernando Bandeira, fundador do PDT, sindicalista e ex-deputado, feita por Ana Helena Tavares, o presidente do PDT e ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi foi perguntado sobre como os trabalhistas estão vendo o momento político atual. O ex-jornaleiro e atual presidente do partido fundado por Leonel Brizola não poupou críticas a Michel Temer que, segundo Lupi, está promovendo um “governo de traição nacional”. Leia a íntegra:

“Eu vejo que nós estamos passando por um golpe muito forte contra a CLT. Eu ouso te dizer que com o legislado se submetendo ao acordado, ou seja, com o acordo valendo mais do que a lei, acaba a legislação trabalhista. Para que lei se o acordo vai valer mais do que a lei? Qual é esse acordo onde um tem o dinheiro, o poder, a máquina o patronato e outro não tem nada? O que não tem ou ele acorda ou é mandado embora.

“Então, o que o Michel Temer está fazendo é muito grave. Isso mostra a natureza golpista do governo.  A falácia do déficit da previdência é uma mentira. Eles mentem, mentem, mentem. De tanto repetir uma mentira, patrocinados pelo grande sistema de mídia, as pessoas acabam achando que é verdade (técnica usada por Goebbels, ministro da propaganda de Hitler).

“É golpe! O que eles estão fazendo com a legislação trabalhista é a revogação na prática. Terceirização sem limite! Então, não precisa mais ter concurso público, porque até o governo pode terceirizar. Quer dizer, é um bundalelê. Não tem outro termo mais adequado. Pode tudo! Isso é muito grave.

“Isso acaba com a CLT e destrói a vida sindical. Porque, olha, se eu tenho o meu sindicato representando os trabalhadores metalúrgicos e você tem outro sindicato de terceirizados. Como ficam os dois? É um para acabar com o outro.

“Virou a Casa da Mãe Joana, com todo o respeito às mães Joanas do Brasil. Cada um vai fazer o que quer. É muito grave. Muito grave. E, para mim, isso é o começo do fim.

“O Brizola falava umas frases que a gente que conviveu com ele lembra muito. Ele falava sobre a “praga de pobre”. Dizia que aquele que faz mal à população mais fragilizada ia pegar “praga de pobre”.

E o que é praga de pobre?

“É o que vai acontecer com o Temer! Ele vai ter um fim dramático porque ele está fazendo aquilo que é para destruir o trabalhador.

“Se você não tem direito ao presente e não tem perspectiva de futuro, é fatal que este governo esteja marcado como o governo da traição nacional. Está conseguindo ser pior que o Fernando Henrique. Ele está fazendo na prática o que nem Fernando Henrique – que eu não gosto – teve coragem de fazer.

“Temer bancou a aprovação da terceirização e está bancando acabar com a previdência. Hoje, para ter a complementação total, dá 105 anos de idade! Fizemos o cálculo. E eles não têm nem a hombridade de ver as condições diferentes.

“O trabalhador rural com 60 anos de idade, não por vaidade, mas pelas condições, tem uma aparência de 80, enquanto o urbano pode aparentar uns 50. Porque a vida do trabalhador rural é muito mais dura, a cara marcada, as mãos calejadas. Como é que ele vai ter a perspectiva de vida que eu tenho morando numa cidade como o Rio de Janeiro? As condições de vida são outras. O acesso à saúde, a medicamentos, a hospitais, é tudo muito melhor.

“Como você pode igualar? A média de vida do nordestino já tem melhorado, mas ainda é dez anos a menos de quem vive no sul. Então, o que este governo está fazendo é criar uma regra desconsiderando o que é mais importante: o ser humano.

“Ah, porque a previdência tá falida”, eles dizem. A previdência não fale! Os administradores é que falem. Quem tá falindo é o governo do Temer. Porque não tem competência para gerir o Estado! Jogar a conta pro lado mais fraco é fácil. Sempre o aposentado que paga. Mas nunca chegam ao maior câncer da sociedade que é o sistema financeiro. Baixou a taxa de juros, mas continua sendo das maiores do planeta.

“E o sistema financeiro é criminoso contra quem precisa. O que ele quer com a previdência? Ele quer diminuir entre aspas um déficit que não existe para pagar juros e amortização da dívida interna e externa. Dá mais valor ao capital do que ao ser humano. Não importa que o ser humano morra. Não importa que só vai se aposentar depois dos 70 anos. O importante é pagar dívida!

“Ora, se você, como cidadão, tem uma dívida com um banco – e se ela é impagável – você negocia com o banco e ele diminui a dívida. Tenho pessoas da minha relação que negociaram dívidas por 20% do valor.

“O Brasil não negocia! O Brasil quer pagar tudo e se atrasa um dia parece que o país vai acabar. Essa questão da dívida, que é um câncer que nós temos no Brasil, tudo o que melhorar de arrecadação vai ser para pagar a dívida.”

 

%d blogueiros gostam disto: