Hoje a passeata chorou

Hoje a passeata chorou

Você era o mais vibrante dos alunos da escola
Você sorria radiante, você lutava até por bola
Hoje você se cala, mas a luta continua
O povo ainda rala, ainda clama, ainda sua

Hoje a passeata chorou pela falta de você

Quem não te viu chorar
Não consegue mais te ver sorrir
Quem te viu lutar
Não aceita o seu fugir

Quando a tortura começava você era o mais valente
E se a dor apertava a sua força era na mente
Hoje o país é outro e a tortura é de outro tipo
Mas existe e você nada, como se não fosse mais contigo

A nossa música, você lembra? Era forte, era protesto
A utopia era o que importava, pra depois ficava o resto
Hoje, saudoso, eu visito aquelas praças que tinham vida
Pra dizer aos meus olhos que buscamos uma saída

Todo dia olho no espelho e me orgulho daquelas bolinhas
As de gude, que jogamos, pra derrubar cavalarias
Imaginas como me dói escrever-lhe estas linhas?
Assistindo-o ir à TV dizer tantas patifarias?

Quem teve ânsia de justiça, não se acostuma à covardia
Quem quis mudar o mundo, não o vive sem magia
Não sei como você pode ter vendido a sua alma
É triste, é deprimente, não me peça pra ter calma

Hoje a passeata chorou pela falta de você

15 de Agosto de 2010,
Ana Helena Tavares

Livremente inspirado na letra da música “Quem te viu, quem te vê“, de Chico Buarque.

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Entre “hipocondríacos” e “ecocapitalistas”, aproveitou-se pouco

Plínio, em dia de grande inspiração, assuma-se, acusou o debate de “lembrar Polyana”, a eterna luta entre “o bem e o mal”. “Isso não quer dizer nada”, garantiu. Talvez não queira mesmo.

Por Ana Helena Tavares (*), para o “Traços de Estilo” e o “Quem tem medo do Lula?“.

O locutor anuncia: “É um momento histórico”. Menos. Não chegou a tanto. Hoje, todos se lembram dos folclóricos debates de 89. Daqui a 20 anos, ninguém se lembrará do debate promovido ontem (05/08/2010) pela Band. Mas deixo aqui o meu registro.

Dentro de um regime democrático, a iniciativa de um debate com quatro candidatos é sempre louvável, diga-se, mas a democracia só seria plena se participassem todos. Este, do modo como foi, com as regras antiquadas de sempre, foi morno e sonolento. Cortês demais para ser real, faltou o Brizola e até o Enéias.

Plínio de Arruda Sampaio, militante político histórico, abusou do fato de ser renegado, mas conseguiu ser o Brizola da vez. Era o único com a alma presente ali. Serra nunca a teve; Marina a vendeu ao “ecocapital”; Dilma, nervosa, não conseguiu achá-la. Até os jornalistas a deixaram em casa. Confesso que dormi mais do que vi.

Mas vamos ao que ouvi que seja digno de nota.

Serra, dormindo no ponto da história, demonstrou desconhecer muitos programas do governo Lula. Indagado por Dilma sobre o “Luz para todos” (programa que leva eletricidade aos meios rurais), o tucano, do alto de seu muro, olhou para baixo, olhou para os lados, não encontrou nenhum assessor e deu branco: “Hã?”.

Dilma, robótica, falou no “Brasil Sorridente” (programa para levar tratamento dentário através do SUS), mas podia ter sorrido mais – tem motivos para isso..

Serra, que não os tem, acha que falar de saúde vai salvar sua vida. “Logo se vê porque o chamam de hipocondríaco”, atirou Plínio, em momento Enéas. O candidato tucano até tentou falar de outras coisas, educação, por exemplo. Mas só conseguiu me arrancar uma risada (preguiçosa, porque há piadas melhores) quando disse que criará “o ProTec – o ProUni do ensino técnico”. Suponho que vá usar como padrão os excelentes programas sociais aplicados em São Paulo, como o “ProPorrete”. Acusou o governo Lula de estar “perseguindo as APAES”, no que foi bem desmentido por Dilma.

Marina, morena, mas sem rima nem sal, insiste que sua candidatura representa a proposta de um “realinhamento histórico”. Quer “governar com os melhores quadros do PT e do PSDB”, como disse em outra ocasião. Chamada por Plínio de “ecocapitalista”, a nobre candidata só fala em “conciliação”: é do desenvolvimento com o meio ambiente; é dos políticos em irmandade. Utopia pouca é bobagem.

Utopia por utopia, Plínio e sua “distribuição drástica de renda” também não fica atrás. Eu também queria.

O que Serra não quer é “fazer campanha com os olhos no retrovisor”. É incrível como se entrega. Por que Dilma pode se orgulhar de ter coordenado a equipe de ministros de Lula (“uma oportunidade vigorosa”, como ela definiu), enquanto Serra foge de seu “retrovisor”? Deve ser mesmo horrorizante olhar para trás e ver FHC.

Mas horrorizada mesmo eu fiquei ao constatar que, enquanto Serra o renega, Marina simpatiza com o “príncipe da Sourbonne”. “O Brasil elegeu um sociólogo que fez importantes transformações econômicas”, disse ela, quando quase desliguei a TV.

Com muita persistência, consegui ouvir as considerações finais.

Serra só não chorou porque não tinha colírio por perto. Plínio, em dia de grande inspiração, assuma-se, acusou o debate de “lembrar Polyana” ou, em outras palavras, a eterna luta entre “o bem e o mal”. “Isso não quer dizer nada”, garantiu. Talvez não queira mesmo.

*Ana Helena Tavares, jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz.

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