A transfiguração da democracia

E vejo o sentido dessa democracia, conseguida a tão duras pedras, ser transfigurado pelo pensamento retrógrado dos pouquíssimos clãs que detêm o poder sobre nossa mídia. O que gera a pior das ameaças que pode existir – a que vem escondida por um belo tapete.
Por Ana Helena Tavares (*)

Um ataque que abalou o Brasil no conluio da direita militar contra a abertura política completa hoje (27 de Agosto de 2010) exatos 30 anos. O advogado e professor Luiz Felippe Monteiro Dias, filho de Lyda Monteiro, vítima fatal ao atentado à OAB, em 27 de Agosto de 1980, tem vindo a público para lembrar que aquele crime não pode ficar até hoje impune. Aquele como tantos outros.

Hoje ele estará às 13:40, hora do atentado, na antiga sede da OAB para um ato em memória de sua mãe. Em 26 de Agosto de 2009, quando o atentado estava em véspera de completar 29 anos, ele declarou ao hoje agonizante Jornal do Brasil: “nosso país tem uma tradição política de barganhar a história. Mas não pode continuar jogando o lixo para debaixo do tapete”.
Concordo plenamente.
A democracia está em que todos possam ter acesso à sujeira de ambos os lados. Um regime democrático não pode permitir que sua história, suja ou limpa, seja encoberta pelos tapetes do esquecimento. Não é possível avançar assim.
Aqueles foram anos pautados pela dureza, uma pauta encapuzada, protegida pelos setores conservadores e reacionários, que crêem na mão pesada como saída. Havendo ou não punição aos algozes, é imprescindível que as novas gerações tenham acesso aos arquivos daquele período, que tenham direito ao contraditório, tantas vezes negado por nossa “grande” imprensa. Enfim, que tenham o direito de pisar sobre chão descoberto.
Tapetes são ótimos para se tropeçar.
No entanto, nosso país saiu da ditadura a qual se viam os capuzes para mergulhar em anos de uma hipocrisia perigosa. Uma hipocrisia compactuada pela parcela podre da mídia, saudosa dos anos de repressão em que se acreditavam mais felizes.
Saber-se sob controle exerce estranho fascínio, mesmo em mentes das mais instruídas, vai entender. Isso sem falar naqueles fascinados por exercê-lo.
Um fascínio que se mantém na velha política dos coronéis. Nosso “digníssimo” ex-presidente do STF foi acusado publicamente – e de forma enfática – por seu mais bravo colega de toga, de andar ciceroneado por capangas. Nosso “digníssimo” presidente do Senado, dono do Maranhão, tem o hábito de colocar seguranças armados para receber equipes de reportagem com truculência. Temos um “digníssimo” ex-presidente da República, dono de Alagoas, que anda chamando repórter de “filho da puta” e, sem a necessidade de jagunços, ameaça, ele mesmo, “meter a mão na cara”.
Capangas, seguranças armados, jagunços, valentões… Estão longe do charme de um 007, mas os desafie de verdade e tenho certeza de que, assim como o agente secreto da rainha inglesa, eles também “têm licença para matar”.
Observem, por exemplo, que, para os donos da mídia, o MST é terrorismo, mas os capangas e jagunços rurais que matam trabalhadores a sangue frio podem ficar impunes. Assim como quem os paga se julga com “licença” para ludibriar constantemente o povo e sente-se livre de penalidades. Ou pior, acima delas.
É, portanto, um constante jogo de aparências que já não permite que a sociedade enxergue com precisão onde estão seus algozes. Mas lá estão eles. Os de hoje, com outros métodos, e os de ontem, escondidos do público, caminhando impunes pelas ruas desse Brasil, depois de pagarem com a morte o idealismo de tantos brasileiros.
Eu não vivi aquela época. Nasci bem no finalzinho do exato ano em que Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Luís Inácio Lula da Silva e, até mesmo, um FHC bem diferente do que ocupou o Planalto – ou o Ex-FHC, já que agora isso tá na moda… – subiam juntos a palanques para gritar que as eleições tinham que ser diretas e tinham que ser já! Ou seja, cheguei a esse mundo doido e a esse Brasil de tantas contradições, ganhando de presente de boas-vindas a democracia.
Pena que hoje nosso sistema judiciário esteja entregue a pessoas que se julgam donos do mundo. Há quem se salve, claro, sempre há. Mas, em todas as esferas do poder, falsos paladinos da liberdade e da moralidade proliferam-se mais que cupim.
E vejo o sentido dessa democracia, conseguida a tão duras pedras, ser transfigurado pelo pensamento retrógrado dos pouquíssimos clãs que detêm o poder sobre nossa mídia. O que gera a pior das ameaças que pode existir – a que vem escondida por um belo tapete.
Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz.

Com licença, sociedade, que eu vou sair por aí com a minha caneta (II)

Era o caos para o cenário. O caos: o inesperado. Não para mim. Eu já conhecia aquele rosto.

Até o violão, estou certa, era o mesmo. Mas, dessa vez, ele não estava só.

Por Ana Helena Tavares*

O ônibus seguia calmamente seu rumo. Era uma tarde fria, apesar de o cenário ser a Central do Brasil, Rio de Janeiro. A mesma que já virou nome de filme, a mesma tão maltratada. Muitos desembarcaram ali, mas houve também quem embarcasse. A música e a poesia, por exemplo.

Era o caos para o cenário. O caos: o inesperado. Não para mim. Eu já conhecia aquele rosto. Até o violão, estou certa, era o mesmo. Mas, dessa vez, ele não estava só.

Aquele rapaz que, já há mais de um ano, eu sei que resolveu pedir licença à sociedade e sair por aí com seu violão estava agora acompanhado de outro que, tal como ele, saiu por aí com sua coragem. E que melhor companhia pode haver para os acordes de um violão do que uma voz firme, ao lado, declamando versos?

A platéia era maior e viu-se anestesiada, pois o companheiro do músico não só declamava, como também encenava cada palavra que trazia num surrado caderninho. Observando aqueles gestos, aqueles passos largos pelo ônibus afora e, principalmente, aquele olhar fixo de quem acredita com devoção na palavra mudança, por alguns segundos, cheguei a crer que o mundo poderia trocar cada revólver por uma caneta e por uma palheta de violão.

Era o caso de não querer descer, mas, uma hora, o ponto chega. Desci. Feliz pelo reencontro que demonstra a persistência de alguém que não se importa com rótulos. Quantos hão de ter pensado: “Caras loucos!” E quantos queriam estar no lugar deles? Arrisco-me a dizer que muitos.

Liberdade é a palavra. Desci com a certeza de que para se chegar a ela é preciso ser considerado louco pela sociedade cruelmente hipócrita em que vivemos.

Pois, se é assim, que me sigam os loucos… A caneta é o meu violão.

*Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz.

=> Dedicado a Joannes Jesus, agora eu sei o nome dele. Nascido em Taubaté, SP, é estudante de história, compositor de música popular, integrante da banda “Na sala do sino” e, claro, artista de rua (e de ônibus)

Parte 1: http://ahrt84.blog.terra.com.br/2009/03/29/com-licenca-sociedade-que-eu-vou-sair-por-ai-com-a-minha-caneta/

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