Aceita o Ano Novo?

Quer vir por aí um verdadeiro ano novo
Aurora de vida, aurora de começo
Aquele que, do ninho, é único ovo
Aquele que nasceu para o seu endereço.

Mas você o aceita
ou você o enjeita?
Quantas vezes você ri de si mesmo
achando que solta o riso a esmo?

E, assim, dos novos faz velhos,
não avança nem alcança
As pedras que poderiam
construir castelos.

Foi mal-vivido seu ano passado?
Faz novo, faz lavado…
Foi sem-sentido seu ano antigo?
Embaralha-o, joga pro alto, qual o perigo?

O perigo é ficar olhando o novo chegar
“Vou fazer regime segunda-feira”
Os janeiros ficam a nos esperar
“Mas que adianta se como bolo na terça-feira?”

Não aceite pinturas, remendos de um ano novo fajuto
Há que se plantá-lo a cada minuto, a cada segundo
Preste atenção às formiguinhas com olhar astuto
Como acha que elas sobrevivem nesse mundo?

Dentro é que importa, o fora não chora
Aparência não vale um sorriso
Quanto mais lágrimas de paraíso
Lágrimas de renovação, de um ano que foi embora

E foi bem-vivido o seu ano?
Faz novo também, torce o pano.
E fez sentido seu ano que ficou pra trás?
Embaralho-o também, nada que faz muito sentido é bom demais.

Um pouco de bagunça também é bom
Mas, epa, há um figurino…
Comer, passear, ficar no bem bom…
Até parece que é só isso o destino…

Figurino de trabalho, figurino de estudo
Tudo isso terá no ano vindouro…
E por que não? Mas abra os braços sem escudo…
E tudo isso será tesouro.

Você não precisa se embebedar na virada
Tudo que o ano novo quer é que você empilhe as pedras da estrada.

07 de Dezembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Aceita o ano novo?

Versos sem nenhum caráter

“Diálogo” poético com Mário de Andrade. Aspas nos trechos dele e os meus em negrito.

– Para minha amiga Márcia Eloy, que mesmo depois de já ter visto jorrarem em sua frente tantas gotas de sal e de, junto a elas, já ter chorado tantas lágrimas de ário, jamais desistiu da militância.

“Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!”

Eu enalteço o extremista! O extremista-nota
o extremista-extremista!
O mal-feito que se nota! Que se deixa notar.
O homem-direto! O homem-mão!
O homem que sendo branco negro e pardo
É sempre sim, sim, sim ou não, não, não.

“Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos’

Eu obedeço aos humildes que não mandam!
Aos mendigos poetas! Às vozes discretas… Aos sussurros dos burros!
Considerados burros por um mundo partido ao meio,
Por gemerem o sangue alheio.

“Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!”

Eu exalto o freguês-modesto!
Um gesto baixo, e um pão bem quente com manteiga à beça!
Viva os que algodoam as nuvens!
Olha como são alvas e fofas!
Fará Sol? Choverá? Algodoem-nas!
Mas aos camuflados que se abrigam nos brejos
A cegueira trará sempre dilúvio.

“Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!”

Vida à textura!
Vida a tudo que se testa! Tudo que se cava!
Vida ao trabalhador-diário!
Gotas de sal, lágrimas de ário.

04 de Dezembro de 2008,
Ana Helena Ribeiro Tavares

Versos sem nenhum caráter

%d blogueiros gostam disto: