Por Hélio Schwartsman, na Folha de S.Paulo de 24/02/2012
Já que estão tirando tudo dos gregos, dou minha contribuição à pilhagem, roubando-lhes os direitos autorais sobre a democracia.
Desde criancinhas, aprendemos que foram os gregos, mais especificamente os atenienses do século 5º a.C, que inventaram e implementaram o sistema pelo qual o povo governa a si mesmo. O problema é que essa ideia é falsa. Trata-se de um mito forjado no século 19 e que perdura até hoje, apesar do acúmulo de evidências em contrário.
Como mostra John Keane no instigante “Vida e Morte da Democracia”, a palavra “democracia” e práticas a ela relacionadas já circulavam pelo mundo grego desde o final da Idade do Bronze (c.1.500-1.200 a.). Suas raízes remontam a inscrições conhecidas como linear B, do período micênico, nas quais aparece o termo “damokoi”, para designar funcionários que agiam em nome do “damos”, isto é, do povo.
Pelo menos a metade das cerca das 200 cidades-Estado gregas experimentou a democracia, muitas delas antes da Atenas do século de ouro.
Keane vai mais longe e oferece farta documentação de que o elemento central da democracia, as assembleias populares autônomas, surgiram ainda antes no Oriente, em território que hoje correspondem a irã, Iraque e Síria – sim, a história pode ser profundamente irônica. De lá, ela se espalhou para todos os lados, como forma eficaz de combate à tirania. A leste, chegou até o subcontinente indiano. Por volta de 1.500 a.C., no início do período védico, repúblicas dirigidas por assembleias eram comuns. A oeste, o costume de autogoverno atingiu as cidades fenícias de Biblos e Sidon, de onde ganhou a civilização grega.
Essas descobertas implicam que ciclos de nascimento e morte da democracia são bem mais comuns do que pensamos. Num mundo em que até o passado é incerto, devemos nos acautelar contra o excesso de otimismo com o futuro.
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Nota do QTMD?: O site completará seu 1º ano no dia 08 de Abril. Ao longo do mês de março, pretendo publicar textos sobre o que é democracia, até que possamos responder à pergunta-título e esclarecer quem, afinal, tem medo dela. Este texto é reproduzido, mas alguns colaboradores já prometeram artigos exclusivos sobre isso. Quem quiser enviar textos próprios ou de outras pessoas, aceito sugestões.























1 comentário
vitor
28/02/2012 em 19:09 (UTC -3) Link to this comment
o importante não é onde ela nasceu, ou se Atenas apurou o seu sentido. o notável é como a democracia tramou os Gregos, ou seja como foram dominados pelos Macedónios, e porquê tal aconteceu… A minha explicação advém da divisão dos Gregos, da sua falta de discernimento em trabalharem politicamente em prol do bem comum…..